11/06/2020 às 07h18min - Atualizada em 11/06/2020 às 07h18min

Afinal, as pessoas assintomáticas transmitem ou não o coronavírus?

O tema ganhou o centro da pauta depois de uma fala mal interpretada da epidemiologista Maria Van Kerkhove, da OMS

Na última segunda-feira (10/06), Maria Van Kerkhove, epidemiologista responsável pela resposta da Organização Mundial da Saúde (OMS) ao novo coronavírus, fez uma declaração durante a coletiva de imprensa organizada pela entidade que espalhou uma nova polêmica pelo mundo. Ela disse que, a transmissão do coronavírus por pacientes assintomáticos seria “rara”, tomando como base um pequeno estudo feito na China com 63 pessoas.
 

A especialista referia-se ao fato de que poucos países conseguiram testar o suficiente para encontrar pacientes assintomáticos e que quase nada está publicado em estudos científicos até o momento sobre este assunto.

No dia seguinte, Mike Ryan, diretor de emergências da entidade, explicou que a transmissão está, sim, acontecendo por pacientes assintomáticos. O questionamento é sobre em qual escala o contágio acontece.

O diretor-geral, Tedros Adhanam Ghebreyesus também se pronunciou, lembrando que desde fevereiro a OMS alerta sobre a possibilidade de contaminação por assintomáticos, e que, apesar de os pesquisadores estarem todos focados neste assunto, ainda há muito para saber sobre o coronavírus.

Reações

Porém, antes de a OMS se retratar, a fala de Maria foi muito discutida. O presidente Jair Bolsonaro foi um dos primeiros a repercutir: apesar de ter declarado repetidas vezes que não confia na entidade, usou a frase da epidemiologista para, mais uma vez, defender o fim do isolamento social.

Os cientistas também se posicionaram. No Twitter, o biólogo Átila Iamarino, que se tornou uma das principais vozes da ciência durante a pandemia, explicou que é preciso diferenciar as pessoas que não tiveram sintomas das que estão infectadas, mas ainda não começaram a apresentar os sinais da Covid-19 – os pré-sintomáticos.

“Maria Van Kerkhove falou assintomáticos. Não deixou claro se isso também inclui pré-sintomáticos, quem não tem sintoma agora, mas vai ter depois. Esses desenvolvem grandes quantidades de vírus e podem transmitir, como vários estudos mostram”, escreveu, na rede social.

 

Segundo ele, a fala de Maria parece ter se referido, de fato, aos que nunca apresentaram sinais da doença, e sempre houve pouca informação a este respeito. Já os pacientes que ainda vão ter sintomas, por terem uma carga viral maior, podem transmitir mais.

 

A OMS declarou hoje que a transmissão de COVID-19 por pessoas assintomáticas é rara. Espero que seja verdade e se confirme. Mas nesse declaração falta muita coisa, como a diferença entre assintomático e pré-sintomático. Segue um pequeno fio.

 

“Como não dá para prever quem vai ser assintomático, quem é apenas pré-sintomático ou quem é um ‘falso’ sintomático, em termos de quarentena ou lockdown, a distinção não faz a menor diferença: se você não tem sintomas, resolve quebrar o isolamento, se enfiar numa aglomeração e, três dias mais tarde, começa a ter febre e tossir, você muito provavelmente espalhou, sim, o vírus para um monte de outras pessoas”, explica a pesquisadora da USP Natalia Pasternak, em texto no site Instituto Questão de Ciência.

Como afirmou a OMS, ainda há poucos estudos que possam comprovar, em números, a capacidade de indivíduos assintomáticos de transmitir a doença: o que se sabe é que sim, eles transmitem, ainda que em proporções menores do que um paciente sintomático. Já os pré-sintomáticos -que foram infectados, mas ainda não sabem – começam a espalhar o vírus entre dois ou três dias antes de apresentarem os sintomas.

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