Sábado, 15/08/26

ONG aponta ao governo 15 mil endereços do Telegram com indícios de crimes

abuso sexual infantil
ONG aponta ao governo 15 mil endereços do Telegram com – Reprodução

CLAUDINEI QUEIROZ
FOLHAPRESS


A Safernet, ONG brasileira dedicada à promoção e defesa dos direitos humanos na internet, apresentou uma representação à ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) exigindo que o Telegram seja responsabilizado por suposta omissão sistemática e facilitação de crimes graves cometidos em sua plataforma.

Baseado em um estudo que monitorou o Telegram de 2017 a 2026, o levantamento identificou quase 15 mil endereços com conteúdos criminosos, incluindo abuso sexual infantil e incentivo à automutilação.

Os dados foram retirados da íntegra do acervo do Canal de Denúncias da ONG. Ao todo, foram identificados 14.969 endereços únicos do Telegram, sendo que 8.160 deles (54,5%) já estavam inexistentes ou removidos e 4.851 (32,4%) eram convites revogados.

Os demais 1.958 endereços (13,1%) permaneciam ativos e públicos nas datas da verificação, conduzida neste mês. Entre eles, 435 convites para grupos privados ainda válidos.

E, desses 1.958, 1.093 tinham indícios de material de violência sexual contra crianças e adolescentes e 22 continham indícios de incitação a automutilação e suicídio.

Segundo a Safernet, a análise dos links publicados pelos canais ativos revelou uma rede em expansão: 468 canais do Telegram até então desconhecidos da base de denúncias foram descobertos a partir dos que sobreviveram.

O levantamento mostra um crescimento acentuado a partir de 2022 e pico histórico de denúncias em julho de 2026.

A relação completa dos endereços ativos foi entregue às autoridades da ANPD para fins de investigação.

A ONG destaca que a verificação empregou exclusivamente a camada pública de pré-visualização da plataforma com consultas via API sem autenticação, sem ingresso em grupos e sem acesso a mensagens, mídia ou dados de participantes.

Para Thiago Tavares, presidente da Safernet Brasil, o “Telegram não é apenas uma plataforma onde o abuso acontece, mas uma infraestrutura que, por sua arquitetura técnica, seu modelo de monetização e sua postura de moderação, estrutura e viabiliza a produção, a distribuição e a comercialização de material de violência sexual contra crianças e adolescentes em escala industrial”.

A denúncia teve como base o ECA Digital e o Marco Civil da Internet, que estabelecem punições rigorosas para falhas sistêmicas de moderação.

Outro ponto abordado na representação é a exposição da economia por trás de robôs de nudificação por inteligência artificial, que monetizam a violência digital por meio da infraestrutura financeira do próprio aplicativo.

PRINCIPAIS RISCOS DESTACADOS PELA ONG:

  • Violência sexual infantil em escala industrial: A pesquisa identificou 1.093 endereços ativos com indícios de material de violência sexual contra crianças e adolescentes.
  • Uso de IA para “nudificação” (deepfakes sexuais): Foram documentados robôs de nudificação que utilizam inteligência artificial para remover digitalmente roupas de fotos ou trocar rostos em cenas pornográficas. Esses sistemas geram deepfakes de crianças, adolescentes e adultos, utilizando mecânicas de gamificação para atrair o público jovem.
  • Incitação à automutilação e suicídio: Foram detectados 22 links potencialmente associados a grupos e canais que promovem a automutilação e incitam ao suicídio.
  • Monetização do crime: A pesquisa revelou uma engenharia financeira que sustenta o mercado ilegal. Ferramentas e conteúdos criminosos são vendidos via assinaturas pagas em criptomoedas ou Telegram Stars (moeda interna da plataforma). O Telegram retém uma comissão de 15% a 30% sobre esses saques, lucrando indiretamente com as transações.
  • Dificuldade de investigação e anonimato: Existem mercados paralelos de recarga que permitem abastecer contas apenas com o nome de usuário, sem verificação de identidade, o que ofusca a origem do dinheiro e dificulta o trabalho das autoridades.
  • Redes em expansão e reincidência: A análise mostrou uma rede em crescimento, com a descoberta de 468 novos canais a partir dos já existentes. Além disso, grupos removidos costumam ser recriados com o mesmo nome em questão de horas.
  • Outras atividades ilícitas: O monitoramento também identificou o uso da plataforma para zoofilia, tráfico de drogas, comércio de armas, fraudes financeiras e golpes.
    A pesquisa aponta que esses indicadores vêm se agravando, com um pico histórico de denúncias registrado em julho de 2026, que teve 587 denúncias.


T LB

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