MICHELE OLIVEIRA
MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS)
Os números de brasileiros que foram barrados nas fronteiras externas da União Europeia, que receberam notificações para deixar um país em que viviam de forma irregular no bloco e que acabaram repatriados aumentaram em 2025.
Segundo o Eurostat, instituto de estatísticas da UE, o Brasil ficou entre os 15 primeiros países tanto na categoria dos que tiveram cidadãos impedidos de entrar no bloco quanto no grupo dos que foram repatriados. Em um ano, o número de brasileiros repatriados quase dobrou. Os dados foram divulgados no início de maio.
O aumento de brasileiros repatriados para fora da UE coloca o Brasil na 13ª posição entre cerca de 170 nacionalidades. Eles somaram 3.050 no ano passado, uma alta de 94% em comparação a 2024.
No total, 132,6 mil estrangeiros foram impedidos de entrar na UE em alguma das suas fronteiras externas, um aumento de 7% em relação a 2024. Os países que mais rejeitaram a entrada foram Polônia, França e Croácia.
Do outro lado, os países que mais tiveram cidadãos com entrada negada foram Ucrânia, Albânia e Moldova. A maioria das negativas (54%) foi dada a pessoas que cruzavam fronteiras por terra. Em seguida, vieram as rejeições em aeroportos (43%) e fronteiras marítimas (3%).
Os dados mostram que, dos quase 27 mil ucranianos barrados, 85% dos casos ocorreram na Polônia. É um efeito da guerra entre Rússia e Ucrânia, que já dura mais de quatro anos. Atualmente, quase 1 milhão de refugiados ucranianos vivem na Polônia com visto de proteção temporária. Os barrados na fronteira são pessoas que se encontravam fora desse status.
Os brasileiros aparecem em 12º nessa lista, com 2.910 pessoas impedidas de entrar, sendo a grande maioria (92%) barrada em aeroportos. Em relação a 2024, o número teve alta de 14%.
Os países que mais rejeitaram brasileiros nas fronteiras foram Portugal e Irlanda. Os dois concentram grandes comunidades de brasileiros, o que acaba por atrair outros conterrâneos. Sem documentação adequada, acabam impedidos de entrar.
Outro índice que registrou alta para brasileiros foi o de notificações para deixar um país do bloco devido a situação irregular, como falta de autorização para residência ou visto de trabalho.
No ano passado, 6.875 brasileiros receberam ordem para sair da UE, cifra 57% maior do que em 2024. Os países que mais determinaram que brasileiros deixassem seus territórios foram Bélgica, França e Portugal.
Neste último, a alta de brasileiros notificados foi de 315%.
Os números em Portugal refletem mudanças recentes na legislação, como a extinção da “manifestação de interesse”, que permitia a quem tinha entrado no país como turista, sem visto, pedir a regularização para ter estadia permanente. Sem o mecanismo, vistos de trabalho ou de estudo devem ser obtidos antes da viagem.
Os países que mais repatriaram brasileiros foram Bélgica, França, Portugal e Irlanda. Os casos incluem pessoas que deixaram um país da UE após terem recebido uma ordem para sair por estarem em situação irregular. A maioria (56%) foi repatriada de forma voluntária contando com algum tipo de assistência para a viagem e cerca de 30% foram deportados (retorno forçado).
Em Portugal, o Brasil foi o país com mais cidadãos repatriados, representando 74% do total. Também na Bélgica os brasileiros foram a primeira nacionalidade da lista de repatriados, mas em proporção menor, com 20%. Na Irlanda, foram o segundo maior grupo.
No total, 135,4 mil estrangeiros foram repatriados para fora do bloco em 2025, alta de 21%. Os que mais repatriaram foram Alemanha, França e Suécia. E os que mais deixaram o bloco nessa modalidade foram cidadãos da Turquia, Geórgia e Síria. Ao mesmo tempo em que as repatriações subiram, o número de pessoas presentes ilegalmente na UE diminiu 22%.
Para Pedro Góis, professor da faculdade de economia da Universidade de Coimbra, em Portugal, especialista em movimentos migratórios, os dados refletem o aumento do rigor na aplicação das regras da UE. “Alguns países que eram mais benevolentes estão hoje mais atuantes na obrigação do retorno de imigrantes detectados irregularmente”, disse à Folha.
No caso dos brasileiros, há ainda o que ele chama de “efeito escala”. “À medida em que há mais gente chegando a um país, é natural que haja também mais gente sendo obrigada a sair do país quando há um conflito com as autoridades”, afirma.
O cenário para os próximos anos deve ser de agravamento no controle de imigrantes, seja por pressão política de partidos populistas de direita, seja devido a mudanças em sistemas de informação. Desde outubro vem sendo implementado o EES (sistema de entrada e saída, na sigla em inglês), com coleta de dados biométricos de viajantes com passaportes de fora da UE. A checagem ficará mais precisa quanto a vistos e prazos de permanência dentro do bloco.
“A capacidade de vigiar individualmente e de forma integrada aumenta com a capacidade tecnológica. Haverá mais casos de notificações para saída voluntária e, se ela não acontecer, de deportações”, diz o professor. “O muro que foi construído –seja um muro legislativo, sejam fronteiras reais– torna hoje muito mais difícil a imigração que não seja legal para os países da União Europeia.”








