Quarta-feira, 22/04/26

Ditadura transfere escola pública em Foz do Iguaçu para rede privada de Itaipu

Ditadura transfere escola pública em Foz do Iguaçu para rede privada de Itaipu
Ditadura transfere escola pública em Foz do Iguaçu para rede – Reprodução

Em 1976, durante a ditadura militar brasileira, o prédio da Escola Politécnica de Foz do Iguaçu, construído com verba pública para reduzir o déficit escolar local, foi entregue à iniciativa privada dias antes de sua inauguração. O beneficiário foi o Colégio Anglo-Americano, contratado pela Itaipu Binacional para atender os filhos dos funcionários da hidrelétrica. Na época, o município tinha cerca de 3 mil pessoas em idade escolar sem acesso às salas de aula.

O professor aposentado José Kuiava, então inspetor de ensino, recebeu ordem de Curitiba para entregar as chaves do prédio ao dono do colégio, Ney Suassuna. Isso gerou constrangimento, pois a inauguração já havia sido anunciada para alunos da região, que precisou ser suspensa. O contrato, assinado em fevereiro de 1976 entre o Anglo-Americano, a Itaipu e o consórcio Unicon de empreiteiras, previa o pagamento de pelo menos 1.000 vagas com recursos públicos. No primeiro ano, o colégio matriculou mais de 10 mil alunos, chegando a 14 mil no auge das obras.

O acordo fixava mensalidades entre CR$ 300 e CR$ 500, com reajustes anuais, pagas pela Itaipu, eliminando riscos de inadimplência para a escola. A professora Denise Sbardelotto, da Unioeste, avaliou o contrato como desvantajoso para o poder público, pois a Itaipu e a Unicon forneceram toda a infraestrutura, incluindo prédios, mobiliário e material pedagógico, permitindo lucros prolongados para o Anglo-Americano.

Antes do contrato, o colégio tinha duas unidades no Rio de Janeiro com 500 alunos. Após Itaipu, registrou crescimento de 2.800%, expandindo para outras estatais como Tucuruí e Petrobras, e criando faculdades em vários estados. Ney Suassuna, ex-assessor no Ministério do Planejamento durante a ditadura, obteve o contrato por contatos políticos, sem evidências de processo licitatório público, segundo pesquisas de Sbardelotto.

A estrutura educacional reproduzia desigualdades sociais. Havia duas unidades: uma bem equipada na Vila A e B, para funcionários de melhor remuneração, com biblioteca, laboratórios e auditório; e outra precária na Vila C, para trabalhadores braçais, feita de madeira pré-fabricada, sem segundo grau obrigatório. Alunos da Vila C eram chamados de ‘chuta-barros’ devido à lama em seus calçados, e recebiam educação limitada, direcionada a cursos profissionalizantes.

O inchaço populacional causado pela construção de Itaipu agravou o déficit educacional em Foz do Iguaçu. A população quadruplicou de 34 mil em 1970 para 136 mil em 1980, e cerca de 95 escolas foram inundadas pela usina, afetando 40 mil pessoas no lado brasileiro. A rede pública reduziu a carga horária para um terceiro turno. Itaipu indenizou algumas escolas e investiu em projetos pontuais, mas em escala inferior ao direcionado ao Anglo-Americano, segundo Sbardelotto.

Em nota, a Itaipu Binacional afirmou que a chegada de trabalhadores exigiu infraestrutura como moradias, hospital e o colégio, oferecendo educação integral gratuita e inovadora, com atividades artísticas e culturais. A empresa destacou ações contínuas, como o apoio à criação da Unila em 2010. Ney Suassuna defendeu a escolha, alegando falta de capacidade do poder público para estruturar a educação na época. O Anglo-Americano em Foz não retornou aos contatos.

T LB

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