ALERTA
Após perder o marido para a ludopatia, Raquel Negrão afirma que dependência em bets vai além da falta de controle e defende que o tratamento exige ajuda da família e de profissionais
“Não é só ter força de vontade”, diz viúva de policial ao falar sobre vício em bets (Foto: Arquivo Pessoal/Raquel)
A viúva do policial militar Danilo Lopes Negrão, que morreu em 2023 após desenvolver vício em bets, voltou a falar sobre a perda do marido. Segundo a enfermeira Raquel Maria de Oliveira Negrão, o marido contraiu uma dívida de R$ 1 milhão em razão dos jogos. Segundo ela, abandonar o vício vai muito além da força de vontade. Em entrevista ao Mais Goiás, a mulher afirmou que a dependência altera o comportamento da pessoa e que vencer a ludopatia – vício em jogos de azar e apostas- exige apoio da família e tratamento especializado.
“Muita gente fala que é só não entrar no jogo, que é só ter cabeça. Mas esses jogos são feitos para manipular as pessoas. Ele começa fazendo você ganhar dinheiro, várias apostas, para depois começar a tirar tudo. Você entra naquele ciclo porque acha que vai ganhar na próxima aposta. Daí não consegue mais parar, não consegue mais sair disso”, relatou.
Ela afirma que o marido começou com as apostas na Copa do Mundo de 2022, mas só descobriu quando ele já estava emocionalmente abalado. Mesmo depois de a família oferecer apoio, Danilo dizia que havia parado, mas continuava apostando escondido.
A viúva só descobriu a dimensão do problema após a morte do marido. Segundo ela, Danilo acumulou uma dívida próxima de R$ 1 milhão ao pegar empréstimos em bancos, com amigos, familiares e agiotas para continuar apostando. Além da perda, ela precisou enfrentar cobranças de credores e ainda responde a processos judiciais relacionados aos débitos deixados pelo policial.
“Ele me chamou para uma conversa muito ansioso, muito eufórico, pedindo ajuda porque já queria fazer besteira. Foi a primeira vez que eu soube que ele estava jogando. Eu nem sabia que tipo de jogo era. Ele foi ficando uma pessoa muito ansiosa, dispersa, depressiva. Foi perdendo a vontade de viver porque não conseguia parar. A gente ofereceu ajuda, mas ele dizia que tinha parado. Era mentira. Ele queria continuar jogando e foi perdendo tudo”, explica.
Outros relatos
Desde que decidiu compartilhar sua história nas redes sociais, Raquel passou a receber mensagens de pessoas que vivem a mesma situação. Segundo ela, muitos escondem o problema por vergonha e demoram a procurar ajuda.
“Tem muita gente me procurando dizendo que não tem coragem de contar para nenhum familiar. Eu sempre oriento a falar, procurar atendimento psicológico, fazer terapia, buscar apoio espiritual e da família. Não é brincadeira. Não é fácil sair disso. Todo mundo precisa ficar atento quando a pessoa fica mais introvertida, mais ansiosa, mais nervosa e passa tempo demais no celular esperando o resultado dos jogos. Esses sinais não podem ser ignorados”, reforça a enfermeira.
Alerta
O alerta de Raquel acontece em um momento em que cresce a procura por ferramentas para interromper o acesso às plataformas de apostas.
Desde o lançamento da Plataforma Centralizada de Autoexclusão, em dezembro de 2025, mais de 574 mil brasileiros solicitaram o bloqueio voluntário de suas contas em todas as casas de apostas autorizadas no país.
Para Raquel, porém, nenhuma ferramenta é suficiente se o problema continuar sendo tratado como falta de força de vontade.
“Eu não tive ninguém para me alertar. Hoje, se a nossa história servir para que outras pessoas procurem ajuda antes que seja tarde, já faz diferença”, conclui a esposa do policial.








