29/01/2019 às 08h07min - Atualizada em 29/01/2019 às 08h07min

Pelo menos um deputado de cada andar da Assembleia do Rio foi preso

Movimentação é de mudança nos gabinetes para receber parlamentares da nova legislatura, mas cidadão carioca está descrente

METRÓPOLES

Rio de Janeiro (enviada especial) – De frente para a Praça XV e de costas para o monumental Palácio dos Bandeirantes  onde está o plenário  fica o prédio de seis pavimentos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (foto em destaque). No edifício, basta pegar o elevador ou subir as escadas para dar de cara com um ou mais gabinetes de deputados presos na Operação Furna da Onça, desdobramento da Lava Jato no estado, deflagrada em novembro de 2018. Apenas no térreo, onde também há instalações, nenhum parlamentar foi alvo da Polícia Federal na ocasião. 

Logo no primeiro andar, há o escritório de quatro denunciados: Chiquinho da Mangueira (PSC), Marcelo Simão (PP), Marcos Abrahão (Avante) e Paulo Melo (MDB). No segundo piso, fica o gabinete de mais um denunciado: Marcus Vinícius “Neskau” (PTB). Lá, funcionários comentavam, decepcionados, sobre o futuro. “Cheguei um dia e a Polícia Federal estava aqui. Fiquei perplexa porque achava ele [o deputado estadual] o máximo”, disse uma das servidoras à reportagem.
 

O terceiro andar abriga o gabinete de Edson Albertassi (MDB). No quarto, estão as placas de Luiz Martins (PDT) e do ex-presidente da Alerj Jorge Picciani (MDB), que permanece preso. No quinto e último andar, ficavam alocados o Coronel Jairo (MDB) e André Correa (DEM).

A Operação Furna da Onça foi deflagrada pela Polícia Federal no dia 8 de novembro de 2018, para investigar a participação de parlamentares da Alerj em crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos e terceirizados. Picciani, Albertassi e Paulo Melo já tinham sido presos na Operação Cadeia Velha, em 2017.

Foi a partir da ofensiva deflagrada no ano passado que o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) com indícios de movimentações atípicas feitas por profissionais da Alerj seguiu para o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro (MPRJ). Os investigadores constataram que parlamentares e assessores alvos da Furna da Onça também tiveram movimentações incompatíveis com seus salários, incluindo Flávio Bolsonaro (PSL) e seu ex-assessor Fabrício Queiroz.
 

Nova legislatura
Para receber 36 novos parlamentares no dia 1º de fevereiro, os gabinetes já estão sendo modificados. Há também aqueles deputados que escolheram mudar de lugar. Pelos corredores, tinta, caixas e móveis eram vistos nessa segunda-feira (28/1).

Os funcionários responsáveis por passar informações em cada andar ainda não receberam a nova relação de parlamentares e ficam confusos na hora de responder quem entra e quem sai. “Está a maior confusão essa lista. Fica nesse troca-troca”, resmungou um deles.

Algumas portas já estão sem placas com os nomes dos antigos ocupantes. No caso do gabinete 502, os adesivos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) dão a pista de que quem trabalhava ali era o filho Flávio, que está de mudança para o Senado Federal. “Foi o gabinete mais movimentado depois das eleições”, contou um funcionário da Alerj.

 

Sem esperanças
Embora haja renovação de mais da metade dos parlamentares, os escândalos envolvendo a Alerj desanimaram o cidadão carioca. Moradores que passavam pela Praça XV tinham expressão semelhante ao serem perguntados sobre as expectativas da próxima legislatura, como se não fosse necessário dizer a resposta.

“Não acredito mais no ser humano”, disse o aposentado Moacir Santos, 58 anos. “Uma coisa é boa. Estão vindo à tona essas coisas que todos nós já sabíamos, mas ninguém ia atrás. Agora, estão sendo reveladas”, complementou o morador do Méier, na zona norte do Rio.

O motorista Márcio Costa, 46, também não se mostra esperançoso. “Só acredito vendo, infelizmente”, desabafou. A psicóloga Vanessa Grippe, 28, tem pensamento parecido. “Espero que mude, mas pelo que a gente está vendo, não acredito. Espero estar errada, mas é bizarro”, comentou.

Integrante das Forças Armadas, Diogo Ramos, 35, acredita que as coisas só vão começar a mudar quando as pessoas honestas denunciarem quem é corrupto dentro das instituições. “Não adianta a população votar”, afirmou.

“Não acho que vai mudar nada. O país é movido pela corrupção. Quem entrar, vai continuar no esquema. Só vão fazer diferente para ninguém descobrir”, opinou um vendedor ambulante que tem barraquinha em frente ao prédio da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.


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