GUILHERME BOTACINI
FOLHAPRESS
O rei Charles 3º, do Reino Unido, e a rainha Camilla prestaram nesta quarta-feira (29) homenagens às vítimas do atentado às Torres Gêmeas em 2001, no memorial em Nova York do ataque, que completa 25 anos em setembro deste ano. O evento foi também oportunidade para um breve encontro entre o monarca e o prefeito socialista da cidade, Zohran Mamdani.
O encontro, apesar de não ter previsão oficial na agenda do rei e de ter durado cerca de um minuto, não era de todo irrelevante. O prefeito tem crescido dentro do Partido Democrata como força política mais à esquerda da legenda e em franca oposição ao presidente Donald Trump, que recebeu Charles na segunda-feira e é grande admirador da realeza britânica -muito embora Mamdani tenha operado essa oposição com pragmatismo desde que foi eleito, por exemplo visitando o republicano na Casa Branca, onde foi elogiado.
Além disso, Mamdani não esconde certo desdém pela realeza britânica, algo que vem de sua formação política e intelectual, em particular de seu pai, o antropólogo indiano Mahmood Mamdani, teórico e grande crítico do colonialismo.
Em entrevista coletiva nesta quarta antes do evento, por exemplo, Mamdani foi perguntado sobre o que conversaria com Charles se tivesse tempo e sua resposta foi carregada de críticas. “Provavelmente encorajaria ele a devolver o diamante de Koh-i-noor”, respondeu o prefeito, em referência a uma das pedras preciosas mais famosas do mundo, com registros históricos de séculos no subcontinente indiano e hoje de posse da realeza britânica.
Na cerimônica em Nova York, o monarca e a rainha depositaram flores ao lado do espelho d’água do memorial, cumprimentaram policiais e conversaram com familiares de vítimas do atentado. Depois, deixaram o evento para outros compromissos na cidade.
Esta é também a primeira vez que um monarca britânico visita o local desde o atentado que matou mais de 60 nacionais do Reino Unido, e, como é costumeiro com a monarquia, carrega uma simbologia que ultrapassa o mero protocolo.
Embora sem um discurso público de Charles, a presença inédita do chefe de Estado britânico é um lembrete ao chefe de Estado americano sobre o “relacionamento especial” entre Estados Unidos e Reino Unido e o fato de Londres haver apoiado Washington quando evocado o artigo 5º da Otan para combate ao terrorismo.
Donald Trump e a aliança militar ocidental vivem momentos de atrito por críticas do republicano à ausência de aliados na atual guerra no Irã, inclusive com críticas de alguns de seus membros, como a Espanha, que proibiu o uso de suas bases militares pelos EUA para o conflito.
O governo do trabalhista Keir Starmer no Reino Unido tem sido mais comedido ao se opor à guerra, mas tampouco tem bloqueado o uso de bases britânicas pelos americanos, ainda que com restrições. Starmer é mais vocal apenas ao manifestar preocupação com os impactos econômicos globais do conflito.
Trump pressiona o aliado por mais envolvimento e critica abertamente Londres. “Quando precisamos deles, não estavam lá, e ainda não estão”, afirmou Trump durante entrevista em abril na qual disse que a relação entre os países já havia sido melhor.
Ele também ameaçou rever o acordo comercial com o Reino Unido após seu tarifaço, e o governo americano discute rever sua posição favorável à soberania britânica nas ilhas Malvinas, uma disputa centenária com a Argentina -atualmente muito próxima da Casa Branca com Javier Milei na Casa Rosada.
Charles visitou o memorial em Nova York depois de haver discursado no Congresso americano nesta terça-feira (28), quando também se reuniu com Trump e participou de um jantar de Estado na Casa Branca. Ele chegou ao país na segunda-feira (27).








