Sábado, 30/05/26

Ibovespa cede 7,22% em maio, em pior desempenho desde fevereiro de 2023; dólar sobe 1,82%

Ibovespa cede 7,22% em maio, em pior desempenho desde fevereiro de 2023; dólar sobe 1,82%
Ibovespa cede 7,22% em maio, em pior desempenho desde fevereiro – Reprodução

São Paulo, 29 – O Ibovespa encerrou maio acumulando perda de 7,22% no mês, o que reduz o ganho do ano a 7,86%. Em 14 de abril, quando o índice renovou máxima de fechamento pela 18ª vez apenas em 2026, o avanço chegava a 23,29%. Nesta sexta-feira, oscilou entre mínima de 172.686,36, menor nível intradia desde 22 de janeiro, e máxima de 175.064,44 pontos, correspondente à abertura. Ao fim, marcava 173.787,49 pontos, em baixa de 0,73%, na mínima de encerramento desde 21 de janeiro. Com giro financeiro muito reforçado, a R$ 46,7 bilhões nesta sexta-feira, o Ibovespa colheu a quarta sessão consecutiva no negativo. Na semana, cedeu 1,37%.

Foi a sétima semana negativa para o índice, em série iniciada logo após a renovação de recordes intradia e de fechamento em 14 de abril, que o aproximava então do limiar também inédito de 200 mil pontos. Desde 15 de abril, foram 31 sessões e o Ibovespa subiu em apenas 9 delas – ou seja, em menos de um terço do intervalo. Em maio, colheu também a terceira perda mensal consecutiva, interrompendo a série vitoriosa que se estendeu de agosto passado a fevereiro. O desempenho de maio foi o pior para o Ibovespa desde fevereiro de 2023 (-7,49%).

Enquanto parte importante da série ganhadora de sete meses havia sido induzida pela rotação global de ativos a partir, em especial, do setor de tecnologia dos Estados Unidos, o que se vê agora é uma reversão desse movimento – e não apenas em retorno a Nova York, mas também direcionado a outros mercados com exposição a tecnologia, como Seul.

O “trade” que favorecia emergentes perdeu força e, mesmo com a resiliência inicial mostrada pelo Ibovespa em razão da importância de Petrobras e do setor de energia e commodities, o índice começa agora a mostrar uma vulnerabilidade maior à mudança de direção do capital estrangeiro, fundamental para a série de recordes que vem ainda de 2025.

Em paralelo, Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq voltaram a renovar recordes. Na sessão, subiram, pela ordem, 0,72%, 0,22% e 0,20%, acumulando ganhos de até 8,36% (Nasdaq) no mês. O amplo S&P 500 subiu 5,15% em maio.

“Se nas semanas anteriores o mercado alternou entre esperança e frustração com as negociações no Oriente Médio, esta semana o roteiro foi semelhante, mas com um elemento adicional: o conflito completou três meses sem resolução definitiva, e o mercado começa a incorporar de forma mais clara a ideia de que o cenário de incerteza pode perdurar”, diz Bruna Sene, analista de renda variável da Rico.

Nesse contexto de relativa “normalização” da incerteza geopolítica, as últimas sessões da semana foram favorecidas por percepção de que Estados Unidos e Irã possam, de fato, estar mais próximos de um entendimento preliminar, o que descomprime o petróleo: no mês, o Brent cedeu 17,4% e o WTI, 16,8%.

Com o dólar a R$ 4,95 no fim de abril, e agora quase 10 centavos de real acima no fechamento de maio, a R$ 5,04, e o Ibovespa saindo da casa de 187 mil então para a de 173 mil agora, o índice da B3 na moeda norte-americana sai de 37.821,31 pontos para 34.461,81 pontos agora. No fim de março, estava em 36 199,32 pontos e, no fechamento de fevereiro, em 36.771,90 pontos

Para Rachel de Sá, estrategista de investimentos do Research da XP, a semana trouxe ainda muito “vai e vem” com relação è expectativa de acordo no terreno geopolítico. “Uma normalização rápida não vai acontecer”, o que começa a ser precificado pelo mercado, observa Rachel. “Mesmo que o Estreito de Ormuz seja reaberto, haverá um tempo para que as coisas voltem à situação que se tinha antes” da guerra. “Altas de juros começam a ser precificadas também”, em razão das pressões inflacionárias derivadas do choque de oferta no petróleo.

“Dado do PIB de hoje, referente ao primeiro trimestre no Brasil, veio ainda forte, mas pode ser considerado no retrovisor”, acrescenta a estrategista. Ela destaca a resiliência do setor de serviços e certa retomada de protagonismo do consumo das famílias, refletindo o mercado de trabalho com nível de desocupação ainda baixo, apesar do relativo enfraquecimento nos dados do Caged de abril, divulgados nesta semana. “Tom do Copom com relação à política monetária deve vir ainda duro nas próximas reuniões, com cautela que tende a se refletir na curva de juros.”

