Sábado, 07/02/26

Em golpe para curiosos, CIA derruba publicação de conhecimentos gerais

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Em golpe para curiosos, CIA derruba publicação de conhecimentos gerais – Reprodução

VICTOR LACOMBE
FOLHAPRESS

Patrocinando um golpe contra curiosos ao redor do mundo, a CIA, a agência de espionagem dos Estados Unidos, derrubou na quarta-feira (4) o World Factbook, publicação que reunia informações básicas sobre o planeta havia 64 anos.

A agência não deu explicação para ter tirado do ar a base de dados, gratuita e utilizada por instituições de ensino, governos e jornais, que consultavam o World Factbook para obter dados como área, população, PIB e outros fatos essenciais sobre quase todos os países do globo.

Ao remover a publicação de seu site, a CIA colocou no lugar um artigo intitulado “dando um adeus encarecido e reconhecendo o World Factbook”. “Uma das publicações de inteligência mais antigas e conhecidas da CIA, o World Factbook chega ao fim”, diz a nota. “Ele foi consultado pela comunidade de inteligência e pelo público em geral como uma referência básica e completa sobre países e comunidades no mundo todo.”

“O documento original, chamado O Livro Básico Nacional de Fatos de Inteligência, surgiu em 1962, e a primeira versão não confidencial foi publicada em 1971. Desde que chegou à internet, em 1997, gerou milhões de visualizações a cada ano”, diz a agência de espionagem.

“Por fim, apenas entendidos da CIA vão saber que agentes de inteligência doavam suas próprias fotos de viagem ao World Factbook, que disponibilizava mais de 5.000 imagens gratuitas para qualquer um acessar e usar”, prossegue o comunicado. “Embora o World Factbook tenha acabado, em nome de seu espírito, legado e alcance mundial, esperamos que você fique curioso a respeito do mundo e encontre maneiras de explorá-lo… pessoal ou virtualmente”, conclui.

A nota difere da página em que a agência de espionagem lista a história da publicação. Em um artigo publicado em setembro de 2020, a CIA diz que “antes que houvesse a Wikipedia, o Bing e certamente antes que ‘google’ fosse um verbo, havia o World Factbook”.

“Ele tem sido um recurso utilizado por presidentes, militares, e os maiores especialistas do mundo. É usado em tempos de crise e incerteza, em tempos de paz e guerra. É uma fonte confiável de inteligência básica que foi e continuará sendo uma parte essencial do legado da CIA”, concluía o artigo.

Críticos viram no fim do World Factbook —que não apenas deixará de ser atualizado, como desapareceu da internet por completo— mais uma medida do governo Donald Trump que enfraquece a qualidade das informações publicadas pelo governo americano na internet. Desde que voltou ao poder, sites de departamentos dos EUA, incluindo o de saúde, vêm sendo removidos ou fortemente alterados para suprimir informações sobre gênero, raça ou sexualidade.

Além de informações básicas de cada país, o World Factbook também incluía, a depender do lugar referenciado, dados sobre a sociedade, o clima, a economia, a infraestrutura, os setores energético, militar e aeroespacial, o tipo de governo, detalhes do ordenamento jurídico, tradição diplomática, eventuais disputas internacionais e uma breve história do país.

Sobre o Brasil, por exemplo, a publicação dizia que “depois de mais de três séculos de domínio português, o Brasil obteve sua independência em 1822, mantendo um sistema de governo monárquico até a abolição da escravatura em 1888 e a proclamação de uma república pelas Forças Armadas em 1889”.

Sem citar o apoio crucial da CIA e do governo dos EUA ao golpe militar, o World Factbook simplesmente afirmava que, em 1964, “as Forças Armadas derrubaram” o presidente João Goulart.

“O regime militar censurou jornalistas e reprimiu e torturou dissidentes nos anos 1960 e 1970. A ditadura durou até 1985, quando o regime militar cedeu o poder de forma pacífica a líderes civis, culminando na promulgação da Constituição atual pelo Congresso brasileiro.”

T LB

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