Sexta-feira, 17/04/26

Julgamento da Chacina do DF entra na fase final em Planaltina

Julgamento da Chacina do DF entra na fase final em Planaltina
Julgamento da Chacina do DF entra na fase final em – Reprodução

Acusados de cometer os assassinatos que resultaram na morte de dez pessoas da mesma família, os réus Carloman dos Santos Nogueira e Carlos Henrique Alves da Silva foram interrogados nesta quinta-feira. No dia anterior, Gideon Batista de Menezes e Fabrício Silva Canhedo foram interrogados, enquanto Horácio Carlos Ferreira Barbosa optou pelo silêncio. No mesmo dia, foi iniciada a fase de debates. O julgamento do caso que chocou a população e ficou conhecido como “Chacina do DF” está sendo realizado no Fórum de Planaltina, com as sessões previstas para acontecer até o fim de semana.

Promotor Nathan da Silva Neto na sustentação oral da acusação

O quinteto é acusado de cometer diversos crimes, entre eles: homicídio qualificado, latrocínio, ocultação de cadáver, extorsão mediante sequestro, associação criminosa qualificada e corrupção de menores. De acordo com o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), caso condenados, eles podem cumprir penas que podem variar entre 211 a 385 anos de prisão no total, conforme o Código de Processo Penal.

Todos os dias de julgamento, os réus foram transferidos para o tribunal sob escolta da Polícia Penal. Apesar de estarem lado a lado, os cinco não podem se comunicar durante a sessão.

O caso ocorreu há três anos, quando Marcos Antônio Lopes de Oliveira, 54 anos (patriarca); Renata Juliene Belchior, 52 (esposa de Marcos); Gabriela Belchior de Oliveira, 25 (filha do casal); Thiago Gabriel Belchior de Oliveira (filho do casal); Elizamar da Silva (esposa de Thiago); Rafael, 6 anos, Rafaela, 6, e Gabriel, 7 (filhos de Thiago e Elizamar); Cláudia Regina Marques (ex-mulher de Marcos), 39; e Ana Beatriz Marques de Oliveira (filha de Marcos e Cláudia), foram assassinados em uma série de crimes motivados por ganância financeira.

No interrogatório, Carloman revelou que atirou em Marcos acidentalmente e que a vítima foi levada morta para o cativeiro. O réu detalhou como foi a execução das vítimas e ainda descreveu a dinâmica interna do grupo. O réu indicou que Gideon e Horácio foram os responsáveis diretos pelos enforcamentos de Renata e Gabriela. 

Promotor Nathan da Silva Neto na sustentação oral da acusação

Ele descreveu que o enforcamento das duas foi realizado dentro de um veículo. De acordo com Carloman, após os assassinatos, Gideon teria se ferido gravemente ao tentar incendiar o carro com as vítimas, algo que para Carloman foi descrito como o que impossibilitou que ele fosse assassinado também. “Tenho para mim que se o Gideon não se queima nesse momento, eu ia ser morto”, afirmou. O acusado acredita que os articuladores principais – Gideon e Horácio – planejavam eliminar os próprios comparsas após a conclusão dos crimes.

Segundo Carloman, Horácio foi responsável direto pela morte de Thiago. O réu destacou ainda que presenciou o momento em que Thiago é assassinado com uma corda e que depois, Horácio utilizou uma faca para matar Ana Beatriz e Claudia. “Ele passa a faca no pescoço delas e joga para dentro da fossa, e o Thiago já estava morto, ele leva o corpo para lá junto.” Carloman também mencionou que usou cal sobre os cadáveres das duas mulheres e de Thiago na cisterna para tentar camuflar o odor da decomposição. Em juízo, Carloman contou que à ele foram prometidos $ 500 mil.

Depoimento de Carlos Henrique

O último interrogado foi Carlos Henrique Alves da Silva que negou ter conhecimento de que estava participando de uma chacina. Em juízo, ele afirmou que sua parte nos crimes se restringiu a um suposto assalto planejado para ocorrer no Condomínio Entre Lagos. O plano foi elaborado após o mesmo receber uma proposta financeira de Carloman para ajudar a render uma vítima e obter acesso a aplicativos bancários. “Realmente eu cometi um crime, mas eu cometi um crime de roubo, porque eles me falaram que esse assalto era para a gente render um rapaz e pegar o celular dele para ter acesso aos aplicativos para transferir dinheiro.”

Durante o depoimento, Carlos Henrique descreveu a dinâmica da abordagem feita à vítima que se tratava de Thiago, na chácara. O réu detalhou que o grupo se escondeu em um ônibus velho para surpreender a vítima. Segundo o acusado, na ocasião, um dos outros réus, Horácio, se passou por uma vítima do assalto para facilitar a imobilização de Thiago, que foi rendido e amarrado com fitas plásticas. “Eu meti a mão no bolso do Thiago, peguei o celular dele e o cartão, entreguei para o Horácio e já pedi para ele me tirar de lá.” Ele acreditava que depois disso, os outros comparsas iriam soltar Thiago. 

