Governo monta bunker para blindar Janja, que tenta ajustar atuação sem deixar viagens de lado

Primeira-dama chegou a ensaiar um recolhimento para evitar desgastes, mas voltou aos holofotes

24/03/2025 07h25 - Atualizado há 1 semana
Governo monta bunker para blindar Janja, que tenta ajustar atuação sem deixar viagens de lado
— Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

Maioria das menções a Janja nas redes sociais é negativa (53,4%), segundo levantamento da consultoria Bites no X, Instagram, Reddit, YouTube e Facebook desde 1º de janeiro; 14,4% foram positivas e 32,2%, neutra .

Diante do diagnóstico de que a primeira-dama, Janja da Silva, virou alvo preferencial de ataques da oposição, o governo montou um grupo informal para tentar blindá-la e oferecer uma estratégia jurídica e política. No último mês, Janja chegou a ensaiar um recolhimento para evitar desgastes, mas voltou aos holofotes ao não abrir mão de viagens internacionais, mesmo com avaliação interna de que seus roteiros no exterior geram desgaste a Lula.

A primeira-dama embarcou uma semana antes do presidente para o Japão e, na próxima quarta-feira, irá a Paris para a Cúpula Nutrição para o Crescimento.

O que vem sendo chamado internamente de “bunker de proteção” à primeira-dama é formado pelo ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), e o grupo de advogados do Prerrogativas.

Messias acompanha de perto as representações feitas contra a atuação de Janja, seja na Justiça, no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Ministério Público Federal (MPF). Uma delas pedia a saída de Janja das dependências do Palácio do Planalto, mas foi arquivada em 14 de março.

Gleisi e Lindbergh ajudam a fazer a disputa política nas redes sociais, enquanto o Prerrogativas, com o advogado Marco Aurélio de Carvalho à frente, tem a tarefa de defender a imagem de Janja na sociedade civil.

‘Ação coordenada’

A avaliação interna é que em um espaço muito curto de tempo houve uma “ação coordenada da oposição” contra Janja com ataques que, no passado, segundo o governo, não ocorriam no mesmo nível de agressividade com outras primeiras-damas. Houve um consenso de que o movimento passou a afetar a imagem de Janja, apesar de judicialmente nenhuma das representações contra ela terem prosperado.

Pressionada por esses desgastes, Janja chegou a buscar um ajuste na sua atuação. De acordo com aliados, a primeira-dama indicou que iria focar no que julga indispensável, sem deixar de se posicionar nos assuntos que identifica relevantes. A ideia era adotar postura mais cautelosa.

Esse recuo não inclui as viagens internacionais. A decisão sobre esses roteiros ocorre no espaço restrito de discussão do casal presidencial. No último sábado, Janja embarcou para o Japão junto com a equipe precursora do presidente. O time composto por assessores, policiais e integrantes do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) sempre viaja com antecedência aos destinos que serão visitados por Lula.

O governo adotou total discrição sobre as atividades de Janja no Japão, que durante essa semana participou de um evento de sustentabilidade dentro de agendas da COP30, que ocorrerá em novembro em Belém, além de uma atividade cultural na Embaixada do Brasil em Tóquio.

Antes de voltar ao Brasil, Lula autorizou a ida de Janja para participar da Cúpula Nutrição para Crescimento, a convite do governo francês, entre 26 e 30 de março, em Paris.

Semanas antes, no entanto, Janja desistiu de ir a Nova York representar o Brasil na 69ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW), evento ligado a Organização das Nações Unidas (ONU).

Em 2024, Janja esteve nos EUA para participar do mesmo evento. A desistência este ano ocorreu em meio ao desgaste de suas viagens. A última ocorreu em fevereiro, quando Janja representou oficialmente o governo no evento Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, em Roma, e encontrou o Papa Francisco.

O roteiro na Itália motivou manifestações públicas de parlamentares de oposição como Marco Feliciano, Rosângela Moro, Flávio Bolsonaro e Caroline de Toni, e virou alvo de uma notícia de fato no MPF.

A primeira-dama também declinou de ir a Nova York no momento em que a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, corre o risco de perder o cargo na reforma ministerial. Cida chefiou a missão aos EUA. Uma ala do governo dá como certa sua saída.

Janja, por ora, também deixou adormecida a ideia de criação de um gabinete formal que pudesse estabelecer limites claros para sua atuação. A primeira-dama voltou a tocar no tema em meados de 2024, mas o assunto não prosperou sob o mesmo argumento com que foi barrado no começo de 2023. Ministros próximos de Lula levaram ao presidente o cenário de que Janja poderia ser convocada pela oposição com frequência a dar explicações sobre sua função.

Na sexta-feira, em entrevista à CNN Brasil, Gleisi defendeu que a primeira-dama tenha um cargo no governo:

— Eu defendo sim, que tenha um cargo honorífico, ela não vai receber nada. Porque é importante para que ela possa prestar contas, falar. Eu não vejo problema nenhum. E acho que é importante ela ter condições de atuar, ela é a companheira do presidente da República, tem um peso social importante.

Auxiliares palacianos afirmam que já é perceptível, em algum nível, a mudança de postura de Janja. A primeira-dama diminuiu a frequência em eventos e tem feito menos pedidos que, no passado, eram identificados como provenientes do seu gabinete.

Na semana passada, Janja também decidiu fechar seu perfil no Instagram. De acordo com sua assessoria, a decisão se deu devido a uma onda de comentários de ódio e misóginos nas publicações. Aliados afirmam que, nas redes sociais, também houve certa adaptação nas postagens, com seleção mais criteriosa sobre assunto dos quais se manifesta.

Recuo temporário

No Palácio do Planalto, porém, não é descartado que esse recuo seja temporário e Janja volte a buscar protagonismo. Há um ano, Janja era considerada aposta de cabo eleitoral de candidatas mulheres do PT às eleições municipais. Assim como Lula, Janja, no entanto, fechou o período eleitoral distanciada dos palanques femininos.

Internamente, a avaliação é de que o pior momento para a primeira-dama ocorreu em novembro do ano passado, durante o G20, quando Janja causou um constrangimento diplomático ao xingar o empresário Elon Musk, dono do X.

Durante o painel do G20 Social, a primeira-dama disse “fuck you” ao se referir ao bilionário, o que gerou reação imediata contra o governo. No dia seguinte, em uma fala pública e direta, Lula afirmou que não se pode “ofender ninguém”. O ataque motivou críticas no governo por ter ofuscado o evento em si.

O foco na atuação de Janja ocorre no pior momento de popularidade do presidente. Segundo pesquisa Ipsos-Ipec deste mês, o mandato de Lula é visto por 41% dos brasileiros como ruim ou péssimo, e por 27% como ótimo ou bom.

Além de diagnóstico interno de que determinadas agendas solo de Janja geram desgaste, uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de fevereiro aponta que 58% dos brasileiros têm uma imagem negativa da primeira-dama, índice que era de 40% em outubro.


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