O convidado desta semana do JBr Entrevista é o presidente da Federação do Comércio do Distrito Federal (Fecomércio-DF), José Aparecido Costa Freire. Em 1988, fundou sua primeira papelaria na 704 Norte e, ao longo das décadas, presidiu associações até chegar ao posto máximo da Federação, cargo que ocupa desde 2021.
Presidente, como foi traçada sua trajetória no Distrito Federal?
Eu cheguei em Brasília em 1972, com 7 anos de idade. Como meu pai falou na época: “Vou levar vocês para Brasília para estudar”. Vim de Corumbá e trabalhei na feira de Brasília; não tenho nenhum problema em falar que fui vendedor de picolé, abacate e essas coisas todas. Sou empreendedor desde os 7 anos e sempre tive esse viés. Em 1988, comecei com a minha primeira papelaria. Depois montamos a ASPL, que era a Associação dos Papelistas, que virou o Sindipel. Fomos trabalhando na vida empresarial e, em 2021, fui eleito para um mandato tampão como presidente da Fecomércio. Fui reeleito em 2022 e agora teremos uma eleição próxima, para ser reeleito pela segunda vez.
Qual é a situação atual do comércio no DF?
Eu sempre vi o momento econômico como um pouco difícil, mas as pesquisas que o Instituto Fecomércio faz em relação às datas comemorativas têm mostrado uma realidade muito boa. A última foi a Páscoa, com números consolidados de vendas. Em 2025, o comércio do Distrito Federal cresceu 4,1% — acima da média nacional — e o setor de serviços cresceu 7%, também acima da média. Mas é um momento de muita turbulência, um momento complicado. Me sinto feliz em representar os empresários do DF, que acreditam na cidade e investem. Superaremos esse momento difícil trabalhando em prol da geração de emprego.
O senhor mencionou que o cenário é de turbulência. O que causa essa instabilidade, apesar dos números positivos?
Estamos com juros altos, a taxa Selic altíssima, e um momento político conturbado. Além disso, estamos em ano eleitoral, o que por si só torna o período difícil. A questão dos juros é preocupante, assim como o endividamento das famílias. No Distrito Federal, temos cerca de 80% das famílias endividadas, sendo que mais de 47% estão com dívidas atrasadas há mais de dois meses e 20% dizem não ter condições de pagar. E onde elas se endividaram tanto? Na facilidade do cartão de crédito. Recebemos ligações diárias oferecendo limites acima do rendimento que a pessoa tem. A pessoa parcela em 12 vezes e uma hora a bolha estoura. As famílias precisam de educação financeira e cuidado com essas armadilhas.
A Fecomércio tem investido fora da área central de Brasília. A que se deve essa política de fortalecimento das Regiões Administrativas?
Quando assumimos em 2021, havia uma centralização muito grande no Plano Piloto. Criamos, via Senac e em parceria com a Câmara Legislativa e a Secretaria de Educação, o técnico de ensino médio. O aluno da rede pública pode fazer o contraturno em um polo do Senac. Como um aluno que mora em Planaltina, Gama ou Santa Maria viria ao centro da cidade fazer um curso técnico? Estamos abrindo polos nessas cidades. Em Ceilândia, que é nossa maior cidade, temos uma unidade pequena; pretendemos adquirir uma nova unidade ainda este ano, três vezes maior. No Sesc, também estamos descentralizando. Os grandes shows eram todos no Plano Piloto. Em 2023, levamos Israel & Rodolffo para Planaltina; em 2024, levamos Bruno & Marrone para Brazlândia e Joelma para Ceilândia. Levamos shows gratuitos de nível nacional para quem talvez não tivesse condições de pagar.
Sobre a carga tributária, o que tem sido feito para convencer as bancadas no Congresso e na Câmara Legislativa a baixar esses impostos?