Em outro desdobramento negativo – embora com efeito “limitado” sobre o pregão da Bolsa, inclusive para o setor financeiro, o potencialmente mais prejudicado pelos efeitos da decisão -, a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelo governo dos EUA é mais um “ruído” com consequências domésticas, assim como a disputa eleitoral de outubro, aponta Rachel. “Ambas as questões continuarão se ser monitoradas de perto” pelo mercado, acrescenta ela.

Na B3, as ações dos maiores bancos mostraram variação entre -1,50% (Banco do Brasil ON) e +0,10% (Santander Unit) no fechamento desta sexta-feira. Dentre os principais segmentos, o metálico concentrou as maiores perdas da sessão, com Metalúrgica Gerdau (PN -4,11%) à frente. Principal papel do Ibovespa, Vale ON caiu 1,36% na sessão, mas no ano ainda sobe 15,09%, com o agregado positivo de 2,02% no mês. Petrobras ON e PN, pela ordem, cederam hoje 1,70% e 1,20%, e foram muito pressionadas pela correção do petróleo no mês: em maio, a ordinária recuou 14,62% e a preferencial, 14,43%; no ano, ainda sobem 45,03% e 37,84%, respectivamente.

Na ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, Totvs (+4,16%), Usiminas (+4,04%) e Eneva (+2,52%). No lado oposto, Minerva (-7,05%), Braskem (-6,02%) e Magazine Luiza (-5,83%).

As apostas majoritárias de valorização do Ibovespa para a semana seguinte reapareceram após seis semanas. A última vez em que a metade (50%) dos agentes do mercado previa alta do índice havia sido na pesquisa do Termômetro Broadcast Bolsa referente à semana de 20 a 24 de abril. Na edição desta sexta, com projeções para 1º a 5 de junho, 57,14% esperam alta, contra 28,57% que projetam queda. Os que veem estabilidade somam 14,29%.

Dólar

Após máxima de R$ 5,0707 no fim da manhã, o dólar reduziu o ritmo de alta ao longo da tarde, com ajustes intradia e certa recuperação de divisas latino-americanas, e encerrou a sessão desta sexta-feira, 29, cotado a R$ 5,0429, avanço de 0,22%. Segundo operadores, o real pode ter sofrido nesta sexta com fatores técnicos, como a disputa pela formação da última taxa Ptax do mês, e a queda dos preços do petróleo, diante da perspectiva de um acordo entre Estados Unidos e Irã.

A decisão do governo norte-americano de classificar os grupos criminosos brasileiros como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas não teve impacto relevante na formação da taxa de câmbio, segundo operadores. A avaliação é de que o aumento dos ruídos políticos e uma eventual influência da decisão norte-americana sobre o xadrez eleitoral podem, contudo, ampliar a volatilidade e pesar sobre o real.

Depois de queda de 4,36% em abril, a moeda americana encerra maio com ganhos de 1,82%. No ano, o dólar acumula desvalorização de 8,13% em relação ao real, que tem o melhor desempenho no período entre as principais divisas globais, favorecido pelo amplo diferencial de juros e a melhora dos termos de troca com a alta do petróleo. Divisas menos relevantes, como o rublo russo e o novo shekel israelense, têm alta um pouco superior à da moeda brasileira.

O diretor de pesquisa econômica do Pine, Cristiano Oliveira, atribuiu a depreciação do real em maio, sobretudo, a uma reprecificação dos juros globais após leituras elevadas de inflação ao produtor em abril em diversos países, em especial nos EUA, com o choque dos preços de energia.

“Tivemos também fluxo cambial negativo e um pequeno aumento da volatilidade em razão da questão eleitoral. Não houve incentivo adicional para o investidor entrar no Brasil”, afirma Oliveira, ressaltando, contudo, que os estrangeiros dão menos peso à corrida presidencial do que os investidores locais.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve queda ao longo do pregão e recuava 0,12% por volta das 17 horas, aos 98,897 pontos, após mínima de 98,751 pontos. O Dollar Index encerra maio com avanço de pouco mais de 0,80%. Destaque para as perdas de mais de 1,5% do iene, apesar das intervenções do Japão no câmbio.

O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, ressalta que houve, em maio, uma alta das taxas dos Treasuries, em meio a números fortes da economia americana e apetite renovado por ações de tecnologia. “Isso tem atraído capital para os Estados Unidos e ajudado a manter o dólar relativamente valorizado”, afirma Alves, ressaltando que os EUA também estão mais bem posicionados que a Europa para lidar com os efeitos da guerra.

As cotações do petróleo recuaram na expectativa pelo anúncio de um entendimento entre EUA e Irã que leve à normalização do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz. O contrato do Brent para agosto chegou a operar abaixo da marca de US$ 90 por barril pela primeira vez desde março, mas fechou cotado a US$ 91,12, queda de 1,7%, acumulando baixa de mais de 9% na semana e de 16% no mês.

