31/03/2017 às 07h04min - Atualizada em 31/03/2017 às 07h04min

ARTIGO: ESTAMOS TODOS NUMA FRIA

*AYLÊ-SALASSIÉ F. QUINTÃO

 

*AYLÊ-SALASSIÉ F. QUINTÃO

As reformas não resolverão os problemas básicos  do Brasil. São casuísticas, conjunturais e aparentemente provisórias. Não projetam nenhum futuro.  Os efeitos das que estão em curso – previdência, trabalhista, política e até a terceirização –  vão perdurar até que sejam corrigidos os prejuízos na economia e os impasses na política.

Casuísmo, acredita-se pragmaticamente, de longa duração.  São necessárias, sim, como “travessia”. Mas para onde?

O problema brasileiro parece ser maior, mais grave e de natureza ainda indefinida.  Envolve valores e identidade. Gradualmente, perdemos a autoestima.  As raízes estão sendo desfiguradas.

Acreditando-se já globalizados, os brasileiros mantiveram apenas a preguiça macunaímica de ler e raciocinar. Daí os 7×1.  Contenta-se em ironizar os tediosos debates improdutivos  entre esquerda e direita,  e esse espetáculo pantagruélico e indigesto que o Congresso e o  Judiciário proporcionam ao País.

A  educação forma politiqueiros, nunca empreendedores. Os saldos do FGTS são utilizados para pagamento de dívidas, e não em novos negócios. A Nação do futuro está à  procura de empregos.

Tudo parece errante. Da conjuntura emerge um país engasgado com a politicagem, com o foro privilegiado e com a história mal contada da lista fechada.

Os esforços voltam-se para a manutenção do modelo neoliberal, da preservação de uma democracia resignada, palco do cinismo e do corporativismo, tolerando-se o comportamento irresponsável de atores sociais, cuja ação plural, sem limites,  transforma o País em terra de ninguém, privilegiando velhacos e desfigurando instituições.

Naufraga-se  num mar de  interpretações jurídicas desvinculadas da realidade  ou da responsabilidade com a Nação.  Nesse cenário flutua o ideal patrimonialista acompanhado da corrupção, do caixa dois, da violência e do  fracasso anunciado das políticas públicas.

Nos altos escalões do Estado, salários superdimensionados continuam a ser turbinados com vantagens, num claro desafio ao futuro. Indiferentes, pequenos grupos enclausuraram-se nas estruturas de Poder do Estado, sugando a essência e a natureza da brasilidade.

Na expectativa de, “pelos menos” corrigir rumos sem interromper os fisiologismos,  o Governo escorrega em inconveniências.  Sugere ignorar a corrupção, condenando a transparência das escandalosos megatividades criminosas, e promete entregar aos estados e municípios a política de seguridade.

São manifestações tão irresponsáveis quanto aquela de que existem dois brasis – um do Norte, outro do Sul  . Corre-se o risco de resgatar autonomias e  lutas regionais,  desestruturando as instituições e lançando o País  num tumulto, sem cronograma. Consegue-se assim perpetuar a condição de “protetorado”        

Estamos todos numa fria. Aliás, há muito tempo. Não existe projeto de governo e muito menos de País.

Tudo é improvisado, inclusive os dirigentes, que emergem de oligarquias, picadeiros e de corporações de ofícios. As disputas se processam com o sentido de tirar vantagens privadas da coisa pública. Ignora-se que o exemplo de cidadania deve vir de cima, e constitui-se na base moral da autoridade.

A Nação parece estar mesmo se desmanchando”, constata  o general Luiz Eduardo Rocha Paiva, doutor em planejamento e estudos militares, chefe da Assessoria Especial da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme).

Tudo “é fruto de rumos desastrosos na direção política, originados de institutos populistas, gestões econômicas irresponsáveis e insustentáveis e  muita corrupção”.

Para ele, o sistema educacional arrasta-se, agredido nas suas bases, desenvolvendo uma cultura exótica , que “ desfigura a formação cívica, desvaloriza a História e as tradições nacionais, enfraquecendo princípios morais e éticos, que dão alma à cidadania”, afirma.

No seu entender, “a crise de valores  contamina a instituição familiar e abala a imatura sociedade brasileira”. Entende que, por meio de convicções pessoais, formadores de opinião promovem a satanização das alas conservadoras, cujo “pecado maior é entender que  o progresso útil é aquele proveniente do saber acumulado e plantado nas virtudes e nos valores”.

A crise brasileira está beirando os limites. Adverte o militar que, “a continuar o ritmo de deterioração econômica, moral e social, a tendência será …o comprometimento da unidade política do País”. Lembra que  “a unidade nacional é cláusula pétrea para as Forças Armadas”..

O Brasil embarcou tardiamente na economia de mercado, no desenvolvimentismo e na democracia plena. Nos últimos 100 anos,  aconteceram a revolução russa, a chinesa, a ocupação e o desmanche do leste europeu, a crise de 29, a I e a II guerra mundial, a recuperação da Europa e do Japão, a guerra do Vietnam, do Afeganistão, a do petróleo, o fim o comunismo, a industrialização, os nacionalismos, as viagens planetárias e a globalização.

Nesse percurso, o Brasil tentou substituir exportações, e  mal chegou lá; acreditou ser global, e já está quase fora. O lugar conquistado pelo Brasil nesse cenário foi vulgarizado, e agora é desdenhado.

Perderam-se bilhões na economia, voz, voto e credibilidade em quase todos os foros. País jovem, do futuro: quem, qual, onde? A realidade parece reclamar por um projeto de Nação com outros atores, e não exclusivamente reformas.

* Aylê é Jornalista, professor.


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