A comemoração pública do Partido dos Trabalhadores (PT) no dia 6 de março pelo aumento significativo de aproximadamente 341 mil novas filiações em menos de cinco meses tem provocado questionamentos e desentendimentos, dentro e fora da sigla, potencializado o racha interno por causa das eleições do diretório nacional em julho próximo.
As suspeitas são de um possível “inchaço artificial” no número de liados desde as eleições de outubro de 2024 até o dia 28 de fevereiro - data-limite para que novos liados tenham direto a voto em julho - e resultaram em pelo menos dez mil pedidos de apuração dentro do próprio PT. (Leia mais sobre a questão abaixo.) Os questionamentos ocorrem porque 13% de todos os correligionários do PT se liaram somente nos últimos meses, o que elevou o número total de liados a 2.949.507. Foram 341.315 novas fichas assinadas somente no período, média de quase 2,3 mil por dia.
Segundo o PT, esses 341 mil novos liados aderiram à Campanha Nacional de Filiação entre o m do ano passado e fevereiro deste ano e estão aptos a votar no Processo de Eleição Direta (PED) 2025. As fichas das novas adesões à sigla são avaliadas pelos diretórios estaduais, aos quais cabe a tarefa de validá-las ou impugná-las. Após essa etapa, ainda é possível recorrer ao diretório nacional do PT.
Esse é outro ponto de divergências internas. Uma mudança no estatuto do partido no m do ano passado permitiu que liados até 28 de fevereiro pudessem votar para escolher a nova presidência da sigla e novos dirigentes. Antes, o estatuto previa direito à votação para quem havia assinado ficha ao menos um ano antes ao pleito
“O PT vive um racha interno que não chega a ser histórico, mas memorável para o período. As disputas internas pela presidência do partido estão escalando semana após semana com linhas divergentes cada vez mais acentuadas, inclusive entre o que deseja o próprio presidente Lula (PT), que teria Edinho Silva como preferido, e [outra ala da legenda representada por] sua recém-empossada secretária de Relações Instituições, Gleisi Hoffmann, que aparentemente não quer Edinho na presidência e trabalha para viabilizar outra linha”, alerta o cientista político Gustavo Alves.
O dirigente partidário do PT em São Paulo Valter Pomar é um dos críticos internos no avanço desenfreado de novas filiações. Em um documento direcionado à executiva nacional do partido, ele disse que “o PT precisaria ser bem maior do que ele é hoje”. “Mas para que tenhamos militantes e não apenas fichas assinadas, é preciso que o partido coordene as campanhas de filiação. Enquanto isso não ocorrer, é indispensável que a direção nacional do partido impeça que ocorra aquele tipo de filiação que parece ter como único objetivo conquistar espaço nas instâncias partidárias”.
O PT foi indagado pela reportagem sobre possíveis discrepâncias e apurações sobre a idoneidade das filiações, mas até a publicação da matéria não obteve retorno.
A reportagem também procurou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para questionar sobre os procedimentos de apuração sobre movimentos atípicos em filiações partidárias e possíveis rastreamentos de irregularidades
Em nota, o Tribunal disse que a Resolução 23.596/2019 trata de regramentos de filiação partidária e disciplina o “encaminhamento de dados pelos partidos políticos à Justiça Eleitoral, incluindo eventuais procedimentos em casos de indícios de fraude ou simulação na inclusão do registro de filiação ou na sua retificação”. Segundo o TSE, o Sistema de Filiação Partidária (Filia) passou por atualizações para maior segurança do usuário e das informações.
Para o comentarista político e advogado Luiz Augusto Módolo, há sinais claros que “o domínio de Lula sobre o PT começa a ser contestado e os seus possíveis sucessores começam a brigar pelo seu espólio”. “O movimento atípico de filiações pode ser ou tentativa de tomada do PT ou mero jogo de uma das facções internas do PT para tentar se sobressair e cacifar dentro do próprio partido”, alerta.