ISABELLA MENON
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
À frente do Departamento de Segurança Interna (DHS), Kristi Noem mantém o estilo que agrada a Donald Trump. No governo, o que a credenciou não foi apenas a estética conhecida como “Mar-a-Lago face” marca registrada das republicanas do governo, com lábios preenchidos, cabelos milimetricamente ondulados e maquiagem pesada, mas sua lealdade incondicional ao presidente.
Depois das mortes de dois americanos em ações truculentas de agentes de imigração que ela chefia, Noem foi apontada como alguém “andando na corda bamba”, com altas chances de perder o cargo. Nada aconteceu.
Para especialistas, a fidelidade de Noem ao presidente foi determinante para mantê-la no cargo. “Trump gosta do estilo dela em geral e ela é uma apoiadora leal. Ele gosta de manter seus aliados unidos”, afirma Robert Shapiro, professor da Universidade Columbia.
Surgiram, porém, sinais de tensão. Após a morte de Alex Pretti, em Minneapolis, Noem disse que o enfermeiro morto a tiros por agentes de fronteira era um terrorista e que havia feito ameaças. A declaração, contudo, foi desmentida por vídeos da cena que mostravam Pretti apenas filmando os agentes.
O episódio gerou fortes críticas até de dentro do Partido Republicano, com parlamentares pedindo a saída da secretária. Noem foi chamada para uma reunião de duas horas na Casa Branca, na qual detalhou ao presidente as circunstâncias que levaram à morte de Pretti, segundo a imprensa americana.
Trump também mostrou sinais de desgaste: demitiu o comandante responsável pela operação especial em Minnesota e, durante uma reunião ministerial, não citou Noem nem pediu sua palavra algo incomum, dado que ela lidera uma das pastas mais importantes do governo, com grande protagonismo em ações contra imigrantes em situação irregular.
Noem ajustou o discurso público e disse que, no dia da morte de Pretti, agiu com base nas melhores informações disponíveis para esclarecer o episódio à população. Também anunciou que agentes passariam a usar câmeras corporais durante ações.
As controvérsias não são novidade em sua trajetória. Noem iniciou a carreira política no Legislativo da Dakota do Sul, atuou oito anos na Câmara e, em 2018, foi eleita governadora, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. Reeleita em 2022, deixou o posto para integrar o gabinete de Trump.
Como governadora, ganhou projeção nacional ao rejeitar medidas sanitárias durante a pandemia de Covid-19, incluindo o uso obrigatório de máscaras e lockdowns. Ela também já demonstrava posição anti-imigração, tendo se negado a aceitar refugiados afegãos após o Talibã retomar o poder, em 2021.
Seu nome chegou a ser ventilado como possível candidata à Vice-Presidência, embora críticas tenham surgido quando ela publicou um livro relatando ter matado seu próprio cachorro de 14 meses por considerá-lo indomável. No mesmo livro, contou também ter matado uma cabra da fazenda da família por considerá-la “má, nojenta e malcheirosa”.
As controvérsias e o visual plastificado foram alvo de sátiras, como do desenho animado “South Park”, em que a secretária, ao se deparar com um cachorro, reagia de forma exagerada e absurda, imediatamente atacando-o com uma arma em mãos.
Porém, nada a impediu de garantir um cargo. Na liderança do DHS, Noem ganhou ampla reputação midiática: a imprensa americana chegou a descrevê-la como “feita para TV” e até “Barbie do ICE”.
Uma das cenas durante o governo Trump que mais chamou atenção foram os vídeos e fotos que a secretária fez dentro do Cecot, a megaprisão inaugurada pelo presidente Nayib Bukele em El Salvador.
“Não venha ao nosso país ilegalmente”, afirmava Noem em mensagem destinada a possíveis imigrantes em situação irregular. “Se vier, vai ser removido e processado”, disse, com os cabelos perfeitamente arrumados sob um boné do ICE, diante de centenas de presos no Cecot.
Apesar de adotar um estilo linha-dura, a condução de ações truculentas de agentes de imigração foi desaconselhada por veteranos. De acordo com reportagem do Wall Street Journal, a secretária foi alertada de que operações espetaculares ou truculentas teriam risco de descreditar a missão do departamento e prejudicar sua reputação institucional.
Noem, no entanto, defendia que a visibilidade e o rigor dessas ações eram essenciais para coibir a imigração irregular. Ela acreditava que o efeito dissuasivo justificava a exposição midiática e o confronto direto.
Embora a crise com Trump pareça superada, os desafios continuam. Entre eles, o DHS enfrenta uma paralisação após democratas e republicanos não chegarem a um consenso sobre o orçamento da pasta.
Entre crises, recuos táticos e ajustes de rota, Noem segue operando no limite entre o espetáculo e o desgaste, sustentada por uma imagem cuidadosamente construída e por uma lealdade que, ao menos por enquanto, parece valer mais do que as controvérsias que a cercam.








