03/09/2020 às 07h17min - Atualizada em 03/09/2020 às 07h17min

Bolsonaro rompe barreira e avança em reduto do PT

Tradicional reduto petista, o Nordeste está abrindo as portas – e os braços – para Jair Bolsonaro. Se não pelo carisma do presidente, sentimento que ele pouco manifesta, talvez pelas ações de governo. A avaliação é do governador de Brasília, Ibaneis Rocha, em entrevista a Notibras, feita por e-mail em função do ainda recalcitrante isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus.

Um dos três novos caciques do MDB – junto com Renan Filho, de Alagoas e Hélder Barbalho, do Pará, ele é um dos três governadores eleitos pela legenda em 2018 – Ibaneis, embora marinheiro de primeira viagem no teste das urnas, mostra na entrevista ter adquirido nos últimos dois anos experiência de uma velha raposa política.

Mesmo reconhecendo a força de Bolsonaro, o governador é cauteloso, por exemplo, ao falar sobre uma eventual grande aliança para reconduzir o presidente ao Palácio do Planalto em 2022. Há uma estrada longa a percorrer, diz, “mas é certo que o presidente está fazendo um bom trabalho”, enfatiza.

Como soldado do MDB, Ibaneis não deixa de reverenciar o ex-presidente Michel Temer, ao sustentar que Bolsonaro está tocando projetos que recebeu do seu antecessor e que isso vem rendendo louros. A esse respeito, o presidente, segundo o governador, tem seus méritos, e um deles é não deixar para trás obras de outras administrações.

Sobre seu futuro político, Ibaneis é categórico ao projetar uma suposta reeleição:  ‘Se o povo quiser, expressar isso nas urnas, continuarei, porque quatro anos não é tempo suficiente para realizar um trabalho que satisfaça a população do Distrito Federal’.

Veja a seguir trechos da entrevista, desde a trincheira que Bolsonaro está vencendo no Nordeste, à condição dele, Ibaneis, de soldado do MDB, e as controversas ações para combater a Covid no Distrito Federal:

Embora candidato natural à reeleição, existem rumores recorrentes no DF de que o senhor não teria interesse em outro mandato ao Palácio do Buriti, mas provavelmente ao Senado ou a um outro cargo, também no executivo. Seria uma vice-presidência ou mesmo encabeçando uma chapa para o Planalto? Essa possibilidade existe?

Ainda está muito longe para a próxima eleição. Mas eu só quero tentar um novo mandato se tiver apoio popular; só vou concorrer se a população quiser, porque eu gosto da política, mas não vivo dela. O único cargo que me interessa em 2022 seria o de governador, porque não vai dar tempo de terminar algumas ações e obras necessárias para melhorar a vida da população. Estamos fazendo muita coisa mesmo com toda a dificuldade, mas não vai dar tempo de fazer tudo como eu gostaria.

Seu posicionamento diante da pandemia em vários aspectos converge com aquilo que o presidente Bolsonaro pensa e defende. Sobre o uso profilático da hidroxicloroquina para pacientes que manifestam a Covid-19 na fase inicial, também defendido por Bolsonaro, o senhor concorda com esse protocolo?

O que eu defendo é que o médico receite o remédio que considerar mais adequado. Recomendo que todos os pacientes obedeçam as orientações médicas.

O coronavírus passou a ser utilizado politicamente em muitos aspectos. O principal deles será mais observado quando a pandemia estiver mais controlada e os gestores públicos apresentarem resultados de realizações durante o período crítico. Como o senhor imagina a avaliação que será dada no futuro à sua atuação nesse caso específico?

*Essa exploração política ainda não acabou. Para algumas pessoas, pouco importa se isso vai prejudicar os outros, desde que atinjam seus objetivos. Não ajudam a ninguém e atrapalham os outros. Mas eu tenho consciência que trabalhamos bem: ninguém que procurou tratamento ficou sem um leito e cuidados, construímos hospitais, fomos a unidade (da Federação) que mais testou. Além disso temos um dos menores índices de mortalidade do Brasil. Contra esses discursos cheios de mentira nós temos fatos para mostrar.

