Sexta-feira, 31/07/26

Dólar vai a piso desde 2 de junho com exterior e relatos de fluxo para Brasil

Dólar vai a piso desde 2 de junho com exterior e relatos de fluxo para Brasil
Dólar vai a piso desde 2 de junho com exterior – Reprodução

São Paulo, 30 – O dólar à vista fechou em queda de 0,93%, a R$ 5,0611 (mínima da sessão), acompanhando a perda de força da moeda americana globalmente. A declaração considerada mais dovish do presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, realizada ontem, segue reverberando e ganha até mais força após o núcleo do índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos abaixo do esperado.

Com a Bolsa renovando sucessivas máximas ao longo do pregão e subindo 1,8%, puxada principalmente por ações blue chips, também há relatos de ingresso de investidores estrangeiros para o Brasil nesta quinta-feira, 30, beneficiando o real.

Às 17h, o dólar futuro para agosto cedia 1,07%, a R$ 5,0660, enquanto o índice DXY, que mede a divisa americana contra seis pares fortes, recuava 0,93% – pressionado principalmente pela valorização do iene. A moeda japonesa ganha força diante de possível intervenção cambial e antes da decisão de política monetária do Banco do Japão (BoJ).

O especialista em câmbio da Manchester Investimentos, Nicolas Gomes, avalia que o dólar depreciando globalmente é puxado pelo núcleo de PCE abaixo do esperado, que não corrobora tanto com a decisão divergente de três membros do Fed de votarem por aumento da taxa de juros já na reunião de ontem. “Mercado vendo núcleo do PCE entende que não faz sentido aumentar os juros, então o dólar se deprecia frente a principais moedas”, afirma.

O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos caiu 0,1% em junho ante maio, segundo pesquisa divulgada hoje pelo Departamento do Comércio. Na comparação anual, o PCE avançou 3,7% em junho.

O núcleo do PCE, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, avançou 0,1% em junho ante maio, abaixo da expectativa de analistas da FactSet de 0,2%.

“O real está reagindo a um DXY mais fraco no mundo. Tem um certo rescaldo da decisão e das falas do Warsh, que foram percebidas pelo mercado como mais dovish, sem uma intenção de subir juros no horizonte mais curto”, afirma a CEO e economista-chefe da Buysidebrazil, Andrea Damico. Ela nota que, na esteira, o mercado reagiu com fechamento dos juros curtos, abertura dos longos e enfraquecimento do dólar.

O especialista Ian Lopes, da Valor Investimentos, destaca que havia um certo temor do mercado de que o Fed já decidisse aumentar os juros na reunião de ontem, mas como isso não aconteceu e as taxas dos Fed Funds seguiram na banda atual, os investidores reagem com um dólar em baixa, enquanto aguardam algum desdobramento quanto às tensões no Oriente Médio. Apesar da manutenção dos ataques bélicos entre Estados Unidos e Irã, o petróleo Brent para outubro fechou em queda de 1,37%, a US$ 86,88.

Como pano de fundo, Gomes, da Manchester, nota que o fato de a Bolsa estar renovando máximas hoje, principalmente a partir da alta de ações blue chips, preferência dos investidores estrangeiros, indica uma pressão compradora do real.

Bolsa

O Ibovespa fechou em alta firme nesta quinta-feira, 30, mais que devolvendo a queda de ontem, embalada pela melhora geral do sentimento de risco nos mercados globais, de volta aos 177 mil pontos. Os relatos nas mesas de renda variável foram de retomada do fluxo de compras de estrangeiros, o que favoreceu as blue chips e também ajudou a fortalecer o real.

O apetite ao risco não só enfraqueceu o dólar ante as demais moedas, como também estimulou o avanço das ações na Europa e em Nova York, animando a Bolsa por aqui. O Dow Jones encerrou com alta de 1,19%, o S&P 500 teve valorização de 1,67% e o Nasdaq, de 2,78%.

A economista-chefe da B.Side Investimentos, Helena Veronese, explica que os mercados passaram por um alívio no risco de aperto monetário pelo Federal Reserve, depois que a inflação medida pelo índice de preços dos gastos com consumo (PCE, em inglês) de junho veio em linha com as previsões.

“A mesma coisa que derrubou os índices ontem hoje ajudou”, afirma, lembrando que ontem o discurso do presidente do Fed, Kevin Warsh, e os votos dissidentes de três diretores por um aumento do juro trouxeram cautela à expectativa para a política monetária nos EUA.

Sobre o índice PCE, Veronese pondera que “um único dado” não dissipa todas as preocupações sobre a inflação, mas deu um pouco de tranquilidade de que o Fed pode não ser tão duro. “Não é que o cenário lá está tranquilo, mas foi um bom dia seguinte.”

Ao mesmo tempo, no Brasil, o mercado vai ampliando as apostas de queda da Selic a partir de dados de inflação mais benignos, o que respalda ganhos principalmente das ações cíclicas, que hoje figuravam na lista das maiores altas, entre elas Cogna ON (+5,48%), Magalu ON (+5,46%) e Cury ON (+5,37%).

