Domingo, 12/07/26

O silêncio que mata e a voz que liberta: a tragédia oculta que marca a primeira-dama da Paraíba

O silêncio que mata e a voz que liberta: a tragédia oculta que marca a primeira-dama da Paraíba
O silêncio que mata e a voz que liberta: a – Reprodução

  • Por Marcondes Brito, do Portal O Norte Online, parceiro do JBr na Paraíba

O protocolo político costuma exigir das primeiras-damas sorrisos medidos, acenos cordiais e discursos repletos de obviedades institucionais. Mas quando Camila Mariz Ribeiro assume o microfone, a liturgia do cargo dá lugar a um silêncio sepulcral. Um silêncio que não é de omissão, mas do puro choque de quem a escuta. Ali, diante de plateias que esperam palavras institucionais, a advogada e atual primeira-dama da Paraíba – esposa do governador Lucas Ribeiro – despeja uma verdade incômoda, guardada por quase três décadas:

“Quando eu tinha apenas 10 anos, o meu pai matou a minha mãe. E essa é a primeira vez, 26 anos depois, que eu me apresento dessa forma.”

A dolorosa memória, compartilhada por Camila em uma palestra, ganhou contornos de urgência nacional nesta sexta-feira (10). O governador Lucas Ribeiro sancionou a lei que amplia o programa estadual ‘Paraíba que Acolhe’, estendendo o amparo financeiro, psicossocial e educacional justamente a crianças e jovens que ficaram órfãos em decorrência do feminicídio. A partir de agora, a caneta do Estado alcança uma realidade que a própria primeira-dama conheceu na pele, na solidão de sua infância. Não se trata mais da esposa de um político em um evento local; trata-se da voz da principal mulher do Executivo paraibano usando a própria tragédia como um manifesto contra o crime.

Maturidade aos 10 anos

Naquele dia, o auditório ouviu em transe os detalhes de um crime que moldou a infância de uma criança no interior do estado. Camila relembrou o peso de carregar, aos 10 anos, a maturidade precoce de tentar salvar a mãe: “Minha mãe estava se divorciando do meu pai a pedido meu, porque eu não aguentava mais vê-la sofrer”.

O relato ganha contornos ainda mais assustadores quando a advogada revela a frieza com que o crime foi desenhado. O assassinato não foi um rompante, mas um ato friamente planejado. O pai arquitetou cada passo, monitorou os horários e escolheu o momento exato para o ataque. Ele foi formalmente julgado pelo crime, e a defesa chegou a alegar insanidade mental para tentar livrá-lo da pena – argumento que não prosperou diante do evidente planejamento do crime.

Para a menina de 10 anos, a sentença de abandono foi imediata. “Naquele dia, antes que aquela sexta-feira que parecia comum terminasse, eu enterrei o meu pai e a minha mãe. Minha família se desfez, eu fiquei órfã. E eu me senti abandonada, eu sou filha única”, confessou. A dor na voz da advogada ecoou na lembrança visual que o tempo nunca apagou: “Eu lembro das marcas de sangue no quarto da minha mãe até hoje”.

Com a precisão de sua formação jurídica e o corte dilacerante de quem viveu a ausência, Camila atacou o maior cúmplice desse tipo de crime: a conivência social, o isolamento e a cultura do “não se meter”. “Foi esse silêncio que impediu que a vida da minha mãe fosse poupada. Foi por pelo não falar, pelo não tocar no assunto, que a vida de Sílvia não pôde ser preservada. Porque afinal, só eu sabia o que passava dentro da minha casa, só eu presenciava aquilo que acontecia e que não foi um fato isolado, mas o resultado de uma prática de muitos anos”, desabafou.

O relato atinge o ápice dramático ao dividir o sofrimento com a geração que teve que recolher os pedaços daquela infância interrompida: “Se você acha que para mim foi difícil, imagine pra minha avó, que teve que segurar o corpo da filha quando nada mais podia ser feito”.

Camila com o marido Lucas Ribeiro, no dia de sua posse como Governador da Paraíba

Da dor pessoal à política de Estado

O caso de Sílvia Mariz Fernandes, ocorrido no final dos anos 1990, ecoa nas estatísticas monstruosas que o país ostenta até hoje. Dados levados pela própria primeira-dama ao debate apontam que 1.492 brasileiras perderam a vida em apenas um ano — vítimas de homens que decidiram deliberadamente arrancar o véu de suas vidas sem chance de defesa.

Para o cenário político e social brasileiro, o posicionamento de Camila Mariz e a ação do governo estadual neste dia 10 representam um divisor de águas. Ao transformar o trauma que a fazia se afastar de eventos sociais na juventude em combustível para ações concretas, ela desafia frontalmente a omissão coletiva. Uma dessas principais frentes é o programa estadual “Antes que Aconteça”, focado em combater a violência na raiz.

Essa iniciativa estadual, inclusive, reflete uma vitória legislativa nacional: o projeto “Antes que Aconteça” (PL 6.674/2025) é de autoria da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB) – que vem a ser mãe do governador Lucas Ribeiro e sogra de Camila. Sancionada como a Lei nº 15.398 em abril de 2026, a proposta instituiu uma política pública nacional unindo educação, saúde e segurança para prevenir o feminicídio, transformando a causa em uma sinergia de propósitos dentro da própria família da primeira-dama.

Ao sancionar a nova lei estadual de amparo aos órfãos, o governador Lucas Ribeiro fez questão de pontuar o peso da vivência familiar nessa decisão: “Conhecendo essa realidade de perto, enviamos à Assembleia Legislativa essa alteração na lei, que foi aprovada e agora sancionamos. Não podemos permitir que crianças e adolescentes fiquem sem assistência e sem o apoio do Estado em um momento de tanta dor. Ao mesmo tempo, seguimos fortalecendo nossas ações permanentes de enfrentamento à violência contra a mulher”.

Ao lado do marido, Camila endossou o impacto da medida com a autoridade de quem sabe exatamente o que significa o dia seguinte à tragédia: “Sei que nenhuma lei é capaz de apagar essa dor ou suprir essa ausência. Mas também sei que o acolhimento e a presença do Estado fazem a diferença na vida de quem fica. Essas crianças terão apoio para permanecer na escola, cuidar da saúde e contar com um auxílio financeiro para reconstruir sua história com mais dignidade e proteção”.

A frase que encerrava suas palestras agora ganha força de realidade prática no estado: “Ninguém quer se meter em briga de marido e mulher. A grande verdade é essa. Mas para a gente construir o futuro que a gente deseja, a gente precisa tomar uma atitude. A violência um dia calou minha mãe para sempre, mas é por causa desse silêncio onde a dor encontrou o propósito que eu estou aqui”, conclama.

A história da primeira-dama da Paraíba é um alerta que sai do Nordeste e bate às portas da capital federal: o feminicídio não escolhe classe social, não poupa infâncias e só prospera onde o silêncio impera. Ao romper o seu, e ao transformar sua dor em amparo legal para os órfãos de hoje, Camila Mariz convoca o país a fazer o mesmo. Antes que a próxima mãe seja calada.

T LB

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