Em quais aspectos o senhor julga que a imprensa atualmente atrapalha a gestão da crise sanitária? E em quais acredita que ajuda?

Ninguém estava preparado para lidar com uma pandemia como esta, nem os governos, nem a imprensa. O tom sensacionalista sempre atrapalha, mas a imprensa mais ajudou do que atrapalhou.

O seu partido, o MDB, enfrentou diversos abalos internos no passado recente, paradoxalmente em alguns momentos por excesso de lideranças e, em outros, pela falta de novos nomes. O senhor representa um novo nome, expoente entre os emedebistas já na estreia, e deve ter planos partidários. O senhor se considera cacique ou índio entre os medalhões de sempre?

Eu sou dos três governadores eleitos do partido. Isso naturalmente me coloca numa cadeira das discussões nacionais, sou sempre consultado sobre as decisões. Mas ultimamente eu tenho me concentrado tanto nos problemas causados pela Covid-19 que não tenho participado da vida partidária.

Na sua opinião, o aumento da popularidade do presidente Bolsonaro é indicativo de que a população caminha para um pensamento de centro-direita? Como o MDB deve ser posicionado nesse cenário? Há, no seu entendimento, espaço para uma grande aliança de centro, centro-esquerda e direita para reconduzir Bolsonaro para mais um mandato?

O eleitor não pensa nesses termos. O fato é que o presidente Bolsonaro está fazendo um bom governo. Ele aproveitou as bases que o presidente Temer deixou e está fazendo realizações, além de estar fazendo uma boa base eleitoral no Nordeste, e isso eu sei porque acompanho de perto, além de estar reformando a administração pública de uma forma que ninguém mais conseguiu. Mas ele tem o jeito polêmico dele e isso ninguém vai mudar. O MDB precisa se sair bem nessas eleições municipais para que a gente trace o futuro.

O senhor é a favor da reeleição dos presidentes atuais da Câmara (Maia) e do Senado (Alcolumbre)? Por quê?

Eles têm feito um bom trabalho. Mas vou esperar o posicionamento do partido.

O efeito devastador da Covid-19 mostrou quão terra-arrasada é o Brasil da informalidade – estimulada por elevada carga tributária e desemprego. Como consequência, reduz-se o ritmo de crescimento econômico potencial do país. Qual o posicionamento (ou Projeto de Governança) que o MDB e o Governador Ibaneis devem propor para solucionar os prejuízos que as práticas da economia subterrânea causam à nação e, consequentemente, ao DF?

Muita coisa já tem sido feita para libertar a economia de amarras do passado. Vamos esperar que a nova reforma tributária seja justa com todos os estados, ao contrário do que aconteceu com a Lei Kandir, para que a gente possa ter desenvolvimento uniforme. Isso vai se refletir em toda a cadeia produtiva.

Com a carga tributária e o sistema legal a que estamos sujeitos não somos contribuintes, mas pessoas que, no patíbulo, estão com a corda no pescoço. Para a próxima sucessão (presidencial, governamental ou das prefeituras) é preciso responsabilidade. A forma como o IRPJ é administrado no país cria obstáculos às empresas, com taxação que não lhes permite adequado crescimento. Qual contribuição ao debate da Reforma Tributária vindoura que pode ser esperada do MDB e do Governador Ibaneis?

Justiça social é fundamental para o crescimento. O MDB vai esperar o texto do executivo antes de se pronunciar, mas seguramente vai propor ajustes. O que nos interessa é a redução da carga tributária, ainda que seja uma ação progressiva, para que haja mais crescimento. Eu estava fazendo isso em Brasília, preparando o DF para um grande crescimento, reduzindo impostos, incentivando o desenvolvimento, mas a pandemia nos atrapalhou. Isso vai ser retomado o quanto antes.

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