Terça-feira, 14/04/26

Críticas de Trump ao papa, o ponto culminante de meses de tensões

Críticas de Trump ao papa, o ponto culminante de meses de tensões
Críticas de Trump ao papa, o ponto culminante de meses – Reprodução

As críticas de Donald Trump ao papa Leão XIV, a quem tachou de “fraco” e “terrível”, representaram um ataque pessoal sem precedentes feito por um presidente americano contra um pontífice, culminando meses de tensões.

A eleição, em maio de 2025, do primeiro papa americano da história – uma personalidade que defendeu a causa do direito internacional e os migrantes – parecia destinada a provocar um enfrentamento, mas os dois líderes conseguiram gerir suas diferenças durante um tempo.

No entanto, desde janeiro, a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, as ameaças contra Cuba e a Groenlândia e, posteriormente, a guerra contra o Irã, levaram o Vaticano a emitir declarações de preocupação cada vez mais frequentes.

Na noite de domingo, Trump lançou um duro ataque contra o líder de 1,4 bilhão de católicos do mundo, qualificando-o de “FRACO em matéria de crime, e terrível para a política externa”. Na noite de segunda-feira, insistiu: “Está errado”.

“Costumam existir tensões entre a Igreja católica e os Estados em torno de diversas questões”, disse François Mabille, diretor do Observatório Geopolítico da Religião da França.

– “Precipitou a polêmica” –

Especialista em direito canônico, Leão XIV destacou em várias ocasiões a importância de se respeitar o direito internacional, o que incluiu criticar as ações de Israel em Gaza no ano passado.

No entanto, ele costuma se expressar em termos gerais, deixando as críticas mais diretas para o clero local.

Uma exceção foi quando atacou o tratamento “desumano” que os migrantes recebem em seu país de nascimento. A Casa Branca respondeu com um comentário comedido em defesa de suas políticas de imigração.

A retórica e os pedidos de paz do pontífice se intensificaram à medida que a guerra contra o Irã se estendia, e quando Trump ameaçou eliminar toda a civilização iraniana, no começo de abril. Então, Leão XIV disse à imprensa que isso era “inaceitável”.

O pontífice instou, então, “os cidadãos de todos os países implicados a fazer contato com as autoridades, os líderes políticos e os congressistas para pedir-lhes que trabalhem pela paz e rejeitem sempre a guerra”.

Para Massimo Faggioli, professor de eclesiologia histórica e contemporânea no Trinity College de Dublin, isto também representou um ponto de inflexão.

Segundo ele, Leão XIV violou uma norma diplomática de longa data: “que o papa se mantenha à margem da política americana”.

– Alienar os eleitores católicos –

Não é a primeira vez que um papa diverge dos Estados Unidos: João Paulo II, por exemplo, se opôs firmemente à invasão do Iraque, em 2003.

Apenas algumas semanas antes de morrer, em abril de 2025, o papa Francisco qualificou as deportações de migrantes realizadas pelo governo Trump como uma “grave crise”, que “começa mal e terminará mal”. O encarregado da política de deportações lhe respondeu que “se concentrasse na Igreja católica” e que deixasse o governo dos Estados Unidos “cuidar das fronteiras”.

Muitos dos críticos de Francisco o tacharam de antiamericano, o que não pode ser dito de Leão.

Tradicionalmente, os presidentes americanos são cautelosos para não incomodar os católicos americanos ao se pronunciarem muito contra um papa.

– Enfrentar a história –

Na semana passada, o Vaticano desqualificou as especulações sobre as tensões com Washington e desmentiu uma notícia, segundo a qual os Estados Unidos teriam repreendido o enviado da Santa Sé em janeiro, após comentários de Leão XIV considerados críticos.

Na segunda-feira, o papa respondeu o ataque de Trump com sua moderação habitual, afirmando que tinha o “dever moral” de se pronunciar contra a guerra.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, aliada de Trump, qualificou como “inaceitáveis” as críticas do presidente americano e considerou que “é justo e normal que [Leão] peça a paz”.

“Se você quer ser papa, tem que enfrentar a história, não pode se trancar em um mosteiro”, concordou Faggioli.

Mabille assinalou que, dada a frequência com que Trump muda de opinião, é muito possível que a polêmica passe sem consequências.

“Quem sabe, talvez o papa faça um discurso que agrade Trump, ou talvez este veja uma oportunidade para impulsionar sua agenda própria e diga a este papa como é extraordinário”, afirmou.

T LB

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