FABÍOLA PEREZ
UOL/FOLHAPRESS
Passados 13 dias do início do confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã, o regime iraniano resiste mesmo após o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e dezenas de outras autoridades terem sido assassinadas. Especialistas apontam que os EUA fracassaram no objetivo de desmantelar o regime.
O QUE EXPLICA O FRACASSO DOS EUA
Plano A dos EUA e Israel de retirar o governo iraniano do poder nos primeiros dias de confronto não funcionou, avalia especialista. De acordo com o professor de relações internacionais da PUC-MG e membro do grupo de estudos de Oriente Médio e Magreb (região norte da África) Danny Zahreddine, os ataques norte-americanos e israelenses geraram solidariedade, reforço regional e impulsionaram a escolha de um novo líder.
Escolha de filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei, como líder mostra continuidade do regime iraniano. “A resiliência iraniana se mostrou capaz de suportar os violentos golpes recebidos das forças aéreas dos EUA e de Israel”, diz Zahreddine. “Ao mesmo tempo, conseguiu envolver de maneira sistêmica seus vizinhos e o mundo gerando uma crise energética e de logística tanto para o exército estadunidense e israelense quanto para a distribuição de bens e serviços de energia no mundo.”
Resistência iraniana provocou mudança no discurso norte-americano. “Há uma mudança no discurso dos Estados Unidos que vão dizer que agora o objetivo é destruir a capacidade de produção de lançamento de estocagem de mísseis balísticos do Irã como uma forma de tentar justificar daqui a alguns dias um eventual fim bem-sucedido dessa ação”, afirma o especialista da PUC-MG. “Com o passar dos dias, os EUA buscam uma saída para uma condição política complexa criada por eles mesmos.”
EUA subestimaram capacidade político-militar do Irã, afirma especialista.O professor do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e da Escola Superior de Guerra Ronaldo Carmona explica que o Irã é um país com milhares de anos de história e com regime político estável desde 1979. “Trata-se de uma civilização persa consolidada com um regime que busca ter forças armadas robustas e de capacidade mundial.”
Irã se destaca na capacidade de desenvolver mísseis de cruzeiros, balísticos e drones. “É um país com uma importante força militar”, afirma. “Houve uma subestimação da capacidade militar do Irã por parte do comando político dos Estados Unidos. As Forças Armadas americanas certamente conhecem o tamanho do desafio. Mas, do ponto de vista político, houve essa subestimação.”
Geografia do Irã ajuda a ocultar capacidades tecnológicas, diz Carmona. “O Irã possui uma conhecida capacidade de construir instalações militares subterrâneas para se proteger dos ataques aéreos e da tentativa de degradação dessas capacidades por parte dos EUA e de Israel.”
MUDANÇA DE DISCURSO
Presidente dos EUA, Donald Trump tem dado declarações desencontradas sobre a continuidade e os objetivos da guerra. Na quarta-feira (11), ele disse que o conflito vai acabar quando ele quiser que acabe. “A guerra está indo muito bem. Estamos muito à frente da nossa programação. Provocamos mais danos do que pensávamos ser possível.”
Nova declaração de Trump contradiz diretrizes anteriores. Na segunda, ele disse que o conflito poderia terminar em breve. “Ela [a guerra] será concluída muito brevemente”, afirmou a parlamentares republicanos. “Já vencemos em muitos aspectos, mas não vencemos o suficiente”. Na sexta-feira (6), Trump disse que apenas “a rendição incondicional” do Irã pode encerrar a guerra, descartando a possibilidade de acordos.
Objetivo da guerra é incerto, e Trump é volátil, pondera Carmona. “No início da guerra, ele proclamava objetivos de mudança de regime. Depois, outras variáveis abriram margem para tentativas de acordo”, diz o especialista. “Não se sabe se o objetivo final é a mudança de regime ou apenas a degradação das capacidades militares e do programa nuclear iraniano.”
Para Israel, o objetivo principal é a mudança de regime, explica o professor. “Mas, o país de Netanyahu não parece ter força para alcançar esse objetivo sozinho. Até porque o Irã tem uma capacidade militar significativa”, diz. Especialistas têm afirmado que uma mudança de regime só seria possível com uma incursão terrestre -o que não tem sido considerado por Trump até o momento. “Mantidos os ataques aéreos com mísseis e drones é improvável que consigam atingir uma mudança de regime.”
CONTINUIDADE DO REGIME IRANIANO E CENÁRIOS
Maioria dos iranianos está coesa em torno dos objetivos Revolução Islâmica de 1979. A população do Irã é formada por uma maioria xiita. Para o professor de relações internacionais da PUC-SP e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos Rodrigo Amaral, a sociedade iraniana se mostra contrária a interferência norte-americana.
Prevalece sentimento contrário à presença estrangeira no país desde a revolução de 1979, afirma Amaral. Desde aquele período, em que o Irã se transformou de uma monarquia apoiada pelo Ocidente em uma república teocrática comandada por lideranças locais, há setores na sociedade que refutam a presença estrangeira. “A sociedade iraniana é diversa e ativa.”
Cenários futuros incluem escalada da guerra, pouca margem para negociação e continuidade das retaliações iranianas, analisa Carmona. Para ele, o fim do regime depende do agravamento do conflito por meio de tropas terrestres ou novos artefatos militares norte-americanos e israelenses.
Estratégia do Irã é “jogar com carta do fechamento do Estreito de Hormuz”. “Há implicações gigantescas sobre a economia mundial, isso pode levar o preço do barril do petróleo 200 dólares, jogando a economia mundial para uma recessão”, diz Carmona. “Essa é a carta que o Irã tem na manga junto com o uso das suas capacidades militares para retaliar os EUA e, sobretudo, Israel.”








