13/06/2020 às 06h50min - Atualizada em 13/06/2020 às 06h50min

Covid-19 leva centenas de restaurantes tradicionais a fechar as portas

Associação e sindicato contabilizam que ao menos 10 mil profissionais foram demitidos durante a crise iniciada em março

A situação causada pela pandemia do novo coronavírus e o fechamento de bares e restaurantes para reforçar o isolamento social geraram, nos últimos 90 dias, tombos financeiros dos quais muitas casas não conseguiram se recuperar.
 

Segundo informações da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-DF) e do Sindicato Patronal de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Brasília (Sindhobar), mais de mil casas fecharam as portas definitivamente neste período.

Com o fim dos serviços desses locais – muitos tradicionais, que funcionavam havia décadas –, milhares de pessoas perderam seus empregos. O Sindhobar homologou, desde o decreto do Governo do Distrito Federal (GDF) que fechou o comércio em meados de março, em torno de 10 mil demissões.

Mas como existe uma convenção coletiva do órgão que desobriga a homologação em casos assim, o número real pode ser bem maior. A estimativa da Abrasel-DF é de que 14 mil pessoas que trabalham no setor tenham sido dispensadas desde 20 de março.

“Na última semana antes do isolamento social, o faturamento despencou porque o medo já havia começado, sentimos o baque ali. Orientamos que os empresários dessem 15 dias de férias coletivas e, em seguida, veio a Medida Provisória nº 936, que permitiu a suspensão de contratos por 60 dias”, comenta Beto Pinheiro, presidente da Abrasel-DF.

“Eu venho alertando que quando acabasse esse período, se o comércio ainda estivesse fechado, aconteceriam demissões. Tem muita gente fechando porque não tem previsão de retorno“, acrescentou.

A perspectiva, segundo Pinheiro, é de que a situação se agrave semana após semana: “Os pedidos de seguro-desemprego cresceram em 53% no mês de maio, daí podemos ter uma referência de como está a situação”.

 

“O empresário não vai renovar a suspensão de contrato, porque não há previsão da volta, de como será esse retorno, não dá para manter o quadro de funcionários. Se não voltar o funcionamento do setor, o volume de demissões vai aumentar muito”, alerta o empresário, que é dono da franquia Coco Bambu em Brasília e demitiu cerca de 500 pessoas desde o início da crise.

Segundo a Abrasel, o faturamento atual, com delivery e take out, representa entre 15% e 20% do valor antes da crise. A estimativa do Sindhobar é mais conservadora: o faturamento atual gira em torno de 30% e 40% em relação ao período anterior.

Portas fechadas

O restaurante de churrasco oriental Genghis Khan sequer passou pelas fases descritas por Pinheiro: como a comida servida ali é feita para ser consumida no local, os sócios logo perceberam que o delivery não seria uma alternativa viável para passar por essa fase.

“Nosso conceito era presencial. Tentamos um delivery, repensamos todas as despesas, mas como não quiseram negociar o aluguel, vimos que não dava para sustentar a situação. A cada dia que passa, vejo que foi a decisão correta: a gente ia entrar em uma situação de inadimplência, se endividar além do controle. Não tinha muita opção”, lamenta Mateus Takano, um dos sócios da casa, fechada em 2 de abril.

Um dos restaurantes mais tradicionais de Brasília, o Piantella também encerrou as atividades durante a crise. A casa não operou por 45 dias e, ao cabo desse período e ainda sem previsão de retomada, a direção optou por fechar as portas definitivamente.

Os restaurantes mais antigos vão sofrer, porque atendem pessoas mais velhas. Enquanto não houver vacina ou diretrizes da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde quanto a como sair de casa, ninguém vai dar a cara a bater”, afirma o proprietário Roberto Peres.

Peres acrescenta que prefere ficar em casa e ir a ambientes controlados na abertura, como a casa de amigos. “Eu fechei de imediato e não fiz delivery do Piantella justamente porque não quis expor clientes e colaboradores ao vírus.”

Veja alguns dos estabelecimentos que fecharam:

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A dificuldade em negociar uma redução no aluguel foi o que levou a rede Marietta a fechar a loja do Lago Sul. Atualmente, as franquias Marvin e Marietta, que pertencem ao mesmo grupo familiar, têm cinco lojas funcionando, sendo duas em shoppings.

Ainda existem seis operações suspensas e em avaliação, todas em shoppings. “Deixamos fechadas as lojas que não são boas para o delivery, e a do Lago Sul ainda precisava de uma reforma. Resolvemos focar nas mais novas e nas que ficam em imóveis próprios, como é o caso da 409 Sul”, conta Rafael Costacurta, um dos sócios da marca.

Uma das lojas Marietta que seguem fechadas é a do shopping Iguatemi, onde a auxiliar de cozinha Maria Alice Soares trabalhou até o fim de abril. “No início de março, as vendas começaram a cair muito, não tinha cliente. Foi piorando a cada dia, e até hoje está muito difícil. Entreguei currículos, mas as casas não estão contratando, só vão chamar quando essa pandemia passar”, lamenta a jovem, que é mãe solo de uma menina de 7 anos.

O trabalho no Marietta foi o primeiro emprego de Maria Alice, que não teve tempo suficiente de carteira assinada para conseguir o seguro-desemprego. No entanto, ela teve o auxílio emergencial negado pelo governo porque, embora ela tenha homologado a demissão, ainda consta como empregada. “Estou desanimada porque tenho minha filha e moro de aluguel. É difícil, mas estou correndo atrás, onde me chamam para fazer faxina, estou indo. Não posso ficar parada, tenho que levantar a cabeça e continuar”, comenta.

No caso do Le Jardin du Golf, que fechou as portas em 29 de março, foi uma combinação de fatores: o contrato de aluguel do imóvel ia vencer naquele mês, e o proprietário, Carlos Augusto Veloso, estava considerando encerrar as operações. Diante da chegada do novo coronavírus ao Brasil, o agora ex-empresário avaliou que o período de isolamento social seria maior do que o que a casa poderia aguentar sem funcionar.

“Imagine se preparar para abrir e a coisa não dar certo, precisar fechar de novo. O prejuízo é ainda maior. Aqui em Brasília, as coisas estão muito indefinidas. Os números estão aumentando e as UTIs estão sendo completamente ocupadas”

CARLOS AUGUSTO VELOSO, ANTIGO PROPRIETÁRIO DO LE JARDIN DU GOLF

O maître Sebastião Moreira da Silva trabalha há 20 anos na área e passou os últimos seis chefiando a equipe de salão do Le Jardin du Golf. “Estou parado há mais de 80 dias em casa. É de enlouquecer, não tem trabalho. Eu dei entrada no seguro-desemprego e estou aqui, rezando para tudo voltar ao normal. Não está fácil para mim nem para as outras pessoas da área”, lamenta.

De uma equipe de oito garçons que ele chefiava, três conseguiram trabalho na construção civil ou em serviços como açougue. Os outros estão em casa.

Da cozinha do Le Jardin du Golf saiu também Isael da Costa Silva, que trabalhou ali por cerca de um ano. Pai de um menino de 18 meses, ele tinha acabado de financiar um carro quando ficou desempregado.

“Foi um clima que nunca tínhamos vivido. Eu tenho 42 anos, 20 de cozinha, e nunca passei por algo assim. A gente abria a casa e vinham uns gatos pingados, a gente ficava abismado, sem saber o que fazer da vida”, conta, lembrando dos dias que antecederam o fechamento do comércio. Isael conseguiu, há alguns dias, o cargo de cozinheiro temporário no Blend Boucherie.

