Na véspera do tradicional discurso anual sobre o Estado da União, o presidente americano Donald Trump enfrenta um dos piores momentos de seu segundo mandato.
“Eu poderia atirar em alguém, do meio da Quinta Avenida, e não perderia nenhum eleitor”, disse Trump em frase de 2016 que ficou famosa.
Dez anos depois, o efeito Teflon não parece mais tão garantido: tarifas, inflação e intervenções militares em outros países estão lhe custando apoio do eleitorado.
Segundo pesquisa Washington Post-ABC News-Ipsos divulgada neste domingo (22), a aprovação de Trump está em 39%, com 60% de desaprovação, sendo que 47% afirmam desaprovar fortemente seu governo. A última vez que a desaprovação de Trump chegou a 60% foi pouco depois do ataque ao Capitólio dos EUA, em 6 de janeiro de 2021, em seu primeiro mandato.
Entretanto, em uma amostra da profunda polarização dos EUA, Trump mantém alta aprovação entre eleitores republicanos, de 85% -enquanto 94% dos democratas e 69% dos independentes desaprovam seu desempenho no cargo.
Ainda assim, há fissuras na muralha republicana – o apoio firme de eleitores republicanos a Trump ficou em 48%, bem abaixo dos 63% de um ano atrás.
Seu pior desempenho se relaciona à inflação; 65% dos eleitores acreditam que ele está lidando mal com o tema.
Embora ele tenha dito que “acabou” com a alta de preços, que chegou a alarmantes 9,1% em julho de 2022, durante o governo Biden, a tendência de queda antecede sua posse, e o tema ainda desperta preocupação. O Departamento de Comércio divulgou na sexta-feira (20) que, em dezembro, o núcleo da inflação, excluindo alimentos e energia, subiu a uma taxa anualizada de 3% – um ponto percentual superior à meta de inflação do Fed, o banco central americano.
Em segundo lugar entre as áreas em que o desempenho de Trump é rechaçado estão as tarifas, desaprovadas por 64%.
Outro tema com ampla rejeição do eleitorado (62%) é a intervenção em outros países. Enquanto Trump mobiliza dezenas de caças em bases no Oriente Médio em preparação para ataque contra o Irã, apenas 20% dos eleitores dizem apoiar que o presidente use forças militares para fazer mudanças em outras nações.
Em seu segundo mandato, Trump já fez ações militares em sete países: Irã, Venezuela, Síria, Iêmen, Nigéria, Somália e Iraque.
Outras pesquisas divulgadas no domingo (22) e na segunda-feira (23) apontam para a mesma direção de erosão de apoio ao republicano. A da PBS News/NPR/Marist indica que 55% dos americanos o veem mudando o país para pior, com 37% acreditando em melhora e 8% não vendo mudança.
No levantamento da CNN/SRRS, Trump aparece com aprovação de 36%. Quando o republicano discursou no Congresso no ano passado, seu índice de popularidade estava em 48%.
Todos esses temas -tarifas, inflação e intervenção no Irã- serão destaques do discurso de Trump sobre o Estado da União na noite de terça-feira (24). Além disso, o mandatário deve falar sobre imigração, incluindo a paralisia do Departamento de Segurança Doméstica, que está com as verbas congeladas por causa do conflito entre democratas e a Casa Branca em relação à política migratória e a ação do ICE, que já causou seis mortes, entre elas de dois cidadãos americanos em Minnesota.
Fiel a seu estilo, Trump não pretende recuar. Após a Suprema Corte derrubar as tarifas na sexta-feira (20), considerando-as ilegais, Trump anunciou taxas universais de 10%, que depois elevou para 15%. As novas tarifas devem entrar em vigor nesta terça-feira (24).
Trump reagiu com a habitual irascibilidade à decisão da Suprema Corte, a primeira que contesta uma medida sua de forma peremptória. “Tenho vergonha de certos membros da Suprema Corte. Esses juízes são uma vergonha para nossa nação”.
Os democratas enxergam nas tarifas um triunfo para a campanha das eleições de meio de mandato de novembro, em que tentam reconquistar o controle da Câmara e do Senado.
Eles já planejavam apostar no custo de vida na propaganda política contra os republicanos – no ano passado, o tema ajudou a eleger a governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, a da Virgínia, Abigail Spanberger, e o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.
Trump, ao insistir nas tarifas, aumenta o leque de ataques à disposição dos democratas. Eles pretendem bater na tecla de que as tarifas foram um imposto pago por todos os americanos e que todos deveriam ser reembolsados.
O presidenciável democrata JB Pritzker, governador de Illinois, divulgou nota pedindo que a Casa Branca devolva US$ 8,6 bilhões em tarifas, US$ 1,7 mil para cada eleitor de seu estado. “O presidente deve a vocês um pedido de desculpas – e um reembolso”, disse.
Em mensagem ao site Politico, a Casa Branca manteve seu posicionamento. “O presidente Trump usou tarifas de forma poderosa para renegociar acordos comerciais falhos, reduzir os preços de medicamentos e garantir trilhões em investimentos industriais para os trabalhadores americanos -tudo o que os democratas prometeram por décadas”, disse o porta-voz Kush Desai.
Em seu discurso no Congresso, Trump deve partir para o ataque e dobrar a aposta nas tarifas, para desespero de alguns candidatos republicanos nos distritos mais atingidos pelas consequências econômicas das tarifas.
Segundo pesquisa YouGov divulgada no domingo (22), a maioria dos americanos acredita que as tarifas de Trump tenham aumentado os preços, seja muito (41%) ou ligeiramente (25%). Apenas 5% dos americanos dizem que os preços caíram e 16% dizem que as tarifas não tiveram efeito nos preços que pagaram.








