Terça-feira, 28/04/26

Santa Casa votará aumento de vagas para medicina sob protestos de estudantes

Santa Casa votará aumento de vagas para medicina sob protestos de estudantes
Santa Casa votará aumento de vagas para medicina sob protestos – Reprodução

O Colegiado Superior da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo decide na próxima terça-feira (27) se aumenta ou não as vagas oferecidas anualmente pelo curso de medicina, que podem subir das atuais 180 para 234.

A medida ocorre sob protestos de estudantes, para os quais o processo de abertura das novas vagas ocorreu sem a devida transparência e impõe riscos à qualidade do ensino.

A faculdade afirma reunir “todas as condições legais e regulatórias, com indicadores objetivos de excelência reconhecidos nacionalmente” e diz que “vive um momento de crescimento estruturado, com ampliação de cursos e investimentos em novos prédios, infraestrutura acadêmica, campos de estágio, projetos sociais e pesquisa”.

Ainda segundo a Santa Casa, “o curso possui conceito máximo no Enade e no Enamed recentemente divulgado, além de nota 5 no Índice Geral de Cursos e no recredenciamento institucional pelo MEC [Ministério da Educação]”.

Já o MEC declarou ter constatado pleno atendimento aos critérios para o aumento de alunos e que a portaria que disciplina a abertura de vagas “apresenta critérios rigorosos e bem estruturados, justamente para resguardar a qualidade e a credibilidade do ensino médico no país”.

A votação sobre o aumento de vagas ocorre um mês após a saída da professora Giselle Burlamaqui Klatau do cargo de diretora do curso de medicina. A faculdade disse à Folha de S.Paulo que ela deixou a função por decisão pessoal, declaração contestada por estudantes e também por professores.

Uma nota conjunta assinada pelo corpo docente da instituição em 23 de dezembro diz que “nós não compreendemos o motivo do afastamento precoce da professora Giselle sem que lhe fosse possibilizada a realização da transição da gestão para o próximo diretor, como seria o mais adequado”.

Uma outra manifestação, esta do centro acadêmico, fala em “destituição abrupta” da ex-diretora e diz que ela “nunca solicitou sua destituição imediata do cargo”. Giselle não retornou ao e-mail encaminhado pela Folha.

A troca na gestão ao mesmo tempo em que se discute o aumento de vagas, diz nota do centro, “cria um ambiente institucional de intimidação, na tentativa de silenciar docentes e discentes que eventualmente se posicionem de forma crítica ou contrária”.

A Santa Casa afirma que a demanda já foi esclarecida à comunidade acadêmica e que a ex-diretora foi “regularmente convocada para a reunião do colegiado superior, onde poderá se manifestar nos fóruns institucionais adequados”.

O entendimento de alunos é de que um posicionamento contrário — e a expectativa entre eles era de que Giselle assim se manifestasse -teria mais peso se oriundo da direção do curso do que de um professor.

Aumento de vagas tramita desde 2023

O requerimento pelas 54 novas vagas foi encaminhado ao MEC em outubro de 2023 pelo reitor da faculdade, Carlos Alberto Herrerias de Campos, dez meses depois de a instituição aprovar um plano válido por quatro anos no qual declarou não ter intenção de majorar a quantidade de alunos até 2027.

A Santa Casa não comentou a informação. A votação desta terça servirá decidirá se referenda ou não o pedido do reitor, já autorizado pelo MEC.

Estudantes dizem que, sem ampliar a estrutura atual, o aumento no número de vagas compromete o ensino. A instituição não respondeu se há um plano para absorver o impacto do incremento, mas declarou fazer investimentos contínuos no ensino.

“Vai haver mais professores? Eles serão mais bem pagos? A gente não tem essa resposta e começa a questionar se a qualidade do ensino está realmente sendo pensada. Os alunos entram em 9 de fevereiro e até agora não foi apresentado um plano”, disse à Folha de S.Paulo a presidente do centro acadêmico, Júlia Larissa de Araújo Sousa.

Sem isso, afirma a presidente, o próprio programa de internato — estágio do curso que ocorre no hospital da Santa Casa — tende a ser prejudicado caso não haja aumento no número de supervisores.
“A gente pensa não só na qualidade, mas também nos pacientes.”

A avaliação de estudantes é de que o aumento de vagas foi costurado pela mantenedora da Santa Casa, a Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, ao lado da reitoria.

A própria nomeação do novo diretor do curso, Tercio de Campos, teria passado pelo órgão.

O centro acadêmico diz ver “sintomas claros de interferência da fundação mantenedora em competências que são por natureza acadêmicas, o que fere o princípio da governança e da autonomia universitária”.

“É motivo de grave preocupação o fato de tal indicação ter sido conduzida por gestores da área financeira, sem formação ou atuação reconhecida em educação médica e sem vivência institucional no curso, em detrimento de indicações oriundas da própria direção acadêmica”, afirma nota do órgão.

O novo diretor disse à Folha de S.Paulo ter sido “convidado a assumir o curso de medicina e, como egresso da Faculdade, aceitei a responsabilidade institucional”. Declarou também que “demais questões relacionadas ao curso estão sendo tratadas pelos órgãos competentes da instituição”.

T LB

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *