Terça-feira, 21/07/26

Entidade vê escassez de ácido usado na adição de flúor à água e estuda importação

Entidade vê escassez de ácido usado na adição de flúor à água e estuda importação
Entidade vê escassez de ácido usado na adição de flúor – Reprodução

A Aesbe (Associação das Empresas de Saneamento Básico) vê risco de desabastecimento de ácido fluossilícico nos próximos meses, após a fabricante de fertilizantes Mosaic interromper o fornecimento do insumo. O produto é usado por companhias de saneamento no processo de adição de fluoreto à água.

Sem o produto, a água continua própria para consumo, mas deixa de receber a fluoretação usada para prevenção de cáries.

O ácido fluossilícico é um subproduto da produção de fertilizantes à base de fosfato. A Mosaic sofreu um baque após a escalada do preço do enxofre, que serve como matéria-prima nessa produção, em meio aos conflitos no Oriente Médio e ao fechamento do estreito de Hormuz.

Munir Abud, diretor-presidente da Cesan (Companhia Espírito-Santense de Saneamento) e presidente da Aesbe (Associação das Empresas de Saneamento Básico), afirma que as empresas estão buscando no mercado internacional substitutos para o fornecimento.

O problema, segundo Abud, é que os efeitos do encarecimento do enxofre também alcançaram outros países, o que torna mais difícil a procura por um novo fornecedor.

“A tendência é que, com o passar do tempo, uma falha numa entrega dessa [de ácido fluossilícico] pode gerar, de uma forma ou de outra, a suspensão da aplicação do produto na produção da água. Só que nós temos um embargo aí, que é uma lei federal que obriga a inclusão do flúor na água”, diz Abud.

Abud diz que a entidade solicitou ao Ministério da Saúde uma reunião para debater o tema. Além disso, a associação enviou um ofício ao Ministério da Saúde pedindo apoio para “evitar penalização dos serviços de abastecimento de água”. Abud afirma que a Aesbe fará reunião com a pasta nesta semana.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Saúde disse que o acesso à água fluoretada é uma determinação da lei federal 6.050, de 1974. “O método é recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), e estudos apontam que a medida reduz em cerca de 50% a prevalência de cáries na população”, escreveu a pasta em nota.

O ministério não respondeu à reportagem sobre o pedido da Aesbe para a realização de uma reunião para discutir o tema.

A Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) disse ter pedido ao Ministério da Saúde a suspensão da fluoretação da água por tempo determinado. Christianne Dias, diretora-presidente da entidade, diz que a situação vem se agravando e que as companhias estão consumindo as reservas dos estoques de ácido fluossilícico.

“O pedido [de suspensão da fluoretação] tem base na própria lei que criou a obrigação de fluoretação da água, em 1974, e que sempre condicionou a medida à viabilidade técnica e econômica”, diz.

A BRK, que presta serviço de abastecimento de água e gestão de esgoto a mais de cem municípios brasileiros, disse à reportagem que aderiu neste mês a uma compra emergencial de ácido fluossilícico, por meio de importação do insumo, junto à fornecedora GR Water Solutions.

A empresa afirmou em nota que a medida busca reforçar os estoques do insumo utilizado na fluoretação da água. “Neste momento, a companhia segue monitorando o cenário em suas operações e avaliando as alternativas disponíveis”, escreveu a companhia em nota.

A Equatorial, que é investidora de referência da Sabesp e da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), disse que não se manifestará sobre o tema.

A Sabesp disse à reportagem que não há, neste momento, impacto no processo de fluoretação da água.

Segundo a companhia, há estoques do insumo em níveis adequados para a continuidade de suas operações.

“Diante de restrições observadas no mercado fornecedor de ácido fluossilícico, a Sabesp acompanha permanentemente a situação e avaliará medidas preventivas para reforçar a segurança do abastecimento”, afirmou a empresa em nota.

PREÇO DO ENXOFRE NÃO DEVE BAIXAR, DIZ CONSULTORIA

De acordo com a consultoria Argus, os preços de enxofre atingiram o patamar de US$ 800 a US$ 900 por tonelada fob (livre de custos de frete ou seguro) do Oriente Médio em 16 de julho, um aumento de 72% na comparação com o início de março.

Jasmine Antunes, especialista em precificação de enxofre na Argus, afirma que o fornecimento de enxofre do Oriente Médio representa cerca de 50% do mercado marítimo global.

“O novo fechamento do estreito de Hormuz deve continuar causando interrupções no comércio de enxofre do Oriente Médio no curto prazo. Muitos compradores estão com estoques baixos de enxofre e alguns optaram por vender enxofre ou ácido sulfúrico para melhorar suas margens.”, afirma.
Segundo Antunes, não há expectativa de queda dos preços do enxofre no curto prazo.

T LB

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