Terça-feira, 12/05/26

Polícia Civil de SP resgata mil animais em investigações contra zoosadismo no Discord

Operação apura compra de cafeína para aumentar produção de cocaína em SP
Operação apura compra de cafeína para aumentar produção de cocaína – Reprodução

Pelo menos mil animais foram resgatados a partir de investigações da Polícia Civil de São Paulo no primeiro trimestre deste ano sobre zoosadismo, violência contra animais transmitida ao vivo em plataformas digitais, principalmente no Discord.

Segundo a polícia, os dados ainda não possuem base consolidada para comparação histórica, mas o volume de ocorrências já é tratado como reflexo do avanço de grupos organizados que usam a internet para disseminar violência extrema entre adolescentes e jovens.

A delegada Lisandréa Salvariego, chefe do Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), unidade especializada da SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) criada para combater crimes digitais, afirma que o zoosadismo funciona como porta de entrada para crimes como estupro virtual, indução à automutilação, incentivo ao suicídio e até, em casos extremos, ataques a escolas.

O Discord, citado nas investigações do núcleo, afirmou que mantém “políticas rigorosas que proíbem o abuso de animais e outros conteúdos prejudiciais, por meio de sistemas robustos de fiscalização e moderação”.

A empresa declarou ainda que segue investindo “em ferramentas avançadas de segurança e tecnologias de detecção proativa para ajudar a criar um ambiente mais positivo e seguro para os usuários no Brasil”.

Para a delegada, os grupos investigados utilizam a violência contra animais como forma de dessensibilização e escalada da violência, normalizando conteúdos extremos entre adolescentes e jovens.

A prática também é usada para testar limites, estimular desafios violentos, criar vínculos dentro das comunidades criminosas e identificar usuários dispostos a participar de outras condutas ilegais.

Segundo as investigações do núcleo, parte dessas ações criminosas ocorre em servidores privados do Discord, plataforma de conversas popular entre jovens e criada originalmente para comunidades de jogos online.

De acordo com a polícia, os grupos utilizam a ferramenta para organizar transmissões ao vivo, compartilhar vídeos de maus-tratos, estimular desafios violentos e incentivar práticas criminosas envolvendo animais e crianças.

“A maioria dos resgates envolve gatos, que representam cerca de 90% dos casos monitorados pelo Noad”, afirma a delegada. Segundo ela, os filhotes são as principais vítimas dos grupos investigados por serem considerados mais vulneráveis e mais fáceis de manipular durante as transmissões.

Dados do Noad obtidos pela Folha apontam crescimento dos registros de maus-tratos envolvendo especificamente esse tipo de animal. Foram 175 ocorrências em 2024 e 340 no ano passado. Para 2026, a projeção é de nova alta.

A Polícia Civil monitora, em média, de 10 a 15 casos de maus-tratos a animais transmitidos ao vivo durante as madrugadas.

“Temos duas situações: quando a vítima tenta matar o próprio animal, avisamos a família, orientamos a procurar tratamento psicológico e, se algo ocorrer com o animal, os fatos são registrados”, afirma a delegada.

Ela diz que essas vítimas passam a integrar automaticamente as investigações conduzidas pelo núcleo, que busca identificar os responsáveis pela indução e organização das ações violentas.

Em um dos casos acompanhados pela polícia, uma adolescente em Fortaleza planejava matar o próprio gato durante um evento previamente marcado na internet. A ação foi interrompida após articulação entre a Polícia Civil paulista e a Polícia Civil do Ceará.

“Nós agimos imediatamente. Após o pedido de quebra do sigilo, conseguimos identificar a localização do adolescente Acionamos a polícia de Fortaleza, e o animalzinho foi salvo”, relata a delegada.

A chefe do Noad explica que somente é possível saber a localização do ato mediante a quebra de sigilo. “Monitoramos o país todo. A internet não tem fronteira. Somente após a quebra de sigilo é que conseguimos a localização e impedir o crime.”

A reportagem procurou o Ministério Público de São Paulo para questionar se o órgão acompanha as investigações relacionadas ao zoosadismo e aos crimes praticados em plataformas digitais, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Em fevereiro deste ano, um relatório produzido pelo Noad e entregue ao Ministério Público apontou falhas de moderação no Discord que, segundo a polícia, têm permitido a prática de crimes contra crianças e adolescentes no ambiente digital.

O documento descreve problemas recorrentes identificados durante o monitoramento da plataforma, como demora na exclusão de servidores mesmo quando crimes estariam sendo cometidos ao vivo, além de dificuldades para interromper rapidamente as condutas ilegais e identificar os responsáveis.

Os investigados podem responder por maus-tratos a animais, crime previsto na Lei de Crimes Ambientais. Nos casos envolvendo cães e gatos, a pena é de reclusão de 2 a 5 anos, além de multa e proibição da guarda do animal. Se houver morte do animal, a punição pode ser aumentada.

T LB

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