Embora a Abrasel-DF tenha confirmado que cerca de mil estabelecimentos fecharam durante a crise, nem o órgão nem o Sindhobar divulgaram um número exato ou uma lista de bares e restaurantes. Segundo ambas as organizações, a grande maioria dos empresários prefere não divulgar a notícia por enquanto e só fazer o anúncio ao fim da pandemia.

Veja a lista de algumas casas que confirmaram o fechamento:

Arabetto
Brace Parrilla
Delta Bar
Fritz
Genghis Khan
Green’s Asa Sul
Lavi
Le Jardin du Golf
Marietta Lago Sul
Naturetto Família
Oliver
Piantella
Seu Patrício Querido Café
Tiborna
Tio Armênio

Ajuda do Estado

Para Jael Antônio da Silva, presidente do Sindhobar, as ações governamentais não têm sido suficientes para salvar todos os empresários. “A ajuda tem que vir do Estado. Se ele decretou estado de calamidade, nos proibiu de trabalhar, não podemos abrir, o que podemos fazer?”, lamenta.

Procurada pelo Metrópoles, a Secretaria de Economia afirmou, por nota, que o Governo do Distrito Federal elaborou o projeto de lei que cria o Programa Emergencial de Crédito Empresarial do Distrito Federal (Procred-DF).

“O objetivo é criar uma linha de crédito especial, com taxas de juros mais baixas, a fim de socorrer micro e pequenas empresas e microempresários individuais, além das empresas de qualquer porte dos ramos de cultura, turismo e ensino, em razão da pandemia da Covid-19″, disse a pasta.

Pinheiro, da Abrasel, e Silva, do Sindhobar, terão reunião com o governador Ibaneis Rocha (MDB) nos próximos dias para tratar da reabertura do comércio.

“Defendo a reabertura com protocolos criados pela Abrasel e também pela Fecomércio, que estão sendo seguidos em cidades que já puderam retornar às atividades. Tem segmento aberto hoje que, na minha opinião, oferece mais risco que o nosso. Se tivermos funcionários com máscara, distanciamento entre mesas, higienização adequada, não vejo o setor como vilão”, opina o presidente da Abrasel-DF.

Saudade que fica

Nas redes sociais, os restaurantes anunciam o fechamento das portas. Em sua maioria, os clientes e seguidores das contas reagem com tristeza. Para o fotógrafo Orlando Brito, frequentador do Piantella por décadas, saber que o espaço não funcionará mais é para se lamentar.

“Não se sabe quantas soluções políticas saíram dali. O ambiente era de muito diálogo, os políticos iam para um campo mais descontraído. Muitos diziam que não era nem no Congresso Nacional nem no Planalto, mas ali que se resolviam as coisas”, conta o jornalista.

Brito relembra outras histórias. “Uma vez, teve um impasse na Câmara sobre uma matéria muito importante. Acho que o presidente era o Temer ou o Eduardo Alves. E não tinha quórum para votação. Daí, o presidente suspendeu a sessão por 20 minutos, que era o tempo do pessoal sair do almoço no Piantella e voltar para o plenário”, lembra o fotógrafo, que vendeu cerca de 200 fotos de figurões da política nacional para as paredes do restaurante.

Já o Genghis Khan, apesar de fechado, criou laços entre um grupo de quase 30 amigos. Tudo começou no Dia dos Namorados de 2016, quando o economista Alexandre Campos queria levar a esposa para degustar um cardápio asiático.

Ao chegar à casa, deparou-se com um menu extenso de uísque japonês. “Eu sou fã de uísque. Pedi uma dose, passei a conversar com o garçom e logo veio o Mateus para papear comigo. Acabamos fazendo amizade e começamos a nos encontrar para provar bebidas diferentes. A gente foi criando um grupo, um clube do uísque: aparecíamos lá uma ou duas vezes por semana, para conversar, apreciar a comida do Mateus e beber”, lembra. A turma segue se falando, mas, atualmente, por meio de chamadas de vídeo.


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