Quarta-feira, 05/08/26

Especialistas alertam para riscos da expansão de data centers de IA

Especialistas alertam para riscos da expansão de data centers de IA
Especialistas alertam para riscos da expansão de data centers de – Reprodução

Especialistas ouvidos em audiência pública nesta terça-feira (4), na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT), alertaram para os riscos da expansão de data centers de inteligência artificial no Brasil. Entre os pontos citados, estiveram impactos ambientais, alto consumo de água e aumento do custo da energia para o consumidor.

O debate foi realizado para subsidiar a análise do PL 3.018/2024, que estabelece regras para a instalação e o funcionamento de centros de dados de IA. A audiência foi requerida pelos senadores Teresa Leitão (PT-PE) e Rogério Carvalho (PT-SE), com o objetivo de ampliar a discussão já iniciada em outra reunião pública, incluindo especialistas e representantes de consumidores, de organizações ambientais e de comunidades indígenas.

Ao abrir a sessão, Teresa Leitão afirmou que a diversidade de participantes contribui para um debate qualificado e para o aperfeiçoamento da análise legislativa. O projeto, de autoria do senador Styvenson Valentim (Podemos-RN) e relatado por Vanderlan Cardoso (PSD-GO), está em análise na comissão.

Entre as preocupações levantadas, o diretor-executivo do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Igor Britto, disse que os data centers de IA têm alto consumo de energia elétrica e não conseguem adaptar suas atividades aos horários de menor demanda. Segundo ele, isso exige novos investimentos no sistema elétrico e pressiona a tarifa paga por todos os consumidores. O Idec defendeu a criação de um encargo adicional para setores de alto consumo energético, com cobrança calculada pela Aneel.

O impacto sobre o uso da água também foi apontado na audiência. A diretora do Instituto Latinoamericano de Terraformación, Paz Peña, disse que muitas instalações estão em áreas com estresse hídrico, em competição com o consumo humano e com pressão sobre aquíferos. Ela sugeriu que o Estado estabeleça mecanismos juridicamente vinculantes para priorizar o abastecimento humano em caso de escassez hídrica ou energética, além da possibilidade de moratórias temporárias diante de riscos graves para a água, o meio ambiente ou a saúde.

Já o diretor do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), André Lucas Fernandes, afirmou que sistemas de circuito fechado, apresentados como solução para reduzir o uso de água, elevam o gasto de energia porque dependem de grandes ventiladores funcionando continuamente para resfriamento.

O codiretor do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin), Felipe Rocha da Silva, observou que o Brasil já tem cerca de 200 data centers em funcionamento e defendeu que a lei diferencie estruturas menores, voltadas a serviços públicos e comércio, de megainfraestruturas usadas para processar dados de empresas sediadas no exterior. Para ele, é necessário distinguir os diferentes usos e propósitos para criar regras adequadas a cada modelo de negócio.

Rárisson Sampaio, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), disse que é preciso avaliar o que ficará para o país com a instalação dessas estruturas. Segundo ele, os empregos gerados em geral se concentram na fase de construção, enquanto os danos ambientais permanecem, com benefícios destinados principalmente a empresas estrangeiras, como Google e Meta.

Além do consumo de água e energia, participantes citaram calor, excesso de luminosidade e ruído intenso como outros possíveis impactos ambientais, com efeitos sobre a fauna, a flora e comunidades do entorno. O cacique Roberto Anacé, da comunidade indígena Anacé, de Caucaia (CE), criticou a falta de consulta à comunidade na construção de um data center do TikTok no Complexo Industrial e Portuário do Pecém. Ele afirmou que a empresa só ouviu os indígenas após protestos que paralisaram as obras por duas vezes.

A conselheira da organização Green Screen Coalition, Lorena Regattieri, citou a moratória de um ano para novos data centers de hiperescala adotada em julho pelo estado de Nova York, nos Estados Unidos, como exemplo para o debate. Ela defendeu mais participação social, transparência e capacidade pública de decisão sobre o tema.

T LB

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