Sexta-feira, 06/02/26

Processos encarecem passagem, diz presidente da Anac sobre limitar ações por atraso de voo

Processos encarecem passagem, diz presidente da Anac sobre limitar ações por atraso de voo
Processos encarecem passagem, diz presidente da Anac sobre limitar ações – Reprodução

O presidente da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), Tiago Faierstein, defendeu em entrevista à reportagem que a proposta do órgão para isentar a responsabilidade civil das empresas aéreas em casos de atraso ou cancelamento não retira direitos dos passageiros.

Ele cita levantamento da agência para dizer que apenas 1,6% dos voos foram cancelados e outros 6,5% tiveram atrasos maiores do que 30 minutos em 2025. “É um dos maiores índices de pontualidade do mundo”, afirma.

Para Faierstein, a proposta não desincentiva a judicialização quando ela é necessária, apenas delimita que as companhias não poderão ser penalizadas em casos que fogem ao seu controle.

“Se a companhia aérea não pagou o hotel, não pagou a alimentação, se ela atrasou por culpa dela, por um problema na aeronave, na tripulação, ou se o sistema caiu, a gente está dizendo que a culpa é dela sim”, diz o presidente da agência.

A Anac submeteu à consulta pública na última quinta-feira (22) uma proposta de alteração da regulação civil no Brasil que mantém a responsabilidade dos transportadores aéreos por dano resultante de atrasos significativos, mas estabelece que as empresas são inimputáveis em casos fortuitos ou de força maior.

Isso significa que atrasos e cancelamentos em função de tempestade, fechamento de aeroporto ou por determinação de autoridade não entram no rol de motivos pelos quais o passageiro pode pedir reparação moral na Justiça –a previsão já existia em lei de 2020, mas fica reforçada caso a nova regulação da Anac entre em vigor.

O Idec (Instituto de Defesa de Consumidores) afirmou ver com preocupação a proposta de resolução. Em nota, a entidade argumenta que a regra pode desestimular o reconhecimento do dano moral, funcionando como barreira do acesso à justiça.

“O Idec entende que qualquer revisão normativa deve fortalecer a qualidade do serviço e os mecanismos de prevenção de danos, e não restringir direitos já consolidados dos passageiros”, diz o instituto em nota enviada à Folha.

Faierstein diz que a proposta não está fechada e que foi submetida à consulta pública para que possa ser melhorada com contribuições da sociedade, inclusive do Idec. Ele se comprometeu a prestar explicações no Congresso Nacional antes de aprovar a mudança na agência.

O QUE MUDA SE PROPOSTA DA ANAC FOR APROVADA?

Texto submetido à consulta pública altera Resolução 400/2016, que contém deveres das companhias aéreas no Brasil

‘Disclaimer’

Empresas devem indicar “de maneira clara, acessível e ostensiva”, que o transporte aéreo é sujeito a eventos decorrentes de contextos operacionais inerentes à atividade

Transparência

Também precisarão deixar claros os motivos do atraso, a previsão de partida, as opções de reacomodação disponíveis e as orientações para obtenção da assistência material

Dano por atraso

O transportador segue responsável por danos decorrentes de atrasos, exceto em casos considerados de ‘força maior’, como fechamento de aeroportos, tempestades e determinação de autoridades

Assistência material

Fornecimento de alimentação e hospedagem continua sendo obrigatória, mas não implica reconhecimento de culpa

Os defensores da medida defendem que existe uma indústria de empresas e escritórios especializada em processar as companhias, pagando prêmios aos passageiros e ficando com a maior parte das indenizações. O resultado, segundo eles, são passagens mais caras para o consumidor.
O presidente da Anac endossa esse argumento e diz que cerca de 4,6% do valor das passagens pode ser atribuído aos altos custos com processos judiciais.
“Não tem advogado de porta de cadeia? Então, a gente brinca aqui dizendo que tem advogado de porta de finger [conector entre a aeronave e a portão do aeroporto]”, diz. “Quando a pessoa pousa já está lá o advogado com a procuração pronta. A coisa perdeu o controle.”
O presidente da Anac prevê para março deste ano a implementação de uma plataforma virtual em que juízes poderão consultar os motivos dos atrasos e cancelamentos de voos.

T LB

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