FOLHAPRESS
O departamento do Tesouro dos EUA afirmou que dobrará o volume de suas recompras de títulos de longo prazo do governo, após uma forte onda de vendas que fez os custos de financiamento dispararem para os níveis mais altos em vários anos.
O órgão anunciou nesta quarta-feira (19) que está “aumentando, em pelo menos duas vezes, o volume das operações de recompra para dar suporte à liquidez” de títulos com vencimento entre 10 e 20 anos e entre 20 e 30 anos. As recompras de US$ 2 bilhões (R$ 10,41 bilhões) seriam agora elevadas para “pelo menos” US$ 4 bilhões (R$ 20,82 bilhões).
A medida desencadeou uma forte alta dos preços dos títulos de longo prazo dos EUA, levando o rendimento dos papéis de 30 anos a cair 0,09 ponto percentual, para 5,2%. O rendimento dos títulos de 10 anos, referência para ativos que somam trilhões de dólares em todo o mundo, recuou 0,07 ponto percentual, para 4,64%.
A decisão de ampliar as recompras ocorre em um momento de crescente tensão no mercado de títulos mais importante do mundo, enquanto investidores se preocupam com o surto inflacionário provocado pela guerra de Donald Trump no Irã e com o aumento do peso da dívida pública dos Estados Unidos.
Na terça-feira (18), o rendimento dos títulos de 30 anos chegou a quase 5,34%, o maior nível desde 2007, em um salto cujos efeitos também repercutiram pelo mundo. Papéis semelhantes no Canadá, no Japão, na Alemanha e em outros países também foram negociados com seus maiores rendimentos em pelo menos uma década.
Um leilão de títulos de 30 anos realizado na semana passada também levou investidores a comprar papéis do governo pelo rendimento mais alto desde 2001.
A alta nas taxas dos títulos públicos indica, na prática, sua desvalorização no mercado. Isso ocorre porque preço e rendimento têm relação inversa: quando os juros sobem, os preços dos papéis caem; quando os juros recuam, os títulos se valorizam.
Essa desempenho ajuda a determinar as taxas de juros de dívidas corporativas e empréstimos ao consumidor, como financiamentos imobiliários, e sua alta vem agravando as preocupações da população com o custo de vida, que ganharam força tanto nos EUA quanto no exterior. Isso representa um problema para os governantes, entre eles Donald Trump, cuja administração prometeu conter a alta dos custos em toda a economia nacional.
Investidores e economistas também temem que a enorme onda de captação de recursos por empresas de tecnologia para impulsionar o boom da IA esteja reduzindo o espaço para investimentos em títulos do governo norte-americano.
“O governo está ficando apreensivo com o trecho mais longo da curva e quer tentar conter a queda”, afirmou Daniel Murray, vice-diretor de investimentos da EFG International.
Robert Tipp, estrategista-chefe de investimentos da PGIM, avaliou que a decisão de ampliar as recompras era “um sinal importante ao mercado de que o Tesouro está preocupado com a onda de vendas no trecho mais longo da curva de rendimentos”.
O Tesouro afirmou que a medida refletia o “desejo de oferecer maior suporte à liquidez” no trecho mais longo da curva de rendimentos do mercado de dívida de US$ 30 trilhões.
Participantes do mercado esperavam que o órgão financiasse as recompras por meio da emissão de mais títulos de curto prazo. “É bem possível que vejamos mais emissões no trecho curto por razões de liquidez”, declarou James Knightley, economista-chefe internacional do ING.
“Dado o volume de emissões necessário para financiar o déficit, isso implica mais emissões no trecho curto da curva”, afirmou Murray.
Até agora, Trump não conseguiu atenuar dois dos fatores que impulsionam os rendimentos: nem adotou medidas contundentes para conter o endividamento público.
Também não encerrou rapidamente a guerra com o Irã, que vinha contribuindo para manter elevados os preços dos combustíveis e a inflação.
Um frágil cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã terminou na segunda-feira (17), reduzindo as perspectivas de reabertura do estreito de Hormuz, rota marítima crucial para o transporte de petróleo e gás do golfo Pérsico.
A alta dos rendimentos ocorre em meio a uma demanda crescente por empréstimos em todas as partes do mundo, desde governos que buscam reforçar suas forças militares até empresas de IA que estão ampliando seus centros de dados.
Há algum tempo, os investidores temem que o aumento dos gastos públicos possa levar a uma situação grave, na qual o governo ainda precise tomar dinheiro emprestado, mas os investidores não estejam dispostos ou não tenham condições de financiá-lo.
Matt Eagan, gestor de portfólio da Loomis Sayles, afirmou que “todo mundo sabe” que os gastos públicos são insustentáveis. A dívida total do governo se aproxima de US$ 40 trilhões (R$ 208,16 trilhões), uma alta de cerca de US$ 5 trilhões em dois anos.
“Você está em um ônibus chamado título de 30 anos, e há um precipício adiante, mas não sabe se ele está a 100 metros ou a 100 milhas de distância…Você espera conseguir descer do ônibus antes que ele caia. Esse é o dilema que enfrentamos”, comparou Eagan.
Quando Trump anunciou inicialmente suas tarifas, em abril do ano passado, os rendimentos dispararam. Cerca de uma semana depois, o presidente suspendeu as tarifas, após afirmar que o mercado de títulos estava ficando “arisco”.
A alta mais recente dos rendimentos tem sido mais lenta e constante, provocando menos pânico imediato. E, apesar de uma queda preocupante do mercado acionário na terça-feira, os principais índices continuam próximos de suas máximas históricas.
Ainda assim, o Tesouro dos Estados Unidos interveio recentemente para impedir o enfraquecimento da moeda japonesa, uma medida que, segundo analistas, pode ter feito parte de um esforço para evitar que o Japão vendesse suas grandes reservas de títulos do Tesouro dos EUA. Essas vendas pressionariam provavelmente os rendimentos dos títulos norte-americanos ainda mais para cima.
A administração Trump tem apontado os rendimentos dos títulos públicos como um dos indicadores de seu sucesso. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que rendimentos mais baixos dos títulos do Tesouro refletem, em parte, a confiança dos investidores nas políticas fiscais do governo. Quando os rendimentos sobem, os preços dos títulos caem, refletindo a preocupação dos investidores.
Paralelamente a intervenções pouco convencionais nos mercados estrangeiros, Bessent tem buscado limitar a pressão sobre os rendimentos dos títulos do Tesouro de prazo mais longo, transferindo grande parte das novas necessidades de financiamento do governo para títulos de curto prazo, conhecidos como “bills”, com vencimento inferior a um ano.
Outros governos ao redor do mundo adotaram medidas semelhantes.
Essa estratégia também traz riscos, pois torna os custos da dívida do país mais vinculados às taxas de juros de curto prazo controladas pelo Federal Reserve. Isso significa que qualquer aumento dos juros para combater a inflação pode vir acompanhado de uma forte elevação dos custos de financiamento do governo.
“Bessent está recorrendo a instrumentos que rompem com as práticas convencionais para reduzir a taxa de financiamento”, observaram analistas do Eurasia Group.