Nova fase do julgamento

Na sequência dos últimos depoimentos dos réus prestados na quinta-feira, foi dada continuidade ao julgamento com o início da fase de debates do júri popular. A acusação foi a primeira a se manifestar, com promotores e assistentes de acusação realizando a sustentação oral. Tanto a acusação quanto a defesa têm três horas cada para apresentar seus argumentos.

O primeiro a falar foi o assistente de acusação, João Darc. Para a acusação, todos os participantes do crime desempenharam funções muito claras para que os jurados julguem cada um individualmente. O advogado afirmou que, em toda a sua trajetória — tanto na carreira policial quanto na acusação criminal —, nunca presenciou um crime de tamanha monstruosidade. Durante seu discurso, João foi interrompido pela defesa por se referir aos acusados como “reencarnação de Lúcifer”. 

O promotor de Justiça titular da Promotoria do Tribunal do Júri de Planaltina, Nathan da Silva Neto, afirmou aos jurados que o caso se trata de uma ação organizada meses antes e friamente calculada. “Estamos diante de uma monstruosidade. Uma ação planejada nos mínimos detalhes, com destinação do local, recursos, veículos e pessoas.” Em sua sustentação, ele considerou que a gravidade do crime supera a definição comum. “Esse caso transborda o conceito técnico de chacina. Os estudiosos chamam de familicídio — o assassinato e a eliminação de uma família inteira”, destacou.

Durante sua sustentação, o promotor exibiu documentos com imagens dos crimes e utilizou slides para individualizar a conduta de cada réu, reforçando que esses pontos não podem ser esquecidos na hora do julgamento. Ao destacar as provas, ele apontou Gideon como o líder que esquematizou toda a estrutura criminosa. 

Uma das provas foram registros de mensagens trocadas entre Gideon e Carloman para ir contra os depoimentos dos acusados que alegavam terem sido obrigados a cometer os crimes. Em uma das conversas, no dia 13 de janeiro, Carloman escreveu: “Eu trouxe fogo”. Para o Ministério Público, o teor das mensagens rebate o argumento dos réus de que teriam sido obrigados a participar. “Isso não é conversa de quem está debaixo de coação. Temos que julgar os fatos”, rebateu.

Sobre Horácio, Nathan destacou que sua atuação foi vital e estratégica, chegando ao ponto de se passar por vítima para enganar a família. Horácio era o braço direito de Gideon em um plano cujo objetivo final era o extermínio da família. Nathan inclusive salienta que Horácio deixou de prestar depoimento em júri: “Ele se anula fielmente para seguir as ordens de Gideon”, acrescentou. 

O promotor Daniel Bernoulli Lucena de Oliveira, em sua fala, afirmou que, nesse julgamento, estão sendo julgados menos crimes do que deveriam estar em análise. Considerou, ainda, que os crimes bárbaros foram cometidos por uma motivação financeira acerca da chácara que nem sequer pertencia a Marcos. “Essa turma toda morreu por 2 milhões de reais das terras que iam ser divididas entre quatro.”

Destacou, também, que não faz diferença Carloman alegar ter atirado em Marcos acidentalmente. “A partir do momento que a pessoa se envolve com essa situação, ela passa a responder por isso.”

O promotor Marcelo Leite Borges encerrou a sustentação oral da acusação no quinto dia do julgamento. Para o promotor, as versões apresentadas pelos acusados em depoimento são contraditórias e ele também não acreditou no pranto dde alguns dos réus nos depoimentos prestados tanto na época da investigação, quanto agora. “Pode chorar na cadeia porque o luto são dessas pessoas aqui.” Ele se referiu a uma suposta fala de Gideon, sobre o maior prazer da vida dele ter sido ver alguém implorar pela vida: “Não há prazer maior do que botar Gideon na cadeia para o resto da vida e todos os seus comparsas.”

Para a imprensa após os debates, Marcelo disse considerar o depoimento de Gideon como um “completo absurdo”.  Ele reafirmou sua fala para os jurados de que Gideon se acha inteligente, mas não conseguia responder as perguntas feitas pela promotoria. O promotor ressaltou que a resistência do réu em admitir a verdade, mesmo diante de evidências claras, apenas reforça a perversidade do crime cometido contra a família. “O depoimento dele só demonstra a falta de caráter, a maldade, e fez muito mal à família, então eu achei no mínimo deplorável”, finalizou. 

Quinto dia do julgamento

Nesta sexta-feira, a defesa fará sua sustentação oral. Por fim, o julgamento seguirá para a votação dos jurados em sala secreta e, na sequência, o juiz fará a leitura da sentença.

T LB

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