Segundo fontes ouvidas pelo The New York Times, Donald Trump não bateu o martelo sobre um acordo com o Irã em reunião realizada hoje à tarde na Casa Branca, anunciada pelo próprio presidente em post na Truth Social. O republicano reiterou que um entendimento depende da renúncia de Teerã às armas atômicas e da reabertura total do Estreito de Ormuz. Pela manhã, o jornal britânico The Guardian informou que Trump teria compartilhado com aliados uma minuta de acordo de paz com o Irã. Autoridades iranianas confirmaram diálogo com Washington, mas ressaltaram que ainda não houve entendimento.

Para Oliveira, do Pine, houve exagero em previsões de recuo da taxa de câmbio para níveis entre R$ 4,50 e R$ 4,60, cuja premissa era a de que o Brasil seria beneficiado pela escalada do petróleo com a guerra no Oriente Médio, uma vez que é exportador líquido da commodity.

O economista pondera que o país já era favorecido pela melhora dos termos de troca muito antes da eclosão do conflito – e que o avanço recente da commodity apenas trouxe um “impulso adicional” “Nossos modelos de curto prazo mostram o real muito bem precificado nos níveis atuais, com a taxa de câmbio oscilando entre R$ 5,03 e R$ 5,04”, afirma Oliveira.

Mercado de juros

Após subirem pela manhã com o impulso dos dados de atividade do primeiro trimestre, os juros futuros oscilaram sem gatilhos claros ao longo da tarde, encerrando a sessão da sexta-feira em discreta alta. A despeito da curva dos Treasuries bem comportada e da queda do petróleo, dados domésticos que indicam resiliência da atividade e da inflação atuaram no sentido de pressionar as taxas, enquanto prevaleceu cautela em relação ao exterior, diante do risco de desdobramentos negativos nas negociações entre Washington e Teerã no final de semana.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 14,053% no ajuste anterior, para 14,09%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 13,86%, vindo de 13,805% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 oscilou de 13,895% no ajuste para 13,885%.

Os DIs ameaçaram devolver prêmios e tocaram mínimas intradia por volta das 14h, mais alinhados à queda do petróleo e à curva comportada dos Treasuries, mas voltaram ao terreno negativo com notícias de que nenhum acordo foi alcançado entre Estados Unidos e Irã.

Segundo profissionais de renda fixa e economistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), o mercado de juros brasileiro tem mostrado uma dinâmica própria nos últimos dois pregões, mais descolada do movimento externo e até mesmo do dólar.

Na semana, com dados domésticos que apontaram inflação resistente, mercado de trabalho e economia ainda aquecidos, fica cada vez mais difundida a percepção de que o ciclo de calibração da Selic será bem magro.

O cenário internacional, por sua vez, impôs certa cautela aos negócios, diante de um fim de semana que pode ter desdobramentos negativos no acordo em negociação entre Washington e Teerã, o que desestimula tomada de risco. O saldo foi um pregão de oscilação comedida das taxas, seja na alta, seja na queda.

No cômputo semanal, com tombo de cerca de 10% das cotações do petróleo no período, devido às expectativas de que uma resolução para o conflito estaria próxima, a curva futura teve discreto fechamento. O vértice de janeiro de 2027 cedeu cerca de 2 pontos-base, o de janeiro de 2029 caiu ao redor de 5 pontos-base, e a taxa para janeiro de 2031, cerca de 10 pontos-base.

Já no mês, a curva a termo ganhou inclinação, com a taxa de janeiro de 2027 recuando cerca de 5 pontos, e a de 2029 e 2031 abrindo cerca de 15 pontos. “Quando há um movimento de perspectiva de corte dos juros associado a aumento da inflação esperada e dos riscos para a inflação, é natural que a curva ganhe inclinação, com agentes questionando a real magnitude desse ciclo”, afirmou Felipe Sichel, economista-chefe da Porto Asset.

Para Sichel, o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, publicado nesta sexta pelo IBGE, reforçou essa avaliação, ao mostrar crescimento de 1,1% da economia em relação ao trimestre imediatamente anterior, feitos os ajustes sazonais. O dado veio exatamente em linha com a mediana de analistas consultados pelo Projeções Broadcast.

“A dinâmica doméstica tem ido além do que está acontecendo com o petróleo. Hoje o PIB veio com decepção na parte de agro, e serviços e indústria com performance positiva. Isso dá indicações de que o espaço para cortar juros é menor e o mercado vai precificando isso aos poucos”, disse o economista.

No final da tarde, a probabilidade de uma redução de 0,25 ponto da Selic apontada pela curva futura estava em 80%, praticamente o mesmo porcentual da quinta-feira, enquanto a taxa terminal precificada para o fim do ano estava em aproximadamente 14%.

A Tendências Consultoria foi mais uma da casas a elevar sua projeção para o juro básico, de 13,00% para 13,50% em dezembro de 2026. Para o final de 2027, o número passou de 10,50% para 11,25%. “Avaliamos como mais provável a continuidade deste chamado ‘ciclo de calibração’ dos juros, porém mantendo o ritmo modesto de ajuste praticado até aqui”, diz em relatório Silvio Campos Neto, economista sênior e sócio da Tendências.

Estadão Conteúdo

T LB

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