ANDRÉ BORGES
FOLHAPRESS
O impacto da guerra no Oriente Médio chegou à indústria brasileira. Levantamento realizado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), a qual a reportagem teve acesso, mostra que 95% das empresas do setor industrial registraram algum aumento dos custos de transporte de mercadorias no primeiro trimestre de 2026. Ainda, 56% das companhias relataram alta elevada nos gastos com frete, seguro e logística.
Segundo o relatório, o cenário é reflexo da escalada dos conflitos entre Estados Unidos, Irã e Israel, iniciados em 28 de fevereiro. A crise levou ao fechamento do Estreito de Hormuz, uma das rotas mais usadas para o comércio mundial de petróleo.
Entre as empresas que registraram aumento nas despesas de transporte, 52% citaram relação direta com os conflitos na região. Outros 35% consideram essa associação moderada. Apenas 5% dizem que o aumento dos custos não tem vinculação com a guerra.
A pesquisa da CNI foi realizada entre 16 de abril e 5 de maio e ouviu 145 empresas de todos os portes, distribuídas por 31 setores industriais em todas as regiões do país. O levantamento procurou medir como o choque internacional do petróleo afetou as operações e qual a percepção do setor sobre as medidas adotadas pelo governo para enfrentar o problema.
O impacto é mais notado entre empresas que dependem do comércio exterior. Seis em cada dez exportadoras afirmam que a elevação dos custos está fortemente associada ao conflito, enquanto 37% apontaram um reflexo moderado. A percepção é a mesma entre importadores brasileiros.
Os dados mostram que o choque de preços do petróleo atingiu vários meios logísticos. No transporte marítimo nacional, 40% das empresas registraram forte aumento de custos, enquanto 50% relataram alta moderada. No transporte marítimo internacional, 54% apontaram forte aumento e 38%, alta moderada.
No transporte rodoviário nacional, principal modal usado no Brasil, 54% das empresas registraram forte elevação dos custos, enquanto 41% relataram aumento moderado. Já no transporte rodoviário internacional, 42% apontaram forte aumento, ante 56% que viram alta moderada.
A média trimestral do petróleo tipo Brent passou de US$ 63,10 por barril no quarto trimestre de 2025 para US$ 78,10 no primeiro trimestre de 2026, período em que se iniciou a crise entre Estados Unidos, Irã e Israel. Em março, no auge do conflito, o Brent chegou a superar US$ 113 por barril.
Na semana passada, o barril fechou em US$ 87,33, após uma forte queda devido às expectativas de um acordo que poderia levar à reabertura do Estreito de Hormuz, corredor marítimo por onde passam entre 20% e 30% de todo o petróleo consumido no planeta.
Como combustíveis são um dos principais componentes do transporte de cargas, a alta foi repassada instantaneamente para toda a cadeia logística, puxando os custos de produção e distribuição no Brasil. Este efeito na economia pressiona o preço final ao consumidor e leva à alta da inflação.
A alimentação no domicílio teve alta de 1,65% em maio país, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). É o maior índice para meses de maio em 18 anos, desde 2008 (2,27%).
Embora o conflito seja apontado como o principal gatilho para a alta dos fretes, as empresas afirmam que problemas estruturais do país também contribuíram para elevar os custos. A tributação sobre o transporte foi mencionada por 36% dos entrevistados. Os custos de fornecedores foram apontados por 26%. Questões relacionadas à mão de obra também citadas por 24% das empresas.
A CNI também avaliou a reação das empresas às medidas anunciadas pelo governo federal em março para tentar conter os efeitos da disparada do petróleo. Entre as ações adotadas estão a concessão de subsídio ao diesel, a desoneração temporária de PIS/Pasep e Cofins sobre o combustível e a criação de uma alíquota de 12% de Imposto de Exportação sobre as vendas externas de petróleo bruto, para estimular a oferta de mais petróleo dentro do Brasil.
A avaliação que predomina entre as empresas ouvidas é a de que essas iniciativas terão pouco efeito prático. Para 54% delas, as medidas serão pouco eficazes para reduzir os custos de transporte nos próximos meses. Outros 16% classificam as ações como ineficazes. Apenas 3% dizem acreditar que elas serão efetivas.
Entre os motivos apontados está a dúvida sobre a capacidade fiscal do governo para manter os incentivos por um período prolongado. Há, ainda, receio de que os benefícios concedidos hoje possam levar a um aumento da carga tributária no futuro. Outro fator lembrado é a concentração do próprio mercado de combustíveis, que pode dificultar o repasse dessas medidas aos preços finais.







