Quinta-feira, 26/02/26

Por que tecnologia não fez você trabalhar menos?

Por que tecnologia não fez você trabalhar menos?
Por que tecnologia não fez você trabalhar menos? – Reprodução

“Você vê influenciadores, o LinkedIn dando aquela vaga sensação de que, se você não fizer algo com o seu tempo ocioso, você é um inútil para a sociedade. Não é só o trabalho, é a sinalização de virtude. Você tem que fazer uma coisa diferente, uma coisa nova, você tem que conhecer um lugar novo, você tem que ir naquele restaurante que o café é legal. Tem que performar o tempo todo. Isso cobra um problema muito grande de saúde mental”, diz.

Fernandes ressalta que, apesar do potencial das máquinas para aliviar tarefas, o tempo liberado é rapidamente preenchido por outras obrigações, muitas vezes impostas pela própria cultura. Exemplo é a máquina de lavar. Ao facilitar o serviço, liberou tempo para mais trabalho doméstico, quase sempre recaindo sobre os ombros das mulheres. “A pessoa que, aparentemente, se liberta disso pelo uso da máquina é levada pela cultura a continuar trabalhando.”, resume.

Ainda assim, Fernandes reforça que o desafio não está nas máquinas, mas em como a sociedade regula e distribui tempo e trabalho, sobretudo diante de tantas novidades tecnológicas.

“Não dá para ‘desinventar’. E eu defendo essas invenções. De vez em quando a gente está muito cansado, mas você acha que eu vou parar tudo e ficar só ouvindo disco de vinil, vou ficar só vendo televisão? Não. Eu adorei quando chegou o CD, o DVD, os canais de streaming. Gosto muito do livro digital, mas leio tanto em Kindle quanto em papel. Ao longo dos anos, fui buscando estratégias para equilibrar isso”, comenta.

Para o escritor, a lógica da intensificação do trabalho guiada pelo consumo de tecnologia é global, independente do sistema político.

Eu estive na China um ano e meio atrás, dando uma oficina de ficção científica para os estudantes universitários. E a China, mesmo sendo comunista e tendo um partido só, ela tem uma cultura do consumo que é idêntica à do Ocidente nesse sentido. Os jovens universitários chineses não diferem dos nossos jovens universitários. É uma cultura que tomou parte do mundo inteiro, não uma coisa que pertence a este ou aquele lado do espectro político
Fábio Fernandes


T LB

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