Faltando poucos dias para apresentar o balanço, o Banco de Brasília (BRB) conseguiu contornar, por ora, uma crise financeira que preocupava o mercado financeiro e o governo distrital. Na última terça-feira (26), o Governo do Distrito Federal (GDF) conseguiu uma reunião com integrantes da União e do Supremo Tribunal Federal (STF) para viabilizar o tão sonhado empréstimo de R$6,6 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Após a primeira audiência de conciliação, realizada a pedido do ministro da Suprema Corte, Luiz Fux, o governo federal não se comprometeu a dar o aval que o GDF desejava. No entanto, a proposta apresentada permite que o Ministério da Fazenda abra um critério de excepcionalidade para uma operação de crédito com garantias de um sindicato de bancos públicos e privados e contragarantias do próprio Executivo local.
Especialistas ouvidos pelo Jornal de Brasília avaliam que o acordo sinaliza um cenário positivo para o banco distrital. O mestre em finanças e professor do Ibmec, Marcos Melo, explica que há um melhor ambiente para o crescimento da instituição no mercado.
“O BRB vai ter a possibilidade de diminuir o problema mais imediato. Este é um cenário positivo para que a instituição possa resolver seus problemas imediatos e diminui muito o risco de liquidação e até mesmo poder voltar a crescer no futuro”, defende.
O acordo está previsto para ser selado definitivamente entre as partes nesta quinta-feira, um dia antes do prazo para apresentação do balanço, que, caso não seja cumprido, pode levar à liquidez do banco. Na avaliação do professor, esta será uma boa proposta se, de fato, sair da forma como tem sido negociado. Apesar do cenário favorável, isso não significa que o risco de liquidação está fora do radar.
“O que está se tentando fazer é resolver um problema mais imediato de patrimônio para que se possa permitir ao banco se reestruturar financeiramente e, assim, voltar a fazer novos negócios, atuar no mercado financeiro, vender seus produtos e gerar receita e lucro novamente. Isso não significa que o risco de liquidação deixe de existir, mas certamente ele fica bastante menor”, explica.
O BRB deveria ter apresentado o balanço dos últimos trimestres de 2025 e o primeiro de 2026 ainda em março, mas, com o agravamento da crise e a incerteza sobre o futuro do banco, o prazo foi estendido para esta sexta-feira (29). Com essa prorrogação, a instituição financeira teve algumas consequências, como o pagamento de multas a cada dia de atraso.
Na visão do economista e professor da Universidade de Brasília (UnB) César Bergo, mesmo com o processo em negociação, ainda existem riscos. Segundo ele, a parte judicial já foi contornada, o que é um bom sinal.
“Existem alguns aspectos que vão ter que ser observados. Mas do ponto de vista do encaminhamento da proposta, está bem encaminhada a questão das garantias. É uma grande alternativa que foi buscada, é muito positivo”, argumenta.
Pressão nos cofres públicos
O GDF tem apresentado déficit fiscal nos últimos anos, e isso ocorre independentemente da situação do BRB. De acordo com Melo, o acordo firmado permite ao banco melhorar a situação imediata para que possa crescer no mercado e voltar a gerar receita, lucro e dividendos para o governo.
“Se o GDF deixar de pagar ao FGC, é esse sindicato que, em primeira instância, pagaria a obrigação. Se esse sindicato de bancos não conseguir honrar o compromisso, entra a segunda camada de garantia, formada por recursos do Fundo de Participação dos Estados e do Fundo de Participação dos Municípios que o Distrito Federal recebe da União. Somente no caso de o GDF não conseguir pagar com os recursos provenientes do resultado do BRB e também de o sindicato de bancos não conseguir cumprir essa obrigação é que o Distrito Federal teria de despender recursos do seu próprio orçamento para efetuar o pagamento ao FGC”, explica.
Liquidação no radar
Considerando que a reunião de hoje seja positiva e o acordo saia do papel e que o GDF receba os recursos emprestados do FGC e que eles sejam aportados no banco, isso dará uma condição muito melhor para a instituição voltar a crescer no mercado, fazer novos negócios, vender seus produtos e gerar resultado financeiro, mas não anula o cenário de crise, de acordo com Melo.
“Esse resultado deverá ser usado para pagar ao GDF as prestações que, por sua vez, deverão ser pagas ao FGC. Portanto, trata-se de um excelente acordo, se de fato se concretizar, mas isso não significa que a crise esteja definitivamente encerrada”, acrescenta.
Bergo compartilha da mesma avaliação. Segundo o professor, também é necessário se atentar ao problema patrimonial. “A questão da liquidez se resolveu com aquele R$ 1 bilhão que recebeu da Quadra [Capital] e com mais esse R$ 1 bilhão do BTG Pactual. Isso atenua o momento com relação à liquidez, mas não resolve a questão patrimonial. A questão patrimonial vai ser resolvida com aporte de capital. A partir do momento que o BRB apresenta os balanços e solucionar essa questão”, analisa.








