Quarta-feira, 11/03/26

Estudo da UFRJ identifica 123 canais misóginos no YouTube com 23 milhões de inscritos

Estudo da UFRJ identifica 123 canais misóginos no YouTube com 23 milhões de inscritos
Estudo da UFRJ identifica 123 canais misóginos no YouTube com – Reprodução

Pelo menos 123 canais brasileiros que disseminam conteúdo misógino estão ativos no YouTube, somando mais de 23 milhões de inscritos e cerca de 130 mil vídeos, segundo levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os dados, divulgados nesta segunda-feira (9), logo após o Dia Internacional da Mulher, atualizam um mapeamento realizado em 2024, quando 137 canais foram identificados. Desde então, apenas 14 foram removidos, por iniciativa dos donos ou da plataforma, e 20 mudaram de nome, mas alguns continuam produzindo conteúdo misógino.

O NetLab destaca que esses canais ganharam novos seguidores, com um aumento de 18,5% nas inscrições desde abril de 2024, o que representa mais de 3,6 milhões de novas assinaturas nos 123 canais restantes.

Os vídeos também geram renda para os criadores. Na amostra inicial de 2024, cerca de 80% dos canais apresentavam estratégias de monetização, como anúncios, programa de membros do YouTube, além de alternativas como vendas de e-books ou transferências via Pix.

Para a pesquisadora do NetLab, Luciane Belín, isso demonstra como a misoginia se tornou um nicho lucrativo. “Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização e na subjugação de mulheres”, explicou.

O estudo trabalhou com um conceito amplo de misoginia, que inclui não apenas ódio e violência direta, mas também sentimentos de desprezo e aversão, e ideologia que pressupõe a subjugação das mulheres. Para identificar os canais, considerou aqueles com pelo menos três vídeos contendo manifestações de ódio às mulheres.

O tema mais recorrente, presente em 42% dos vídeos, foi “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina”, que conclamam homens a não se deixarem dominar pelas mulheres e tratá-las com desprezo, além de retratar iniciativas de igualdade de gênero como estratégias de dominação social contra os homens.

Conteúdos explícitos foram encontrados, com termos como “burra” e “vagabunda” usados para descrever mulheres. Influenciadores usam estratégias para dissimular, como abreviações (“mulher” por “colher”) e imagens que mostram mulheres ajoelhadas ou hipersexualizadas.

Luciane Belín cobra mais responsabilização das plataformas: “A criminalização da misoginia seria um caminho que poderia contribuir para minimização desses discursos, mas além da questão da criminalização, a gente também precisa continuar discutindo qual é o papel das plataformas em relação à soberania do país mesmo. Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet.”

A Google, responsável pelo YouTube, foi procurada, mas ainda não respondeu à reportagem.

O relatório indica que o fenômeno é recente: o vídeo mais antigo é de 2021, mas 88% foram postados a partir desse ano, com 52% entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Desde abril, cerca de 25 mil novos vídeos foram publicados.

Com informações da Agência Brasil

T LB

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *