Passou na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) projeto que prevê a criação do Museu e Memorial do Césio-137, na última semana. A proposta ainda precisa de duas aprovações em plenário antes de ir à sanção do Executivo Municipal. Quatro pessoas morreram no acidente e mais de mil foram atingidas direta e indiretamente.
Esta é a segunda vez que um projeto do tipo é apresentado. Em 2011, o ex-vereador Túlio Maravilha (MDB) propôs criar um museu na Rua 57, no Centro. A matéria foi arquivada. Já na proposta atual, do vereador Lucas Kitão (PL), o ponto do memorial ainda terá definição pela prefeitura.
“Nossa ideia é ter um local em Goiânia, assim como existe em Nova York, nos Estados Unidos, no Museu e Memorial do World Trade Center. O local preserva a história e a memória das vítimas do atentado de 11 de setembro de 2001. É importante termos esse mesmo espaço aqui”, afirmou.
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A previsão é que o museu tenha área de exposição e espaço de homenagem e preservação histórica, bem como local de convivência. Conforme o autor, o intuito é homenagear as vítimas, preservar a memória histórica e seu impacto social, além de ser um abrigo cultural e educativo para escolas, universidades e visitantes.
“Nossa história tem o maior acidente radiológico do mundo. Está em nossa história e deixou um legado de dor, estigmatização e desinformação, mas também revelou a solidariedade de profissionais de saúde, bombeiros, militares e cidadãos que atuaram heroicamente no socorro às vítimas”, disse.
Atualmente, apenas em Abadia de Goiás existe um espaço reservado à preservação técnica da memória do acidente. No no Centro Regional de Ciências Nucleares da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), existem mais de 6 mil toneladas de rejeitos contaminados enterrados em uma área de 32 alqueires.
Relembre a tragédia
Em 13 de setembro de 1987, Goiânia foi palco do maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, envolvendo o Césio-137. O episódio teve início quando dois catadores de recicláveis, Roberto dos Santos e Wagner Mota Pereira, encontraram um aparelho de radioterapia abandonado no Instituto Goiano de Radioterapia.
Ao desmontá-lo, liberaram uma cápsula de Césio-137, um isótopo radioativo altamente perigoso. O material se espalhou rapidamente, contaminando centenas de pessoas e causando mortes e sequelas irreparáveis.
Uma parte da peça foi levada para o ferro-velho de Devair Ferreira, que abriu a cápsula e encontrou o pó radioativo. Devair mostrou a novidade para vizinhos, amigos e familiares. Dias depois, as pessoas começaram a ter tontura, vômitos e diarreia, principalmente Devair e sua esposa Maria Gabriela.
Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para a sua filha, Leide das Neves, de apenas 6 anos. A menina posteriormente foi jantar, ingerindo o Césio-137 por meio da refeição. Ela não sobreviveu. Maria Gabriela levou a peça até a Vigilância Sanitária, contribuindo com a contaminação de mais pessoas, pois o trajeto foi feito de ônibus.
O alerta e a contaminação generalizada
Apenas em 29 de setembro de 1987 foi dado o alerta que todas essas áreas foram atingidas por radiação. A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) pediu para que os moradores fossem transferidos para um esquema de triagem no Estádio Olímpico. Mais de 112 mil pessoas foram colocadas em quarentena e submetidas a intensos banhos para descontaminação.
O acidente resultou em quatro mortes confirmadas: Maria Gabriela Ferreira, Leide das Neves Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza. Além disso, 249 pessoas apresentaram contaminação significativa, sendo monitoradas e tratadas por equipes médicas especializadas. Mais de 110 mil pessoas foram acompanhadas. Centenas de locais, incluindo residências, ruas e veículos, foram desinfectados ou removidos devido à contaminação. A cidade de Goiânia enfrentou um processo complexo de descontaminação, com a remoção de solo e materiais contaminados.








