Quinta-feira, 09/04/26

 Justiça em xeque: entre a moral do passado e a desconfiança do presente

Foto: MTG

Reflexão inspirada nas palavras de Rui Barbosa evidencia como a perda de credibilidade das instituições ainda ecoa críticas feitas há mais de um século

Por Vital Furtado

A percepção de justiça como um valor moral inabalável, sustentado pelo respeito coletivo, parece cada vez mais distante da realidade contemporânea. Em um passado idealizado, acreditava-se que a força das instituições judiciais residia menos em mecanismos de coerção e mais na credibilidade e na confiança pública. A ausência de barreiras físicas simbolizava, naquele contexto, a presença de uma autoridade moral incontestável.

No cenário atual, no entanto, observa-se uma transformação significativa nesse paradigma. A crescente desconfiança nas instituições, somada a episódios recorrentes de corrupção e impunidade, tem contribuído para o enfraquecimento da imagem da Justiça como guardiã dos princípios éticos e legais. Esse contexto exige não apenas estruturas mais rígidas de controle, mas também reacende o debate sobre a legitimidade do sistema.

Essa mudança de percepção não é recente. Ainda no início do século XX, o jurista e político Rui Barbosa já demonstrava preocupação com os rumos da sociedade brasileira. Em discurso proferido em 14 de dezembro de 1914, ele sintetizou, de forma contundente, um sentimento que atravessaria gerações.

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”, afirmou Rui Barbosa, em uma crítica que permanece atual mais de um século depois.

Especialistas apontam que a permanência desse sentimento ao longo do tempo revela falhas estruturais que ainda não foram plenamente superadas. A sensação de impunidade, aliada à abuso de poder, inobservância da Constituição e sentenças arbitrárias contribui para o descrédito da população e reforça a ideia de que a Justiça nem sempre alcança a todos de maneira igualitária.

Diante desse cenário, o desafio contemporâneo é resgatar a confiança nas instituições, por meio de transparência, eficiência e compromisso com a equidade. Mais do que estruturas físicas ou medidas de segurança, é a reconstrução da credibilidade moral que poderá devolver à Justiça o papel simbólico que um dia já ocupou na sociedade.

Correio de Santa Maria– Redação/Vital Furtado

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