Por Vítor Ventura
A produção de baunilha no cerrado tem ganhado força na região do Centro-Oeste. A cultura vem crescendo, sobretudo em Cocalzinho de Goiás. Foi justamente nesse município que aconteceu o evento “Produção de Baunilha do Cerrado” na última quarta-feira (29), realizado pelo Sindicato Rural de Cocalzinho em parceria com a Cooperativa Agropecuária da Serra dos Pirineus (COOASPI). O encontro reuniu 31 participantes com o objetivo de mostrar a produção da especiaria na região, conhecer a realidade do cultivo, os avanços e também os desafios.
O evento aconteceu em duas etapas, uma teórica e a outra prática. O professor e doutor em produção vegetal pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Saulo Araújo, contou ao Jornal de Brasília os detalhes do encontro e também da produção da baunilha no cerrado. “Na primeira etapa, na parte da manhã, nós fizemos uma palestra onde a gente falou sobre a planta, sobre o cultivo e também sobre a comercialização dos frutos da baunilha. No período da tarde, a gente fez uma visitação num produtor que já está tendo frutos, está no início da pré-colheita”, disse Saulo.
Os participantes puderam visualizar na prática o plantio, o manejo e a produção de baunilhas cultivadas no Cerrado. “[A produção] tem algumas peculiaridades e também dificuldades em relação ao cultivo. A gente tem duas estações bem definidas, o que requer um um cuidado maior na época da chuva com excesso de umidade, principalmente dos solos. Na época da seca também a gente tem que ter um cuidado com a irrigação, porque a baunilha é uma planta de clima tropical”, pontuou o professor.
Saulo explicou que para conseguir um fruto de baunilha, é necessário ser feita uma polinização manual, flor a flor. “Então uma flor significa um fruto. Cada flor polinizada, eu tenho um fruto que depois de curado vai gerar o que a gente chama de uma fava de baunilha. Essa fava é o fruto já curado, pronto para consumo”, destacou. Segundo ele, um dos avanços percebidos na produção no cerrado foi o tempo que a planta leva para florescer. “Geralmente as plantas de baunilha têm o florescimento com três a quatro anos, e aqui a gente conseguiu isso com dois anos”.
Saiba mais
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a baunilha é uma das especiarias mais apreciadas e valorizadas no mundo. Ela contém cerca de 300 compostos químicos, responsáveis por um aroma único, e é utilizada principalmente nas indústrias alimentícia e de cosméticos. A baunilha é uma planta da família das orquídeas trepadeiras cujos frutos aromáticos possuem um alto valor comercial. Segundo a empresa pública, existe uma grande demanda por produtos de baunilha de origem natural nos mercados nacional e internacional. Com isso, as espécies nativas do Brasil podem contribuir por causa do potencial aromático distinto e da variabilidade encontrada em diversas condições ambientais no país.
Conforme aponta a Embrapa, estudos das características específicas das espécies nativas e a melhoria dos processos de produção podem favorecer o incremento da oferta de baunilha brasileira no mercado, algo que pode possibilitae a ampliação de fontes de renda de comunidades locais, que é uma potencial alternativa para a agricultura familiar.
Oportunidade para pequenos produtores
Sirlei de Paula é produtora de baunilha e foi uma das que percebeu o potencial desse cultivo no cerrado, em Cocalzinho de Goiás. “A baunilha é bem adequada à agricultura familiar. Ela tem muito um trabalho bem artesanal, então a gente achou uma ótima ideia e começamos [a produzir] no final de 2022. O Saulo estava aqui e também tinha interesse em trabalhar nisso. Então nós procuramos a Embrapa e com pesquisadores de Brasília fizemos visitações técnicas e iniciamos esse trabalho”, contou.
Depois de quase quatro anos nesse ramo, Sirlei e outros produtores de baunilha já traçam caminhos para expandir ainda mais a atividade. “A gente sempre se pergunta: ‘estamos aumentando a produção aqui, como é que vamos vender?’ Nós já montamos uma cooperativa chamada COOASPI principalmente para ajudar os produtores dos municípios vizinhos. É um cultivo até então novo, mas que tem um altíssimo valor agregado e é excelente para pequenas propriedades.”, comentou a produtora.
De acordo com Sirlei, o evento que reuniu produtores foi excelente para animar ainda mais as pessoas para o cultivo da planta. “Foi muito bom, as pessoas ficaram muito empolgadas. Teve uma palestra técnica explicando a questão de custo-benefício, quais são as expectativas de mercado, quanto se gasta para fazer o cultivo, o que é necessário e o trabalho que se tem. Essas são basicamente as dúvidas de um produtor quando ele vai entrar numa atividade nova”.
O professor Saulo pontuou que com três anos e meio de cultivo, já puderam ser vistos diversos avanços na produção. “Nós começamos com 8 produtores, hoje nós estamos com 22 e a intenção é expandir”, disse. Segundo Sirlei, “o nosso objetivo é transformar Goiás para sermos uma referência de produção de baunilha no mundo”. Com essa mobilização, outras regiões do estado também já mostram interesse no cultivo da planta, conforme destacou Saulo: “Pirenópolis, Corumbá, Padre Bernardo, Abadiânia. A gente já tem alguns produtores iniciando os cultivos nessas regiões depois que verificaram que é possível cultivar aqui no cerrado”.








