Domingo, 30/08/26

Efeito contracionista dos juros se espalha e queda do PIB no 3º tri entra no radar

Efeito contracionista dos juros se espalha e queda do PIB no 3º tri entra no radar
Efeito contracionista dos juros se espalha e queda do PIB – Reprodução

Depois de um primeiro trimestre aquecido e turbinado por estímulos fiscais, a economia brasileira começa finalmente a dar sinais mais claros de perda de ímpeto. Diante do quadro de desaceleração mais espraiada entre os setores como reflexo dos juros altos, no momento em que o impacto de medidas expansionistas sai de cena, há quem veja chance de que o Produto Interno Bruto (PIB) entre em terreno levemente negativo no terceiro trimestre, após um crescimento que deve ser pífio de abril a junho.

No final do segundo trimestre, todos os dados oficiais de atividade caminharam na mesma direção, culminando com retração maior que o previsto, de 0,64%, do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) em junho, considerado um termômetro mensal do PIB. No período, excluindo o setor agropecuário, os componentes de indústria, serviços e impostos do índice recuaram E os dados já conhecidos para o trimestre seguinte apontam, ainda que de forma preliminar, desaquecimento adicional.

Em julho, as vendas no comércio brasileiro encolheram 0,1% ante junho, na comparação dessazonalizada, segundo o Iget, calculado pelo Santander em parceria com a Getnet. O indicador, estimado com base nas vendas de estabelecimentos credenciados à adquirente, tenta antecipar a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE. Já o Idat, indicador proprietário de atividade do Itaú, caiu 0,5% em igual comparação.

Também na abertura do terceiro trimestre, o fluxo pedagiado de veículos nas estradas ficou estável na comparação mensal, de acordo com medição da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) em parceria com a Tendências. Ao mesmo tempo, os índices de confiança do consumidor e empresarial da Fundação Getulio Vargas (FGV) cederam em julho ante junho, e seguem longe do patamar de 100 pontos, linha divisória entre pessimismo e otimismo.

Economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale diz que a perda de dinamismo da economia já estava contratada, diante do patamar bastante contracionista, e por período prolongado, da Selic. A dúvida é qual seria o ‘timing’ em que o aperto das condições financeiras seria transmitido à atividade com maior intensidade, diz Vale, o que ficou mais evidente no segundo trimestre e deve se aprofundar à frente.

“O segundo trimestre, na margem, deve mostrar uma desaceleração evidente, caminhando para uma possível queda do PIB no terceiro trimestre”, avalia o economista, observando que os primeiros números de julho, ainda incipientes, apontam enfraquecimento maior. “É uma economia que já perdeu tração no segundo trimestre, e é difícil imaginar que tenha reversão disso no terceiro e quarto trimestres”.

Um mapa de aquecimento elaborado pelo Bank of America (BofA), que inclui os principais dados econômicos mensais conhecidos para junho e julho, sustenta a visão do banco de que a atividade econômica arrefeceu de forma mais espalhada no período. De 10 dados acompanhados já disponíveis para o mês passado, três ficaram no campo negativo, enquanto quatro tiveram variação praticamente nula. Em junho, 6 deles recuaram.

Segundo a equipe de economia e estratégia chefiada por David Beker, os indicadores de alta frequência sugerem que “a tão esperada desaceleração no Brasil finalmente está se consolidando”, na medida em que a política monetária apertada está fazendo mais efeito justamente quando o impulso de medidas fiscais e creditícias está começando a se dissipar.

O índice de atividade proprietário da instituição sinaliza desaceleração adicional no terceiro trimestre, depois de a expansão do PIB ter passado de 1,1% no primeiro trimestre para 0,3% no trimestre seguinte pelas estimativas do BofA. “A mudança importante não é a fraqueza em um único indicador, mas a consistência crescente entre eles. Durante grande parte do ciclo de aperto, a atividade permaneceu surpreendentemente resiliente apesar dos juros altos. Essa resiliência agora está desaparecendo”, afirmam os economistas do banco, em relatório a clientes.

Embora não faça projeções para o desempenho do PIB na margem, Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, compartilha da percepção de que a economia está esfriando e pode ter retração nos três meses encerrados em setembro. Além do IBC-Br, Costa acrescenta que o Monitor do PIB, calculado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Ibre), também ratificou o enfraquecimento maior. O dado mostrou expansão 0,3% na atividade econômica no segundo trimestre frente ao primeiro.

“Se houver uma desaceleração de magnitude um pouco maior no segundo trimestre, a probabilidade de que o PIB venha negativo no terceiro trimestre é maior”, diz a economista, para quem o viés nas projeções de PIB no boletim Focus também é para baixo. Pelo consenso de mercado, a economia vai crescer 1,98% este ano, e 1,5% no próximo.

Nessa conta, os analistas consideram não só o efeito defasado da política monetária contracionista, que aumentou o endividamento das famílias e empresas, mas também a retirada do impacto de medidas fiscais e de crédito do governo, que elevou o crescimento no começo do ano.

Para o Itaú, a decepção com a atividade no segundo trimestre reflete um quadro em que parte do impulso fiscal esperado não se materializou na magnitude inicialmente prevista. “As evidências apontam para um impacto menor do que o esperado tanto da ampliação da isenção do IR quanto da redução da fila do INSS”, diz a equipe econômica do banco em relatório.

O Itaú revisou para baixo, de um ponto porcentual para 0,8 p.p., a estimativa de impulso fiscal sobre a atividade em 2026. A ampliação da faixa de isenção do IR mostra, até o momento, sinais limitados de transmissão para consumo, enquanto a redução da fila do INSS não se traduziu em aumento dos benefícios na magnitude projetada, explica o time de economistas liderado por Diogo Guillen.

Estadão Conteúdo

T LB

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