Após ser advertido pelos Estados Unidos, o Irã negou ter planejado conduzir exercícios militares com tiro real no estreito de Hormuz, a estratégica passagem de 20% do petróleo e gás do mundo que separa o país da península Arábica.
As manobras haviam sido anunciadas pela Press TV, uma emissora de língua inglesa controlada pela teocracia e vista como porta-voz dos interesses da poderosa Guarda Revolucionária.
Na quinta-feira passada (29), o canal havia dito que o treino do braço naval da Guarda ocorreria no domingo (1º) e nesta segunda (2). Teerã emitiu alertas para restringir a navegação nas áreas em que haveria disparos.
Na sexta, o Centcom (Comando Central das Forças Armadas dos EUA, no acrônimo em inglês) fez um alerta.
“O Centcom insta a Guarda Revolucionária a conduzir os exercícios navais anunciados de uma forma que seja segura, profissonal e evite riscos desnecessários para a liberadade de navegação do tráfego marítimo internacional”, disse o comando em nota.
“O estreito de Hormuz é uma passagem marítima internacional e é um corredor comercial que sustenta a prosperidade econômica regional”, completou o Centcom.
Ato contínuo, no domingo uma autoridade iraniana que não foi nominada pela Reuters disse à agência de notícias que o relato da Press TV estava errado, o que parece basicamente improvável dado o controle que a Guarda exerce sobre a emissora.
Na véspera, houve um incidente nebuloso que adiciona contexto ao aparente recuo. Explosões atingiram o porto de Bandar Abbas, o principal centro de operações do Irã no estreito, matando ao menos cinco pessoas.
O regime afirmou que elas foram causadas por vazamentos de gás, mas a tensão reinante levou a outras especulações.
Seja como for, a pressão exercida pela escalada de Donald Trump na região, para onde os EUA enviaram um grupo de ataque de porta-aviões e inúmeros ativos militares parece estar encaminhando alguma negociação com Teerã.
No domingo, Trump foi menos belicoso que o normal. “Espero que cheguemos a um acordo. Se não chegarmos a um acordo, então descobriremos se ele estava certo ou não”, disse ele, acerca da ameaça feita pelo líder supremo do Irã, Ali Khamenei, de que um ataque americano dispararia uma guerra regional ampla.
O americano também confirmou que havia tratativas em curso para reabrir as negociações, que há uma década não ocorrem de forma direta entre Washington e Teerã. Com efeito, o preço do petróleo Brent, caiu quase 5% na abertura do mercado nesta segunda.
Desde seu primeiro mandato, Trump quer ver derrubada a teocracia rival dos EUA. No ano passado, ajudou Israel em sua guerra de 12 dias contra o regime com um ataque direto a instalações de seu programa nuclear, na esperança de que isso enfraquecesse o governo.
De fato o minou, mas também aumentou a repressão interna. No fim de 2025, protestos começaram nas ruas devido à crise econômica, e rapidamente se tornaram os maiores atos contra o regime islâmico desde sua fundação, em 1979. ONGs estimam mais de 5.000 mortes pelas forças de segurança.
O país está sob um blecaute de internet, mas o governo parece ter retomado controle da situação. Trump, no auge dos atos, prometeu enviar ajuda aos manifestantes. De fato cercou o Irã de navios e aviões de ataque, mas agora mudou o foco para o programa nuclear dos aiatolás.
Em 2018, republicano havia retirado os EUA do acordo que trocava o fim de sanções econômicas ao compromisso de que o Irã não desenvolveria a bomba atômica.
Isso desmontou o arranjo ao fim, e hoje o país persa acumulou ao menos 400 kg de urânio enriquecido a um nível suficiente para talvez 15 armas de baixo rendimento. Não se sabe o quanto disso sobreviveu ao ataque americano de junho passado.
Não houve avanços na negociação desde então também, levando à escalada atual, que é temperada pelo voluntarismo de Trump após o sucesso em capturar o ditador Nicolás Maduro há um mês. O venezuelano é uma aliado do Irã, mas as condições operacionais em caso de conflito agora são bastante mais complexas para os EUA.








