Quinta-feira, 05/02/26

Vídeo do cão Orelha sem ferimentos vira arma da defesa de adolescente apontado como autor da agressão

Vídeo do cão Orelha sem ferimentos vira arma da defesa de adolescente apontado como autor da agressão
Vídeo do cão Orelha sem ferimentos vira arma da defesa – Reprodução

A defesa do adolescente apontado pela Polícia Civil de Santa Catarina como responsável pela morte do cão Orelha apresentou um novo vídeo que indicaria inconsistências na tese dos investigadores.

A imagem do circuito de câmeras de segurança do condomínio mostra, segundo a defesa, o cachorro caminhando às 7h06 do dia 4 de janeiro sem ferimentos visíveis, cerca de uma hora e meia depois do horário que a polícia afirma que o animal foi agredido. Orelha morreu no dia 5 pela gravidade dos ferimentos.

A polícia pediu a internação do jovem e afirma que contradições em seu depoimento foram determinantes para o pedido. No entanto, o advogado Alexandre Kale afirma que há contradições na própria acusação apresentada pela polícia para atribuir responsabilidade ao jovem pela morte do animal, que vivia na Praia Brava, em Florianópolis (SC). “São vestígios, indícios fracos e inconsistentes, talvez pela pressa, e que levaram ao indiciamento de um adolescente de forma prematura”, disse.

A Polícia Civil aponta como evidência um vídeo que mostra o adolescente saindo do condomínio às 5h25 da manhã e retornando às 5h58, acompanhado de uma amiga. Isso colocaria o menor no local do crime no horário estimado da agressão ao cão, às 5h30.

O advogado confirma que o jovem saiu do condomínio nesse período, mas aponta que o cão não teria sido agredido nesse horário. Ele apresentou um vídeo que teria sido registrado às 7h06 do mesmo dia no qual o cachorro aparece caminhando na calçada do condomínio, próximo a uma pessoa correndo.

Além disso, a defesa questiona como o adolescente teria ido à praia acompanhado, cometido o crime e voltado em um período de 23 minutos, com o dia claro e a praia movimentada.

Segundo Alexandre Kale, a jovem que acompanhou o adolescente até a praia disse, em depoimento, que eles conversaram e que ele teria desabafado por estar com saudade de uma ex-namorada.

“Nesse momento em que ele teria agredido o cachorro? Um monte de surfistas na praia, vários moradores correndo, outros jogando futebol e tomando sol desde as 5h da manhã?”, disse o advogado.

MOLETOM E BONÉ

A defesa também contesta um dos pontos utilizados pela Polícia Civil para fundamentar a denúncia: duas peças de vestuário que ele estaria usando no momento registrado em vídeo, um boné rosa e um moletom preto, ambos recolhidos pela polícia.

De acordo com a polícia, a mãe do adolescente mostrou um comportamento considerado suspeito ao tentar esconder o boné na bolsa e ao afirmar que o moletom preto, encontrado na mala do adolescente, teria sido adquirido nos Estados Unidos, versão que o próprio jovem negou.

Segundo o advogado, a mãe havia levado o boné para o jovem usar no aeroporto e não ser reconhecido, por questões de segurança. Quando o adolescente foi levado à Polícia Federal, segundo a defesa, ela teria mandado ele tirar o boné por questão de educação e o guardou na bolsa.

Em relação ao moletom, o advogado afirma que houve uma confusão ao apontar na mala o casaco preto que o adolescente havia levado e outro moletom trazido dos Estados Unidos. “Fizeram essa mistura para justificar o injustificável”, declarou.

‘APARATO PÚBLICO ACABOU CONTAMINADO PELO TRIBUNAL DA INTERNET’

“A investigação atendeu ao clamor público. E, diante da ausência de uma prova cabal de quem cometeu a violência contra o cão, estão tentando encontrar qualquer culpado com base em zero provas”, disse Kale. “O aparato público acabou contaminado pelo tribunal da internet.”

A origem da confusão estaria, segundo a defesa, na versão repassada pelo porteiro do condomínio, que teria tido desentendimentos com adolescentes –incluindo o jovem indiciado– ao longo do mês de dezembro.

O estopim teria sido uma discussão motivada por uma festa ocorrida entre os dias 12 e 13 de janeiro no condomínio. O porteiro teria registrado imagens dos jovens no circuito interno de segurança e encaminhado em um grupo de WhatsApp, levantando a suspeita de que eles seriam responsáveis pela suposta agressão ao cão Orelha.

Segundo a defesa, o pai do adolescente procurou o porteiro após o filho relatar que teria sido jurado de morte após um bate-boca com o porteiro, negando qualquer tipo de coação ou agressão física. “Um pai colocou a mão no ombro, ele não quis receber a mão no ombro e simplesmente deu um passo para trás. Foi tudo urbano, ordeiro, todo mundo foi educado”, sustenta o advogado Rodrigo Duarte, que integra a defesa.

A defesa também questiona a acusação de coação de testemunha, argumentando que o procedimento só foi instaurado no dia 19, uma semana após a discussão.

A investigação passou por mudanças de versões ao longo dos dias. O número de jovens originalmente considerados suspeitos era quatro. No dia 26 de janeiro, foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas residências dos suspeitos, com a apreensão de celulares dos adolescentes. Um deles conseguiu comprovar que não estava na Praia Brava no dia do ocorrido, foi retirado do processo e passou a ser tratado como testemunha.

Segundo Kale, os envolvidos já sofreram uma “inquisição digital”.

Com base no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Justiça de Santa Catarina determinou a exclusão de conteúdos que expusessem os jovens nas redes sociais do grupo Meta e no TikTok.

T LB

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