O nome parecido com o de um foragido de Mato Grosso tem feito um paulistano viver sob suspeita. Só nos últimos sete meses, ele foi conduzido quatro vezes à delegacia depois de ser identificado por câmeras do Smart Sampa, da Prefeitura de São Paulo, embora diferenças em idade, filiação e até na grafia do sobrenome indiquem que se trata de outra pessoa.
O caso foi noticiado pelo G1 e confirmado pela Folha de S.Paulo. O coordenador de departamento pessoal Ailton Alves de Sousa, 41, mora em Heliópolis, na zona sul, e afirma nunca ter ido ao Centro-Oeste. Ainda assim, acabou repetidamente abordado por policiais após o sistema de reconhecimento facial apontá-lo como suspeito de um homicídio ocorrido em Mato Grosso.
Procurado pela reportagem, o TJ-MT (Tribunal de Justiça de Mato Grosso) disse que a Corregedoria-Geral da Justiça do estado instaurou procedimento para apurar as circunstâncias do caso e verificar a origem da possível inconsistência. Também foram adotadas medidas para adequação das informações no banco de dados.
A SSP (Secretaria de Segurança de São Paulo) informou que o nome da pessoa citada não consta mais no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP) e os dados pessoais, incluindo fotografia, também foram removidos da base estadual.
A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU), disse que “não houve qualquer falha no funcionamento do programa Smart Sampa no caso mencionado”. A gestão municipal diz não ter havido prisão ou detenção, mas, sim, “condução para averiguação”.
“A secretaria esclarece que o programa municipal utiliza bases de dados oficiais da Justiça e de órgãos de segurança pública para o reconhecimento facial e confirmação de mandados de prisão expedidos e, portanto, não é responsável por eventuais inconsistências cadastrais”, acrescentou.
Segundo o advogado de defesa, Sandro Godoy, o cliente é vítima de um erro de identificação provocado pela similaridade no nome. “Ele foi confundido com um criminoso de Mato Grosso que tem o mesmo nome. A diferença é que o sobrenome do meu cliente é Sousa, com s, e o do foragido é Souza, com z”, afirma.
Desde que as abordagens passaram a se repetir, Ailton começou a fotografar e gravar vídeos das ações policiais como forma de se resguardar. Parte desses registros mostra o momento em que é parado e conduzido por agentes de segurança.
De acordo com o defensor, há ao menos três mandados de prisão contra o verdadeiro suspeito, expedidos nas cidades de Sorriso, Poxoréu e Guarantã do Norte. Em dois deles, já houve correção após o reconhecimento do erro, mas um ainda segue ativo.
“Mesmo com os dados corretos no mandado, quando se consulta o CPF do meu cliente no sistema, aparece a ordem de prisão em nome do criminoso. Isso não deveria acontecer”, diz Godoy.
O advogado afirma que o problema se agravou com a inclusão indevida dos dados biométricos de Ailton no sistema do Smart Sampa, que cruza imagens captadas por câmeras com bancos de dados policiais.
“O que está acontecendo é que a biometria dele foi associada ao cadastro do foragido. Então, toda vez que ele passa por uma câmera, o sistema acusa e a polícia faz a abordagem”, afirma.
A sequência de abordagens começou ainda em 2020, segundo a defesa, quando Ailton foi levado por policiais civis após ser confundido com o suspeito. Na ocasião, o erro foi reconhecido e ele foi liberado.
O caso, no entanto, voltou a se repetir nos últimos meses, detalhou o advogado. Em setembro de 2025, Ailton foi retirado de casa e conduzido à 26ª Delegacia de Polícia. Em outubro, foi novamente abordado em São Caetano do Sul e levado à mesma unidade.
Em março deste ano, enquanto trabalhava como freelancer em um evento de corrida no Parque Ibirapuera, foi detido mais uma vez e encaminhado à 27ª Delegacia. Dias depois, no dia 23, acabou abordado por guardas civis metropolitanos ao acompanhar a mãe, que é diabética, em um posto de saúde na Estrada das Lágrimas.
Godoy conta que, na mesma madrugada, policiais foram até a casa da família em busca do suspeito. “É uma situação de constrangimento constante. Ele é abordado no trabalho, em momentos de lazer e até em situações familiares delicadas”, afirma.
A defesa destaca que, além da diferença na grafia do sobrenome, há outros elementos que afastariam a identificação. Os dois homens têm datas de nascimento distintas, com diferença de 12 anos, além de nomes de pais e mães diferentes.
“Não há sequer imagem do verdadeiro suspeito nos mandados de prisão. Mesmo assim, meu cliente segue sendo tratado como foragido”, diz Godoy.
O advogado afirma que já procurou a administração do Smart Sampa para tentar corrigir o cadastro, mas foi informado de que o sistema apenas recebe dados de outras bases e não realiza alterações.
“Eles disseram que não podem fazer nada, que só repassam as informações para a polícia. Mas alguém inseriu esse dado errado e precisa corrigir”, afirma.
Godoy diz que se o problema persistir, Ailton segue sob risco de novas abordagens. “Ele vive com medo de sair de casa. Qualquer câmera pode gerar uma nova abordagem. É uma falha grave que precisa ser resolvida com urgência”, diz o advogado.







