ISABELLA MENON
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
Durante a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a sinalizar que Cuba pode ser o próximo alvo de sua política externa agressiva.
“Cuba é a próxima”, afirmou o republicano em março. E, embora tenha pedido que repórteres ignorassem a declaração, a repetiu logo em seguida. Ele não especificou o que planeja fazer com a ilha. De lá para cá, as ameaças continuaram e, no dia 1º de maio, Washington ampliou as sanções contra o regime.
As novas medidas visam pessoas e entidades que apoiam o aparato de segurança do regime cubano ou que seriam cúmplices de corrupção ou de graves violações dos direitos humanos.
Trump já chegou a afirmar que seria uma “honra tomar Cuba”. O país, que enfrenta há décadas um embargo americano e, nos últimos meses, passou a sofrer restrições ainda mais severas, reagiu com preocupação. Sem entrar em detalhes, o regime afirmou que se prepara para o pior cenário.
Para Ricardo Zúniga, ex-integrante do Conselho de Segurança Nacional no governo de Barack Obama (2009-2017), a ideia de uma intervenção militar americana não se sustenta sob nenhuma análise.
“Isso não faz sentido. Cuba é um país muito nacionalista e nem governo nem oposição desejam uma ocupação americana. Também não há interesse real da sociedade dos EUA nisso. Essa ideia é isolada e equivocada”, afirma ele, que manteve negociações secretas com o regime cubano quando atuava na gestão do democrata. “[Uma ação militar contra Cuba] seria um erro histórico.”
Zúniga questiona a própria necessidade de endurecimento das sanções. “Já enfraqueceram bastante Cuba. Transformar o país em algo próximo ao Haiti não faz sentido, ainda mais sendo um vizinho tão próximo [dos EUA].”
Localizada a cerca de 150 km da Flórida, Cuba atravessa sua pior crise humanitária em décadas. Apagões frequentes assolam a população –consequência de uma infraestrutura envelhecida.
A crise é agravada pelo veto ao comércio de petróleo com a ilha, imposto por Trump depois da captura do então ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro. Cuba tem convivido com apagões de até 20 horas diárias, hotéis fechados, voos cancelados e suspensão de coleta de lixo e serviços básicos.
Segundo Zúniga, o modelo econômico do país “fracassou completamente”, algo reconhecido até por aliados do regime cubano. “Não há perspectiva de futuro dentro desse modelo. Ao mesmo tempo, as sanções dos EUA agravam o cenário, pois têm justamente o objetivo de prejudicar a economia. A combinação desses dois fatores levou cerca de 90% da população à pobreza extrema”, diz o ex-conselheiro, que classifica o cenário de terrível.
Entre especialistas, há a avaliação de que qualquer ação militar poderia ter um efeito contrário ao desejado: em vez de estabilizar, provocaria uma nova onda migratória em direção aos EUA. Zúniga concorda e vai além. Ele alerta que a situação poderia também “abrir espaço para o crime organizado” em um cenário de possível vácuo de poder. “Isso representaria um grande risco”, disse.
O ex-conselheiro do governo afirma que, embora líderes anteriores já tivessem lidado com os desafios econômicos crônicos da ilha, a situação atual é de outra magnitude. E o bloqueio ao fluxo de petróleo é, para Zúniga, uma medida desnecessária e com consequências diretas para a população mais vulnerável.
“O sistema energético cubano já estava em colapso, e essa pressão adicional recai diretamente sobre a população, podendo inclusive causar mortes, especialmente devido à precariedade nos hospitais. Se a intenção é melhorar a vida das pessoas, esse tipo de medida não faz sentido”, afirma.
Para ele, os EUA já estão em posição forte o suficiente para negociar sem recorrer a esse tipo de pressão extrema, o que torna o bloqueio petrolífero não apenas cruel, afirma, mas também estrategicamente desnecessário. “A prioridade deve ser a negociação, não a intimidação.”
Zúniga diz que Havana precisa ceder por reformas concretas: abertura econômica, libertação de presos políticos e maior espaço para a imprensa independente na ilha.
Segundo ele, as pressões devem visar sobretudo a abertura econômica, permitindo que a população “resolva seus próprios problemas”, além da redução do controle estatal centralizado. “Isso naturalmente levaria a mudanças políticas”, diz.
O ex-conselheiro também cobra uma autocrítica do regime cubano. “A cúpula do governo precisa entender que, sem reformas profundas, o país continuará em uma situação terrível”, afirma. Segundo ele, também será necessário que o regime “abra mão do controle absoluto do país”.
Ele é cuidadoso ao detalhar o que isso significaria na prática. “Não significa, necessariamente, uma mudança imediata de regime, mas sim reformas estruturais que criem as bases para uma sociedade democrática mais bem-sucedida, começando pela economia. O Estado precisa aceitar perder o controle total sobre os investimentos e permitir maior abertura. O futuro de Cuba depende dos cubanos, não dos EUA.”
O problema, no entanto, é que o tom beligerante adotado por Trump tende a produzir o efeito oposto ao de estimular reformas. Ao reativar o discurso de ameaça externa, a retórica americana acaba fornecendo munição política à ala mais dura do regime cubano.
“Isso pode reativar o discurso histórico de ameaça externa [em Cuba], o que, em vez de facilitar mudanças, fecha portas para negociações e dificulta reformas”, afirma.








