O segundo episódio da segunda temporada do podcast ‘Perdas e Danos’ expõe as conexões da multinacional suíça Nestlé com a ditadura militar brasileira, destacando contribuições para entidades que apoiaram o golpe de 1964 e o aparato de repressão.
Registros do Arquivo Nacional mostram que o executivo Gualter Mano, então presidente da Nestlé no Brasil, realizou contribuições em nome da empresa ao IPES, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, um think tank conservador formado por empresários e militares que ajudou a preparar o terreno para o golpe de 1964.
A reportagem também liga a Nestlé à Operação Bandeirantes (OBAN), o principal aparato de tortura e morte do regime, conforme registrado na página 330 do Volume 2 do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. O documento menciona colaborações de multinacionais como Nestlé, General Electric, Mercedes-Benz, Siemens e Light em um banquete organizado pelo ministro Delfim Netto, onde foram doados 110 mil dólares para reforçar o caixa da OBAN.
Um elo central nessa rede é Oswaldo Ballarin, presidente da Nestlé no Brasil entre 1971 e 1978. Ballarin foi homenageado pelo general Ernani Ayrosa, chefe do Estado-Maior do II Exército, no final de 1970, pelo apoio à repressão. Além de sua posição na Nestlé, ele ocupava simultaneamente a presidência da Brown Boveri (atual ABB) entre 1971 e 1979, empresa envolvida em grandes obras como a Usina de Itaipu por meio do Consórcio Itaipu Eletromecânico (CIEM).
Pesquisadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, descobriu nos arquivos da Brown Boveri, na Suíça, que Ballarin contratou serviços da Consultores Industriais Associados (CIA), uma agência de relações públicas de fachada usada para vigilância de trabalhadores, perseguição de opositores e financiamento de aparatos de tortura. O diretor da CIA era Robert Lentz Plassing, conhecido como Samuca, integrante do DOI-Codi do Rio de Janeiro e listado no relatório da Comissão Nacional da Verdade como responsável por torturas e assassinatos.
Em 1979, o político suíço Jean Ziegler acusou Ballarin e a Brown Boveri de cumplicidade em homicídios premeditados, citando transferências regulares de fundos da empresa para a CIA entre 1963 e 1978. Ballarin, que morreu em 1999, alegou que sua relação com Plassing se limitava a atividades de relações públicas.
A Nestlé negou acesso aos seus arquivos à pesquisadora em três ocasiões. No período, a rentabilidade da empresa no Brasil dobrou de 1971 a 1975, superando o crescimento médio do PIB de 9% ao ano durante o milagre econômico, conforme dados do IBGE e levantamento de Antoinette Fredericq para o Centro Edelstein de Pesquisas Sociais.
Em 2024, a ONG suíça Public Eye revelou que produtos da Nestlé para crianças em países pobres são mais açucarados que os oferecidos em nações ricas, incluindo o Brasil.
Sobre as denúncias envolvendo o CIEM, a Itaipu Binacional informou que o projeto iniciou em 1975 durante a ditadura, com práticas autoritárias, mas atualmente promove direitos humanos. A ABB destacou sua política de tolerância zero a corrupção e compromisso com direitos humanos. A Nestlé reconheceu a importância do debate sobre o período, afirmando não compactuar com repressão ou violações de direitos, e reafirmando compromisso com democracia e liberdade de expressão. A empresa não respondeu sobre abrir seus arquivos após 60 anos.








