JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS
Após chamar de “inaceitável” a situação em Ceuta, tomada por dezenas de milhares de imigrantes na semana passada, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, pregou mais colaboração com a Espanha e mais recursos ao Marrocos.
O esforço de estabilização ocorreu nesta segunda-feira (3), após um fim de semana de cotoveladas públicas entre integrantes do bloco. Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, havia pedido mais solidariedade aos colegas e lembrou que seu país, nos últimos cinco anos, recebeu menos da metade de imigrantes em comparação com a Itália (234.760 contra 478.600).
Buscava conter uma onda planetária de desinformação e uma ofensiva política e diplomática capitaneada por sua homóloga italiana, Giorgia Meloni. A gestão da primeira-ministra propôs a exclusão da Espanha do Espaço Schengen, o acordo de livre circulação do continente, e depois unilateralmente impôs restrições entre os países.
Oportunista ou não, a ação de Meloni se traduziu em uma carta assinada por 22 dos 27 líderes da União Europeia pedindo uma reunião de emergência e uma resposta mais dura e coordenada para a crise. Nas entrelinhas, uma crítica à política imigratória espanhola, que supostamente estaria incentivando a entrada de imigrantes irregulares no bloco.
A pedido dos dois lados da disputa, um encontro entre ministros do Interior foi marcado para esta terça-feira (4), precedido por uma reunião de embaixadores na véspera -uma praxe do bloco para tentar arredondar pontos de convergência e prevenir ou amenizar atritos.
Ainda que Von der Leyen, no cargo há quase sete anos, tenha tentado com sua manifestação guiar a pauta, a expectativa para o diálogo não é positiva.
Segundo analistas, Meloni deve emplacar a liberação rápida de centros de detenção terceirizados, como o que construiu na Albânia para logo ser proibido pela Justiça italiana e depois pela europeia. Um pacote recém-aprovado sobre imigração recrudesceu diversos aspectos do controle no continente, prevendo inclusive esse tipo de instalação.
Apenas isso não explica, no entanto, a posição intransigente de Meloni, ainda mais depois do apoio espanhol à crise enfrentada pela primeira-ministra em Lampedusa, em 2023. Mais de 10 mil imigrantes alcançaram a ilha italiana que, diferentemente de Ceuta e de Melilla, outro exclave espanhol no Marrocos, é território Schengen.
Também não ajuda na argumentação o propalado efeito do programa de regularização de imigrantes em curso na Espanha. O projeto já recebeu mais de um milhão de inscrições, mas beneficia sobretudo latino-americanos e exclui peremptoriamente quem entrou de forma ilegal no país.
O que sobra na imprensa europeia nestes últimos dias é a lembrança de que Meloni começa a se preparar para as eleições parlamentares de 2027 em um momento de popularidade contestada. Além de derrotas legislativas recentes, vê no horizonte o crescimento de um adversário, o militar Roberto Vannacci, com discurso mais radical à direita.
Para o ex-general, a solução é deportação em massa, algo que Meloni, no cargo, não pode prometer muito menos executar. Atacar Sánchez, por outro lado, é um ato político que está à mão e ainda traz o bônus de incomodar a esquerda italiana, para a qual o premiê espanhol é uma referência.
Chama atenção no episódio não apenas a aderência de outros líderes legitimamente interessados no tema, como Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, que, apesar de sua origem de centro-esquerda, conduz uma das mais duras políticas anti-imigratórias do continente.
Voaram para as redes sociais todos aqueles que o presidente francês, Emmanuel Macron, chama de internacional reacionária.
Além de Donald Trump, desafeto confesso de Sánchez, e seu vice, J. D. Vance, criticaram o espanhol figuras como o presidente argentino, Javier Milei, e o ministro de Segurança Nacional de Israel, o extremista Itamar Ben-Gvir.
Danny Danon, embaixador de Israel para a ONU, foi ainda mais longe e pediu para a Espanha aproveitar a polêmica para responder “porque ainda mantém colônias na África”. O conceito, segundo historiadores, não se aplica a Ceuta e Melilla, cuja existência remonta ao fim do século 15.
Em Londres, nesta segunda-feira, foi a vez de Nigel Farage, líder da ultradireita britânica, aproveitar o embalo para prometer, caso um dia eleito, a “maior operação no Canal da Mancha desde a Segunda Guerra” para coibir a chegada de imigrantes ilegais.
As imagens da “inaceitável invasão” de Ceuta vieram a calhar. Pressionado por uma onda de escândalos no Reino Unido, o Reform UK, a sigla de Farage, pela primeira vez em meses aparece atrás nas pesquisas de opinião. O Partido Trabalhista de Andy Burnham, o novo premiê, voltou à liderança.








