- Mentimos porque precisamos descobrir a verdade.
- Mentimos para ser/ter o que não somos/temos, para tirar a vida da banalidade (embora o excesso torne a vida quase insuportável).
- Mentimos para descobrir o que temos e somos coletivamente (chegar na “verdade” sobre nosso lugar em relação ao outro).
- Mentimos para passar do desejo de reconhecimento para o reconhecimento do desejo (mentira como estratégia de sedução, ironia e poesia).
- Mentimos porque nos alienamos ao desejo do outro, ou seja, queremos adivinhar o que nos tornará amáveis, adequados e interessantes.
A mentira é um ensaio de viver outras vidas e nos tornar outras pessoas, que envolve teatro, dança, lúdico e sexo. Ou seja, é um exercício da fantasia, de cujas regras para construir e encobrir nos levam à verdade.
Uma história clássica parece conter a essência humana da mentira: “Poesia e Verdade”, o relato autobiográfico de Johann Wolfgang von Goethe.
O jovem poeta conclui seus estudos de forma brilhante e majestosa. O mundo está a seus pés; ele finalmente se tornou alguém na vida. Neste momento, abate-se sobre ele a mais profunda depressão. Ele sabe tão bem quem é que não sabe mais o que quer. O mundo lhe parece falso, inautêntico e mentiroso — um jogo, um teatro, uma farsa.
Sentindo-se apenas mais um ator nessa comédia de erros, ele decide criar um exercício para si: veste-se de monge trapista e viaja para uma aldeia rural onde ninguém o conhece. Lá, tratado como qualquer um, deixado à sua própria sorte, mas incógnito, ele passa pela mais profunda experiência de libertação de si. Não tem mais favores ou obrigações.
Livre e anônimo, sem saber quem é, ele pode, então, se apaixonar da forma mais lancinante e verdadeira. Mas que moça corresponderia ao amor de um pobre monge? Recusado no seu mais puro sentimento, ele descobre uma amarga verdade: quando se sabe o que se quer, não se sabe mais quem se é; e quando se sabe quem se é, não se sabe mais o que se quer.








