Quinta-feira, 18/06/26

Ondas de calor mataram 120 mil pessoas no Brasil em 20 anos, diz Fiocruz

Ondas de calor mataram 120 mil pessoas no Brasil em 20 anos, diz Fiocruz
Ondas de calor mataram 120 mil pessoas no Brasil em – Reprodução

PATRÍCIA PASQUINI
FOLHAPRESS


Um estudo feito por pesquisadores da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e da UFBA (Universidade Federal da Bahia) aponta que o Brasil registrou 120 mil mortes associadas a ondas de calor entre 2000 e 2019, o equivalente a 0,6% da mortalidade total registrada no período.

A análise, sob a coordenação de projetos dos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e Meio Ambiente, envolveu dados de mortalidade geral de 5.566 municípios (número de cidades brasileiras em 2000) por meio do Sistema de Informações de Mortalidade do DataSUS.

O estudo integrou a caracterização das ondas de calor considerando frequência, intensidade e duração, com uma análise detalhada dos impactos sobre as hospitalizações e a mortalidade.

A metodologia foi dividida em etapas. Na primeira, os pesquisadores revisaram os estudos e as evidências existentes sobre o efeito das ondas de calor e do impacto na saúde humana.

“Para mortalidade, há estudos feitos no Brasil, mas concentrados na região metropolitana ou nas capitais.

Nós ampliamos a análise para o Brasil inteiro, em termos de risco e impacto. Além da abrangência, exploramos grupos e causas específicas e questões de faixa etária”, explica a condutora do estudo, Beatriz Oliveira.

A maioria dos municípios brasileiros apresentou uma tendência de aumento na frequência e na intensidade das ondas de calor no período estudado. A exposição a elas, no entanto, não é homogênea no país.

Os eventos climáticos foram mais frequentes, longos e persistentes nas regiões Norte e Centro-Oeste. Já os episódios com maior intensidade em relação à temperatura média local ocorreram no Sul e no Sudeste.

Para Beatriz Oliveira, pesquisadora em saúde pública da Fiocruz, os resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis.
Além de idosos e mulheres, a pesquisa aponta que as pessoas com baixa escolaridade formam um grupo vulnerável às temperaturas quentes.

“O aumento da mortalidade associado à onda de calor não é igual para todos. À medida que aumenta a escolaridade, diminui o risco de óbito. O grupo com menor escolaridade tem menor condição se adaptar. Isso implica, por exemplo, na residência onde mora, em ter ar-condicionado, na questão de se deslocar e permanecer muito mais tempo exposto a essas condições”, afirma a pesquisadora.

Indivíduos com menor escolaridade, em geral, também estão em postos de trabalho com maior informalidade, se expõem mais a essas ondas de calor e, consequentemente, ao maior risco, diz ela.

“Também é uma questão de residir em locais com dificuldade de acesso à saúde”, comenta.

Das mortes atribuídas ao forte calor, 97 mil foram de indivíduos com 65 anos ou mais. Os pesquisadores identificaram que 58 mil (48,3%) dos 120 mil óbitos ocorreram por doenças cardiovasculares e respiratórias.

Em relação às hospitalizações no SUS (Sistema Único de Saúde) na população em geral, o estudo observou que as causas apontam para as doenças respiratórias -em especial pneumonia-, e condições que afetam o sistema urinário –como insuficiência renal– em quase todas as regiões do país.

Em menores de 10 anos, as gastroenterites foram o motivo de internação mais fortemente associado às ondas de calor devido à desidratação, imaturidade dos mecanismos de termorregulação e às alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos durante o calor extremo.

Idosos mostraram maior sensibilidade a causas respiratórias, renais e metabólicas, especialmente diabetes. O trabalho sugere que, durante as ondas de calor mais severas, as hospitalizações por doenças cardiovasculares podem evoluir para gravidade. O óbito pode ocorrer antes mesmo da internação.
O que pode ser feito?

Segundo a pesquisadora, primeiro é necessário reconhecer o calor extremo como risco à saúde pública e fortalecer a capacidade dos serviços em responder à forte temperatura, ampliando o monitoramento.

“O que o Rio de Janeiro fez, de ter um sistema de alerta ao calor, comunicar à população e integrar dados meteorológicos aos de saúde foi muito bom. Além disso, priorizar esses grupos que o nosso estudo apontou como mais vulneráveis”, diz Beatriz Oliveira.

Para ela, a resposta aos eventos é coletiva e envolve as três instâncias de governo, além da população.

“O serviço da ponta é a atenção primária, a porta de entrada do serviço público que atende hoje mais de 70% de uma população que depende exclusivamente do SUS. Também existe a questão individual, de reconhecer o risco para a saúde humana.”

Isso envolve a comunicação com a população para que ela possa aumentar a ingestão hídrica, procurar lugares mais ventilados e proteger especialmente idosos, crianças e doentes crônicos.


T LB

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