Sexta-feira, 01/05/26

Governo da França reconhece falha que poderia ter evitado abuso de Gisèle Pelicot

Governo da França reconhece falha que poderia ter evitado abuso de Gisèle Pelicot
Governo da França reconhece falha que poderia ter evitado abuso – Reprodução

ANGELA BOLDRINI
FOLHAPRESS

Um relatório do Ministério da Justiça da França publicado nesta segunda-feira (19) revela que falhas na investigação de um caso de estupro de 1999 poderiam ter evitado os estupros de Gisèle Pelicot. Seu ex-marido, Dominique Pelicot, foi condenado em dezembro de 2024 por ter orquestrado abusos sexuais contra a então companheira entre 2011 e 2020.

A mulher era drogada e violentada por estranhos que Dominique recrutava na internet, enquanto estava desacordada. Ele foi condenado a 20 anos de prisão por um tribunal de Avignon.

A investigação do governo frencês mostrou que, antes de cometer os crimes, ele poderia ter sido ligado a uma tentativa de estupro de uma corretora imobiliária em 1999, em Villeparisis, na região de Seine-et-Marne, próxima a Paris. O caso só foi reaberto em 2022, e Dominique admitiu a culpa após ser identificado por meio de DNA encontrado no local.

Nesta época, ele já era investigado pelos estupros contra a esposa, que foram descobertos em 2020 quando o homem foi preso filmando mulheres em um shopping da região de Mazan. A polícia encontrou 4.000 vídeos de abusos contra Gisèle em seu computador.

No entanto, uma identificação poderia ter sido feita em 2010, aponta o relatório. Naquele ano, Dominique foi preso na região metropolitana de Paris também por filmar desconhecidas, e teve uma amostra de DNA coletada. Ela se mostrou compatível com o DNA registrado no estupro de 1999.

O resultado da análise, porém, foi enviado por meio de carta para o Tribunal de Justiça de Meaux, onde estava o caso de Nanterre. O Ministério da Justiça constatou que não há indícios de que a corte tenha recebido o documento que poderia levar à condenação de Dominique.

O ministério afirmou que mudará os protocolos de envio de resultados de análise de DNA após a constatação do relatório –eles ainda são feitos pelo correio. A recomendação do governo francês é de que os documentos passem a ser transmitidos de forma exclusivamente digital.

Nesta sexta-feira (16) a promotoria de Nanterre afirmou à agência de notícias AFP que Dominique será alvo de novas investigações. Atualmente, além do estupro de 1999, ele é investigado por um caso de violação sexual seguida de assassinato ocorrida na cidade em 1991. Nos dois casos, as vítimas eram corretoras de imóveis.

O homem nega a participação no primeiro crime, e o relatório do Ministério da Justiça aponta que o Tribunal de Justiça de Paris perdeu os objetos apreendidos na cena do crime, incluindo roupas que poderiam conter traços de DNA.

CASO PELICOT


O processo contra Dominique Pelicot ganhou repercussão mundial depois que Gisèle pediu que o julgamento fosse público, argumentando que “a vergonha tem que mudar de lado”. Durante o julgamento, Gisèle afirmou: “Quando ouço essas mulheres [as esposas dos acusados] dizerem que seus maridos não são estupradores, eu pensava o mesmo. Quando decidi retirar o sigilo, queria que elas dissessem: ‘Se a senhora Pelicot fez isso, nós também podemos’. Não quero mais que elas sintam vergonha. A vergonha não é nossa, é deles. Não expresso nem minha raiva nem meu ódio, mas uma determinação de mudar esta sociedade”.

Dominique afirmou ter crescido em um ambiente familiar nocivo, na presença de um pai “autoritário e tirânico”. Segundo sua advogada, ele sofreu uma série de traumas na infância antes de “cair na perversidade”. De acordo com a defesa, o réu teria dupla personalidade.

Ele recrutou outros 50 homens principalmente por meio de fóruns online. Em depoimento, ele afirmou que deixava claro aos desconhecidos que sua esposa não estava consciente e que eles não deveriam tentar acordá-la.

Alguns dos réus contestaram a versão e disseram ter sido enganados. Segundo eles, Dominique disse que Gisèle apenas estaria dormindo e consentia com as atitudes do então marido.


T LB

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