Segunda-feira, 03/08/26

Unifesp identifica resíduo compatível com sangue no DOI-Codi/SP

Unifesp identifica resíduo compatível com sangue no DOI-Codi/SP
Unifesp identifica resíduo compatível com sangue no DOI-Codi/SP – Reprodução

Pesquisadores identificaram resíduos compatíveis com sangue em áreas do antigo DOI-Codi de São Paulo, um dos principais centros de repressão da ditadura militar brasileira. Em um banheiro do terceiro andar, a equipe também localizou um calendário gravado sob sucessivas camadas de tinta e reparos.

A pesquisa é coordenada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e combina arqueologia, análise do edifício e técnicas das ciências forenses para examinar espaços historicamente associados a detenções, interrogatório e tortura. O trabalho integra um projeto interinstitucional com pesquisadores da Unifesp, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com participação da UFSC e da USP.

Os resultados obtidos em uma antiga enfermaria e em salas de interrogatório levaram à identificação de resíduos hemáticos. Em uma das amostras, coletada em uma antiga sala de interrogatório, a sala 7, um teste confirmatório apresentou resultado positivo para sangue humano.

As análises laboratoriais não permitiram determinar quando o material foi depositado, nem foi possível recuperar perfis de DNA, provavelmente em razão da degradação das amostras, das condições ambientais e das sucessivas reformas realizadas no edifício. Já o contexto arqueológico permitiu associar os vestígios ao período de funcionamento do DOI-Codi/SP, embora sem vinculá-los a uma pessoa ou episódio específico.

Outro resultado da investigação surgiu em um banheiro do terceiro andar. Sob diferentes camadas de tinta e reparos, a equipe encontrou números e inscrições gravados diretamente na parede, interpretados pelos pesquisadores como um calendário, com marcações correspondentes aos dias 23 a 31 de outubro e 1º a 4 de novembro.

Segundo os pesquisadores, o calendário constitui uma marca material da experiência do encarceramento e da tentativa de manter a percepção do tempo no interior do espaço repressivo. A relação entre as datas registradas e os dias da semana indicou inicialmente duas possibilidades para a produção do calendário: 1970 e 1981. A ambiguidade foi resolvida pelo cruzamento com o testemunho de uma ex-presa política, que declarou ter visto a inscrição quando esteve detida no local, em 1971, permitindo atribuir o calendário a 1970.

Localizado na Rua Tutóia, na zona sul da capital paulista, o complexo do DOI-Codi/SP reunia celas, salas de interrogatório, espaços administrativos, estruturas de vigilância e ambientes utilizados para tortura. Segundo a Unifesp, pelo menos 52 mortes ocorridas no local são oficialmente reconhecidas, e mais de 7 mil pessoas passaram pelo DOI-Codi/SP durante seu período de funcionamento.

O edifício onde a pesquisa se concentra, denominado prédio 2-a, abrigava o setor de inteligência do órgão e foi identificado por sobreviventes como um dos principais espaços de interrogatório e tortura do complexo. Para definir os pontos de investigação, a equipe combinou documentos históricos, testemunhos e a análise das transformações ocorridas no edifício.

A primeira etapa do projeto, realizada em 2022, utilizou radar de penetração no solo e escaneamento tridimensional do complexo. Em agosto de 2023, foram conduzidas escavações, prospecção nas paredes e nos pisos, análises forenses e atividades abertas ao público. A retirada de revestimentos mais recentes também revelou, em alguns ambientes, o contrapiso de madeira utilizado durante o funcionamento do DOI-Codi/SP.

Com informações da Agência Brasil

T LB

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