Quinta-feira, 16/04/26

Papa propaga mensagem de paz em visita a zona de conflito em Camarões

Papa propaga mensagem de paz em visita a zona de conflito em Camarões
Papa propaga mensagem de paz em visita a zona de – Reprodução

O papa Leão XIV denunciou “um ciclo interminável de desestabilização e morte” durante uma visita a Bamenda, centro da violência na região anglófona de Camarões que já deixou milhares de mortos em quase uma década, a etapa mais simbólica de sua viagem ao país.

Após dois dias na Argélia, em uma visita marcada por dois atentados suicidas e uma disputa com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o pontífice viajou para a zona de conflito na qual separatistas anglófonos enfrentam o exército de Camarões desde 2016.

“Aqueles que roubam os recursos de sua terra geralmente investem grande parte do lucro em armas, perpetuando assim um ciclo interminável de desestabilização e morte”, declarou Leão XIV durante um discurso na catedral de Bamenda.

A viagem, a quarta de um papa a Camarões, ocorre seis meses após as autoridades terem reprimido com violência os protestos contra a reeleição do presidente Paul Biya, de 93 anos, que dirige o país com mão de ferro desde 1982.

Na quarta-feira, o pontífice fez um apelo para que se “quebrem as correntes da corrupção”, para o respeito dos direitos humanos e do Estado de direito, e também pediu o fim do conflito separatista.

Em Bamenda, muitos aguardavam com ansiedade a missa do papa diante de 20.000 fiéis, na esperança de que ofereça uma saída à violência nesta região.

“Levamos em nossos corações a paz para este país que sofre e queremos ser uma presença de oração. Como ele mesmo disse, é a oração que pode mudar o mundo”, declarou a irmã Maria Imaculada, de 46 anos, no aeroporto de Bamenda, na manhã desta quinta-feira.

“Bom começo”

A segurança foi reforçada nas grandes avenidas da cidade, muitas das quais foram tomadas por habitantes concentrados na estrada que leva ao aeroporto para receber o sumo pontífice, com bandeiras do Vaticano e faixas com mensagens de boas-vindas e a favor da paz.

O conflito anglófono estourou em 2016, depois que protestos contra a maioria francófona foram reprimidos pelas autoridades.

A repressão provocou um confronto entre o exército e os insurgentes anglófonos que, segundo grupos de direitos humanos, deixou mais de 6.000 mortos até 2024.

Os separatistas declararam a República de Ambazônia nas duas regiões anglófonas, onde vive 20% da população camaronesa.

Na segunda-feira, grupos separatistas anunciaram uma trégua de três dias nas duas regiões por ocasião da visita do pontífice.

“É um bom começo que as armas sejam depostas para que não sejam novamente empunhadas”, considerou, por sua vez, o bispo de Ebolowa e vice-presidente da Conferência Episcopal de Camarões, Alain Alain Philippe Mbarga, nesta quinta-feira.

Diálogo

“É a primeira vez desde o início do conflito que todos falam o mesmo idioma: todos desejam as boas-vindas ao Santo Padre”, declarou Andrew Fuanya Nkea, arcebispo de Bamenda e presidente da Conferência Episcopal de Camarões.

No país, a Igreja desempenha um papel de mediação e gere uma extensa rede de hospitais, escolas e obras de caridade; meios de influência que a Santa Sé pretende consolidar.

“Falamos com as duas partes e achamos que é o momento de agirem e de ter esse diálogo”, declarou o arcebispo, próximo de Leão XIV.

Mas antes de abordar a paz ou a reconciliação, “é preciso resolver as causas do conflito: a descolonização inacabada de Camarões Ocidental, a marginalização, a erradicação identitária e as tentativas de assimilação”, sustentou Joseph Awah Fru, advogado de dez líderes separatistas detidos em Iaundé desde 2019.

Depois de sua viagem a Bamenda, Leão XIV celebrará na sexta-feira uma missa para centenas de milhares de pessoas em um estádio na capital econômica, Duala.

O pontífice continuará sua viagem pelo continente africano em Angola e na Guiné Equatorial até 23 de abril.

T LB

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