Há o argumento de que ninguém acessa notícias sobre meio ambiente. Pouca gente lê os artigos de quem nos ensina sobre o tema. Mas, se o assunto é chato demais para despertar atenção dos leitores, há uma dose maior de culpa em quem informa e menor em quem (não) lê. Convenhamos que uma noite de eliminação em A Fazenda não é exatamente um tema excitante, mas aposto um Chicabon que o Chico Barney tem mais audiência do que o professor Carlos Nobre aqui no UOL quando discorrem sobre seus tópicos de especialidade.
O tema não é de todo desconhecido da população. Uma pesquisa do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) revelou que 95% dos brasileiros dizem ter consciência de que as mudanças climáticas estão acontecendo. Em 2024, logo após as enchentes que afetaram o Rio Grande do Sul e deixaram 185 pessoas mortas, uma matéria da BBC reportou a curiosidade crescente das pessoas sobre o tema a partir de dados extraídos do Google Trends. De lá para cá, o interesse geral por temas relacionados a “aquecimento global” na busca do Google segue aumentando (na ordem aproximada de 20% no período). Mas um problema descrito na reportagem permanece: as pessoas não sabem por onde começar a agir.
Na contramão dos dados de busca na internet no Brasil, um relatório de 2026 da Ipsos realizado em 31 países mostra que, desde 2021, o interesse no assunto vem diminuindo. Embora a preocupação com o meio ambiente continue alta, há uma queda no sentimento de responsabilidade individual, com as pessoas transferindo a expectativa de liderança para governos e empresas (que, de fato, o têm), condicionando seu envolvimento a ações concretas por parte do poder público e privado. O sentimento é de ceticismo, o que acaba levando a uma inércia em termos de iniciativas.
O interesse e consequente esforço que dedicamos ao tema são pontuais, vinculado aos eventos assustadores e tragédias que testemunhamos com frequência cada vez maior. E o aumento desses episódios, em vez de mobilizar, acaba normalizando a tragédia, de forma que buscamos formas de adaptação e não de correção.
Hoje, há quem diga que o que vai mesmo acabar com a humanidade é a inteligência artificial. Há quem diga que justamente porque as transformações do clima vão acabar com tudo, alguns magnatas bilionários estão acelerando o desenvolvimento de IA como se não houvesse amanhã porque, já diria Renato Russo, “na verdade não há” (a-aa, ele completaria) e que, por isso, já que tudo isso aqui vai acabar em breve, querem uma IA geral super poderosa que os ajude a viver fora da Terra. Veja bem, “os” ajude.
Eu acho que essa história está mal contada.
O ponto sobre o papel do jornalismo nesse esforço de mobilização diz respeito também a assuntos específicos de interesse geral. Mas, qual foi a última notícia que você leu sobre as secas amazônicas, queimadas no Pantanal, inundações em Pernambuco ou reconstruções no Rio Grande do Sul depois das enchentes? Questões ambientais entram no fluxo contínuo de todas as demais pautas como se fossem comparáveis em termos de importância, mas é preciso existir uma hierarquia que coloque o tema no centro da cobertura diária de forma a converter os picos de atenção que acontecem durante eventos extremos em compreensão permanente.







