Quinta-feira, 18/06/26

Operação mira políticos suspeitos de ligação com facção TCP no Rio

Operação mira políticos suspeitos de ligação com facção TCP no Rio
Operação mira políticos suspeitos de ligação com facção TCP no – Reprodução

Uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio de Janeiro cumpre, nesta quinta (18), 14 mandados de busca e apreensão contra agentes públicos suspeitos de envolvimento com o TCP (Terceiro Comando Puro), facção apontada como a segunda maior organização do tráfico de drogas do estado.

A investigação apura a atuação de políticos e ex-agentes públicos que teriam utilizado seus cargos e influência para beneficiar interesses do grupo criminoso, como o atraso na demolição de resorts que seriam ligados a traficantes.

Entre os alvos está o deputado estadual Val Ceasa (PRD). Também são investigados o ex-vereador do Rio Ulisses Marins (União Brasil) e um ex-assessor parlamentar, atualmente funcionário de uma empresa pública de energia.

Deputado estadual Val Ceasa – Foto: Reprodução

Segundo as apurações, os investigados teriam procurado integrantes da Polícia Militar para obter informações sobre uma operação sigilosa destinada à demolição de imóveis utilizados pelo TCP em Parada de Lucas, região que integra o Complexo de Israel, principal reduto da facção na zona norte do Rio.

O Complexo de Israel, formado por cinco comunidades, é a base dos traficantes autointitulados evangélicos que, segundo investigações da polícia, utilizam do narcopentecostalismo para expansão territorial.

De acordo com a investigação, os suspeitos teriam utilizado a influência dos cargos públicos para tentar impedir a ação policial, alegando que os imóveis eram destinados à prestação de serviços sociais. A interferência gerou atrasos na demolição.

Entre os imóveis que seriam demolidos estava o resort atribuído ao traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, apontado como líder do TCP. Localizado em uma área de preservação ambiental em Parada de Lucas, o complexo possuía piscinas, monte de oração, sauna, pedalinhos e um lago com carpas. Segundo a investigação, os agentes públicos atuaram para tentar evitar a demolição do local. A derrubada ocorreu em março de 2025, após ser suspensa em data anterior.

Os mandados são cumpridos em endereços na capital fluminense, incluindo a Assembleia Legislativa do Rio, e no Espírito Santo. Durante as buscas desta quinta, agentes apreenderam cerca de R$ 166 mil em espécie na residência de Val Ceasa. De acordo com os investigadores, aproximadamente R$ 150 mil foram encontrados em outros endereços ligados ao parlamentar.

Na entrada da Alerj, Val Ceasa comentou as acusações e negou qualquer relação com o empreendimento. “Já fui a batalhão para pedir liberação de Carnaval, de festa junina, mas nunca vi esse tal resort. Não conheço. Eu trabalho para os humildes”, afirmou.

O deputado também disse ter procurado o então prefeito Eduardo Paes (PSD) para sugerir que fosse construída uma Vila Olímpica na área onde funcionava o resort demolido.Questionado sobre uma faixa instalada em frente ao local dias antes da demolição, que exibia seu nome e mencionava a existência de um suposto projeto social no resort, Val Ceasa interrompeu a entrevista e deixou o local.

Em nota, a Alerj informou que acompanha a operação. “A Casa reforça seu compromisso com a transparência e coloca-se à disposição para prestar toda a colaboração necessária ao andamento das investigações. A Alerj reitera que atua com austeridade e compromisso com o povo fluminense”, afirmou.

A Prefeitura do Rio também se manifestou. Em nota, informou que o ex-vereador Ulisses de Almeida Marins não integra os quadros de servidores municipais. Segundo a administração municipal, atos publicados em 10 de novembro de 2025 para sua nomeação foram tornados sem efeito em 17 de novembro do mesmo ano, após análise da Secretaria Municipal de Integridade, que reprovou a indicação.

A operação é realizada por policiais da Ciaf (Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro) e por integrantes da Coordenadoria de Segurança e Inteligência da Promotoria.

Entre os principais elementos reunidos pelos investigadores está a suposta interferência em uma operação policial sigilosa realizada em dezembro de 2023 para demolir o resort de Peixão.

Val Ceasa e o então vereador Ulisses Marins foram ao 16º BPM para questionar o comando da unidade sobre a ação, segundo depoimento do então comandante, que afirmou ter se recusado a passar informações sigilosas.

Pouco depois da visita, os imóveis passaram por alterações para aparentar finalidade social. Faixas instaladas nos locais citavam uma suposta parceria entre Val Ceasa, Ulisses Marins e a deputada federal Dani Cunha (PL) em projetos como a Colônia de Férias do Projeto de Deus Kids, iniciativa que, segundo a prefeitura, não possuía registro oficial. A deputada negou na época parceria com os outros políticos e não é investigada na ação desta quinta.

O nome da deputada, que é filha do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos), é citado no depoimento do secretário de Segurança Urbana do Rio, Brenno Carnevale. Ele afirmou que foi procurado por Marins em dezembro de 2023.

Segundo ele, Marins relatou que traficantes da região teriam procurado Dani Cunha e o deputado estadual Val Ceasa para solicitar apoio à implantação de projetos sociais em áreas sob influência do grupo criminoso. De acordo com o relato, os parlamentares teriam contribuído para a criação e execução dessas iniciativas.

Relatórios de inteligência mencionam pichações em bairros como Brás de Pina, Penha e Olaria que associavam o nome de Val Ceasa à facção e ao traficante Peixão. Além disso, assessores e ex-assessores do parlamentar aparecem ligados a investigações e, alguns, têm antecedentes criminais por ligação com o TCP.

Foto: Divulgação / MPRJ

Embora Val Ceasa tenha declarado à Justiça Eleitoral patrimônio próximo de R$ 1 milhão em 2022, os investigadores identificaram operações imobiliárias e construções que ultrapassariam R$ 13 milhões.

Também foram encontradas aquisições de imóveis de alto padrão na Barra da Tijuca e no Recreio dos Bandeirantes, zona sudoeste do Rio, com valores declarados abaixo dos praticados no mercado.

As investigações ainda apontam um desempenho eleitoral considerado atípico. Análises georreferenciadas indicam que a votação de Val Ceasa se concentra de forma expressiva em seções eleitorais localizadas dentro ou perto das áreas dominadas pelo TCP no Complexo de Israel. Segundo os investigadores, em algumas dessas localidades o deputado e Ulisses Marins registraram desempenho muito superior ao de outros candidatos, tornando-se os principais beneficiados eleitoralmente na região.

Em depoimento durante a investigação, Val Ceasa afirmou não possuir projetos sociais na localidade e declarou que raramente visitava Parada de Lucas. No entanto, os investigadores encontraram publicações em suas redes sociais que demonstrariam visitas frequentes à região. Além disso, a justificativa apresentada por ele ao comando do batalhão durante a operação de demolição era de que os imóveis demolidos seriam utilizados em ações sociais ligadas ao seu trabalho.

T LB

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