Sou contador de formação, então sei bem como as empresas sofrem. Tivemos a Reforma Tributária discutida por 20 anos. Foi a melhor reforma? Não, porque não existe reforma perfeita, mas ela será implementada a partir de 2026. Quando são leis locais, trabalhamos junto ao GDF; quando é nacional, trabalhamos com a CNC (Confederação Nacional do Comércio). O Brasil é um país complicado em termos tributários, é uma batalha diária. Superamos a fase difícil da pandemia com apoio do Executivo e Legislativo, e hoje as empresas do DF já conseguem “respirar sem aparelhos”.
Qual seria o crescimento ideal para o setor?
Quanto mais crescer, melhor. O setor de serviços teve algumas quedas no início de 2026 em função do período muito chuvoso, o que afeta a construção civil e o setor de eventos. Mas esperamos que, a partir de maio, com a passagem das chuvas, o turismo e os eventos voltem a crescer e gerar muito emprego.
Gostaria que comentasse o lado social e essa confusão que às vezes fazem sobre a verba do “Sistema S”.
O Sistema Fecomércio (Instituto Fecomércio, Sesc e Senac) é mantido por dinheiro privado. Os empresários pagam suas contribuições mensais. Não existe dinheiro público no Sesc, Senac, nem no Sesi ou Senai. O governo às vezes fica de olho nesses recursos porque as instituições são muito bem administradas. No Senac, em 2025, formamos quase 30 mil pessoas no DF. No Sesc, temos cultura, esporte, lazer e saúde. No dia 16 de maio, teremos o “Dia S”, com atendimentos gratuitos para a população em todo o Brasil. Também vale ressaltar que o Senac tem faculdades de graduação e pós-graduação com preços muito inferiores aos de mercado. É vital que o jovem tenha essa capacitação técnica e superior para conseguir melhores remunerações.
Qual é o principal gargalo de mão de obra hoje?
Temos 27 sindicatos filiados. Quando eles trazem a demanda, o Senac cria os cursos. O setor de gastronomia, por exemplo, cresceu muito e os profissionais já saem empregados. O certificado do Senac garante uma excelente colocação no mercado.
O Cartão Material Escolar, que foi uma iniciativa de vocês, virou lei. Como surgiu a ideia?
Começamos esse projeto no início dos anos 2000. Em 2011 conseguimos implementá-lo, mas ainda não era lei. No final de 2018, apresentamos o projeto ao governo eleito e, em 2019, virou a Lei 6.273. Hoje, o aluno recebe o cartão e compra o material em papelarias credenciadas que estão com os impostos em dia. Isso gera emprego e dignidade. Antigamente, o aluno recebia uma mochila timbrada com material de baixa qualidade; hoje, ele escolhe o que quer. E não inflacionou os preços; as papelarias dão até 15% de desconto para quem paga com o cartão.
Sobre a próxima eleição da Fecomércio, como o senhor conseguiu unificar o setor após as turbulências de 2021?
Assumi em um momento difícil, após o falecimento do presidente anterior por covid-19. Passei por momentos complicados e mentiras a meu respeito, mas em 2022 conseguimos uma chapa única através de muito diálogo. Agora, em 2026, teremos novamente chapa única na eleição de junho. Meu plano para os próximos quatro anos é concluir os projetos iniciados: abrir a unidade do Sesc no Núcleo Bandeirante, montar uma central de produção de alimentos, lançar o Centro Cultural da 511 Norte e construir a maior unidade do DF em Planaltina (60 mil metros quadrados). Também vamos reconstruir a unidade do Senac na 903 Sul, que é muito antiga, e transformá-la em algo moderno.
Qual legado o senhor deseja deixar para o Distrito Federal?
O legado de ter todas as unidades do Sesc e Senac próprias e modernizadas até o final de 2029. Recentemente, recebi o título de Cidadão Honorário de Brasília na Câmara Legislativa e foi uma das maiores lotações da história da casa. Isso me deixa grato porque mostra que as pessoas reconhecem o trabalho voltado para o coletivo. Eu procuro manter o meu jeito de ser; o poder não sobe à minha cabeça. Continuarei sendo o mesmo José Aparecido, o “Zezão” de sempre, independentemente do cargo que ocupo. Não existe governo de um lado, empresário de outro e imprensa de outro; estamos todos juntos para construir um Distrito Federal melhor.








