Domingo, 19/04/26

Investigação liga desaparecimentos na Rota dos Milagres (AL) a chefes do CV abrigados no Alemão

Investigação liga desaparecimentos na Rota dos Milagres (AL) a chefes do CV abrigados no Alemão
Investigação liga desaparecimentos na Rota dos Milagres (AL) a chefes – Reprodução

Os desaparecimentos e mortes na Rota Ecológica dos Milagres, formada pelas cidades turísticas de São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, no litoral de Alagoas, têm ligação com criminosos que buscaram abrigo fora do estado, conforme investigações da Secretaria de Segurança Pública alagoana.

Nos últimos dois anos, como mostrou a reportagem, 14 pessoas desapareceram, período em que sete outros corpos foram encontrados.

A maior parte dos desaparecimentos, segundo a polícia, tem relação com o CV (Comando Vermelho), que predomina no tráfico de drogas na região. A hipótese de envolvimento do PCC (Primeiro Comando da Capital) também é considerada em casos de possíveis execuções, dentro da dinâmica de disputa entre facções.

A polícia acredita que José Emerson da Silva, 41, o Nem Catenga, esteja no Complexo do Alemão, reduto do CV na zona norte do Rio de Janeiro. Nem é apontado como o principal líder da facção em Alagoas. Contra ele, há cinco mandados de prisão em aberto. A reportagem não identificou quem realiza atualmente a defesa dele nos processos.

Nem tem como subordinado, segundo a polícia, Kleber Santos da Silva, 32, conhecido como Kebinho, do grupo Tropa do Kebinho, que também estaria foragido na capital fluminense. A tropa é um braço do CV atuando em Alagoas. A reportagem não identificou quem representa Kleber na Justiça.

“Nem Catenga e Kebinho, que estão no Complexo do Alemão, mandam ordens para os criminosos que são ligados à facção, em específico na Rota dos Milagres, e fazem o julgamento do tribunal do crime”, disse à reportagem o secretário-executivo de Políticas de Segurança Pública, coronel Patrick Madeiro.

“Em maioria, ou quase totalidade, os desaparecimentos têm vinculação direta com o Comando Vermelho, que tem essa modalidade de desaparecer com desafetos”, acrescentou.

A reportagem falou com um grupo de cinco mães que refutam a tese de ligação das vítimas desaparecidas com o crime organizado. Algumas reconhecem o consumo de drogas por parte dos filhos, mas ressaltam que eram trabalhadores. As mães cobram apoio e resposta para os desaparecimentos.

O Complexo do Alemão se tornou um centro de decisão para vários estados em que a facção atua, inclusive abrigando líderes que vêm de fora em busca de proteção.

Na Operação Contenção, de outubro do ano passado, 30 dos cem mandados de prisão eram oriundos de investigações da Polícia Civil do Pará, outro estado com forte atuação do CV. A ação policial no Complexo da Penha e do Alemão deixou 122 mortos.

A investigação alagoana diz ter identificado os dois responsáveis por passar adiante e executar as ordens na Rota dos Milagres. Um terceiro suspeito estaria ligado aos sepultamentos clandestinos. A polícia diz que o CV tem mais faccionados do que o PCC na área, embora não revele quantos são.

Questionada pela reportagem, a Polícia Civil do Rio diz ter foco na identificação e captura de “narcotraficantes ligados a facções criminosas oriundos de outros estados, que tentam se esconder ou expandir suas atividades no território fluminense”. A corporação disse monitorar deslocamentos e redes de apoio.

“Essa atuação tem como objetivo não apenas retirar esses indivíduos de circulação, mas também enfraquecer a estrutura logística e financeira das organizações criminosas, impedindo seu avanço territorial e a consolidação de novas bases de operação no estado”, afirmou a polícia fluminense, acrescentando que mais de 500 criminosos nessas condições já foram capturados.

CONFRONTOS SE INTENSIFICAM NA REGIÃO

Em 2024, um fuzil calibre 5.56 com três carregadores foi apreendido em Maceió. O armamento foi encontrado dentro de uma máquina de lavar e teria sido despachado do Rio por Nem para ser entregue a integrantes da facção na região.

Os confrontos com a polícia têm ficado mais frequentes. As mortes cometidas por policiais em serviço chegaram a quatro neste ano, até abril. Em todo o ano passado, cinco ocorrências dessa natureza tinham sido registradas. Em 2024, não houve registro de letalidade policial nas cidades da área.

No ano passado, a morte pela polícia do traficante Cícero Batista dos Santos da Silva, 33, conhecido como Coroa Tito, apontado como um dos líderes do CV na região, parecia um indicativo de que os desaparecimentos deixariam de ocorrer, na expectativa dos investigadores.

Ele foi morto com o seu segurança, identificado como Peluxo, e ambos foram descritos como homens perigosos, responsáveis por homicídios e suspeitos de desaparecimentos, sendo os crimes marcados por extrema violência, com casos de decapitação e ocultação de cadáveres, conforme as investigações.

As apurações também apontavam que a ação da polícia teria fragilizado o núcleo do CV em Milagres. No entanto, de junho de 2025 até abril de 2026, dez pessoas desapareceram e novos nomes surgiram no tráfico da região.

À época, o diretor da Dracco (Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), Igor Diego, informou à reportagem que Coroa Tito respondia a Nem Catenga. Essa informação foi ratificada pelo coronel Patrick Madeiro.

Na terça-feira (14), João Vinicius Santos Nunes, conhecido pelo apelido de Detona e apontado como membro da Tropa do Kebinho, foi morto após confronto com a polícia. Ele era suspeito de participação em homicídios, sequestros, desaparecimentos e ocultação de cadáver.

Nas redes sociais, o governador Paulo Dantas (MDB) celebrou a morte do traficante como uma resposta da Polícia Militar contra o crime organizado.

Na manhã de quinta (16), houve nova operação, com a morte de dois homens que teriam reagido à abordagem policial. Eles foram vinculados ao Comando Vermelho.

Segundo a SSP, houve um aumento no efetivo policial para fazer o enfrentamento. Esse efetivo seria qualificado e treinado pelo Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e Rotam ( Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas), disponível 24 horas na Rota Ecológica dos Milagres.

“A resposta que o Estado vai dar é operação qualificada, policiamento extensivo e preventivo com reforço policial naquela região e atividade de inteligência com inquérito policial e representação do Poder Judiciário de forma mais qualitativa”, disse o coronel.

T LB

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