Na esteira do IPCA-15 de julho na terça-feira, hoje o mercado teve outra boa notícia da inflação, com a queda de 1,16% do IGP-M de julho, mais intensa do que apontava a mediana da pesquisa Projeções Broadcast (-1,03%). “Não há duvida de que Selic vai cair na semana que vem”, diz a economista.

A melhora das expectativas para juros nos EUA e no Brasil atraiu fluxo para os carros-chefe do Ibovespa, como commodities e setor financeiro, segundo Veronese.

Merece destaque o desempenho dos bancos, que ontem tinham respondido pela maior parte das perdas do índice, puxadas pelo tombo de mais de 7% das Units do Santander. Itaú Unibanco PN subiu 2,20% e BB ON, +1,97%.

Os papéis relacionados a commodities avançaram e ajudaram a garantir a trajetória positiva da Bolsa. Petrobras ON e PN fecharam em alta de 2,19% e 2,00%, descoladas da queda dos preços do petróleo, em razão não somente do fluxo externo, mas também pela perspectiva favorável de que o reservatório do campo de Morpho, na bacia da Foz do Amazonas, na Margem Equatorial, seja alcançado nas primeiras semanas de agosto.

Vale ON subiu 1,39%, tendo superado ao longo da sessão a queda dos preços do minério de ferro e a influência negativa do balanço da Rio Tinto. A empresa divulga balanço hoje após o fechamento do mercado.

O Ibovespa encerrou em alta de 1,88%, aos 177.158,86 pontos, na máxima. Na mínima, marcou 173.885 pontos, estável. Na semana, acumula avanço de 1,79% e, em julho, de 2,98%. Em 2026, o índice sobe 9,95%. O giro financeiro da Bolsa hoje foi de R$ 22,7 bilhões.

Juros

Os juros futuros reduziram prêmios pregão desta quinta-feira, 30, mas mesmo assim a curva a termo manteve o formato inclinado observado ontem, após o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, ter provocado desconfiança no mercado.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 recuou de 13,839% no ajuste anterior a mínima intradia de 13,805%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 14,08%, de 14,197% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 registrou baixa de 14,45% a 14,355%.

O ‘steepening’ acompanhou a curva dos Treasuries, mas, segundo agentes, reflete também questões domésticas: enquanto os dados mais recentes de inflação e atividade chancelam que o ciclo de calibragem da Selic pode continuar além de agosto, as taxas longas resistem à queda, em meio à preocupação com o quadro fiscal conforme as eleições se aproximam.

Vale ressaltar, ainda, que o leilão de prefixados do Tesouro Nacional deu alguma contribuição para aliviar a curva de juros. Segundo a Warren Investimentos, o risco adicionado ao mercado ficou em US$ 357 mil, o menor desde 11 de junho, e se concentrou em títulos de curto prazo.

Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, o certame também contribuiu com a perda de fôlego dos juros futuros. “O leilão foi pequeno em risco (DV01). Bem abaixo da média do ano”, observou.

Para João Freitas, estrategista de investimentos do Santander, o mercado de renda fixa local seguiu, em parte, a descompressão dos retornos dos Treasuries mais curtos, na esteira de mais um dado de inflação benigno dos Estados Unidos. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, em inglês) caiu 0,1% em junho ante maio e avançou 3,7% na comparação anual.

Os dois dados ficaram dentro do previsto, mas o núcleo do PCE surpreendeu para baixo, ao aumentar também 0,1%, ante expectativa de 0,2% do consenso de mercado. “A decisão do Fed ontem pode ter sido um susto grande, e o discurso de Warsh deu mais sinais mistos, mas depois o mercado se acalmou um pouco com o PCE”, apontou.

Mais do que apenas replicar a tendência global, porém, Freitas avalia que indicadores domésticos – com destaque para o IPCA-15 de julho, que subiu apenas 0,06% – desenham um quadro propício à continuidade do ciclo de baixa da Selic, o que tem sido incorporado à curva de juros. Segundo cálculos do banco Bmg, a curva a termo apontava hoje 100% de chance de corte de 0,25 ponto do juro básico em agosto, e divisão das apostas entre manutenção e nova redução em setembro (50% para cada cenário).

“Algumas semanas atrás o mercado estava preocupado com a possibilidade de que a Selic não caia mais no ano, com o piso em 14,25% ou 14%, mas os últimos dados voltaram à dar esperança de que pode ter mais espaço para a queda. Por isso, a ponta curta tem caído e a curva tem ganhado inclinação”, apontou Freitas, do Santander.

Com efeito neutro sobre a curva, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, mostrou que a taxa de desemprego caiu a 5,4% no trimestre encerrado em junho, no menor patamar da série histórica do levantamento, iniciado em 2012. O dado ficou exatamente em linha com as estimativas colhidas pelo Projeções Broadcast. ” A mensagem que os dados da Pnad trazem segue a mesma dos últimos meses: o mercado de trabalho brasileiro continua aquecido, apesar de alguma moderação no crescimento da renda”, disse Claudia Moreno, economista do C6 Bank.

Em segundo plano hoje, o petróleo em queda ao redor de 1% também deu suporte ao alívio nos DIs, com foco nas negociações entre Irã e Omã sobre a gestão do Estreito de Ormuz, em detrimento da continuidade dos ataques no Oriente Médio.

Estadão Conteúdo

T LB

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